sábado, maio 10, 2025

#TOLERÂNCIA132 - DESAFIOS À TOLERÂNCIA, SEGUNDO O PAPA LEÃO XIV

 #TOLERÂNCIA132 - DESAFIOS À TOLERÂNCIA, SEGUNDO O PAPA LEÃO XIV

São muitas as expectativas que o Mundo em relação ao Papa Leão XIV. São expectativas de toda a Europa, a Europa do Atlântico aos Urais; da América do Norte; da América Latina; da muito sofrida África; do muito sofrido Próximo Oriente.

São sentimentos de intranquilidade, insegurança, incerteza, injustiça, sofrimento e morte iminente que anseiam por alguém que resgate os mais pobres, os mais sofridos, os mais injustiçados, da avareza dos senhores do poder económico e financeiro e da insaciável e inumana ambição política, e dos destruidores da saúde do Ambiente.

Leio num 'site' de Astronomia o seguinte: «A Terra tem 4,5 mil milhões de anos. A vida começou há 3,7 mil milhões de anos. E os seres humanos? Só existimos há 0,004% desse tempo. Apenas um piscar de olhos na história da Terra – mas agimos como se fossemos os protagonistas donos de todo o livro.»

O Mundo está mesmo ávido dum líder que leve os homens por caminhos mais justos, equitativos e solidários para todos; e que não comprometam o Futuro com o hiper e desregrado consumismo do Presente.

O Papa Francisco foi levando os homens por esses caminhos. Os primeiros passos do Papa Leão XIV alimentam a esperança de que a Igreja de Roma vai continuar a percorrer esses caminhos.

Eu, que não sou há muito homem de fé em Deus, ou nos Deuses, vou olhando as acções dos líderes dos grandes grupos humanos, por todo o lado, por todo o mundo, e o meu desencanto é cada vez maior; mas faço eco das palavras de Jane Goodall, e de mais uns poucos, que diz que não podemos desistir da Esperança; e que devemos acreditar na nossa capacidade de agir, de agir uns com os outros, em grupos e em comunidades.

No discurso do Papa Leão XIV aos membros do Colégio Cardinalício, hoje de manhã, ele diz a certa altura:

«Justamente por me sentir chamado a seguir nessa linha [Leão XIII, seguindo-se-lhe o Concílio Vaticano II, e depois o Papa Francisco], pensei em adoptar o nome de Leão XIV. Na verdade,

são várias as razões, mas a principal é porque o Papa Leão XIII, com a histórica Encíclica 'Rerum novarum', abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho.»

Stephen Hawking e Yuval Harari estão entre os mais sonantes nomes modernos que alertam a Humanidade inteira para os riscos do desenvolvimento da Inteligência Artificial. Um era físico teórico e cosmólogo; o outro é historiador. O Papa Leão XIV é... matemático; e é líder espiritual — que trabalhou dezenas de anos em comunidades de gente pobre e injustiçada.

Que vitórias conseguiu o Papa Leão XIII? Que vitórias poderá conseguir Leão XIV?

Vou tentar estar atento a duas coisas: a primeira tem a ver com os limites de Tolerância que o Papa vai propor para a Igreja de Roma, os fiéis católicos e o Mundo aceitarem e oporem-se aos desenvolvimentos da Inteligência Artificial; a segunda é as acções dos grupos e das comunidade humanas que ele será capaz de motivar e fazer acontecerem. Dou-lhe o benefício da dúvida e deposito nele a minha esperança.

Infelizmente, não vislumbro outras alternativas e aliados, nem doutros credos religiosos, nem de quaisquer ideologias políticas, sejam de que ponto sejam de todo o espectro político-partidário.

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sexta-feira, maio 09, 2025

#TOLERÂNCIA131 - A UNIÃO EUROPEIA E A TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA131 - A UNIÃO EUROPEIA E A TOLERÂNCIA

Estou muito satisfeito com a sessão que levámos a cabo na escola para celebrar o Dia da Europa. Soube-me especialmente bem ver o grande auditório da escola completamente cheio de jovens que durante mais de duas horas ouvir quem sabe da poda; e com quem falaram, pondo-lhe perguntas quase em torrente assim que o habitual acanhamento do arranque deste tipo de sessões foi vencido.

Acho que foi a melhor última vez que eu poderia desejar.

Porque me surpreendeu a enchente. A meia dúzia (só mesmo meia dúzia) de lugares vazios ali à frente foi compensada com as duas ou três dezenas de alunos que estavam lá em cima, no piolho.

Porque os seis jovens do painel que confrontou o convidado João Ferreira, ex-deputado do Parlamento Europeu, mostrou um notável trabalho de casa, muito bem feitinho, e todos em bem harmoniosa ligação uns com os outros.

Porque o convidado mostrou um notável respeito por toda a diversidade política que compõe o Parlamento Europeu; e foi senhor dum fino e claro fluir de informação, que é o que mais importa passar a jovens sedentos de dados, números e conhecimentos objectivos. Aos poucos, notou-se bem, a rapaziada deu mostras de confiar que não estava a ser catequizada.

Porque o que tinha de correr bem correu bem, e bendigo os colegas que fazem equipa comigo; e os que nos felicitaram pelo sucesso da acção.

Quando, há muito tempo, passei a estar no grupo de professores que organiza, todos os anos, a celebração do Dia da Europa na escola, arrisco a dizer que nenhum dos alunos hoje ali presentes tinha nascido.

Uns dirão que é a sensação de dever cumprido, outros dirão que me cumpri na essência do meu magistério de professor... Seja o que seja, no final da sessão desta manhã senti-me muito bem. Não deixo legado, não tenho qualquer intenção nesse sentido. Talvez deixe um bom exemplo, que vale o que vale. Dei o meu melhor. Sentir isso no fim da manhã, repito, soube-me muito, muito, muito bem.

Mas não arrumei as botas, isso não! Assim que pude, fui pesquisar os documentos oficiais que norteiam a acção da União Europeia. E lá está, na versão consolidada do Tratado da União Europeia de 2016, no seu artigo 2.º das Disposições Comuns:

A União funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da
igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das
pessoas pertencentes a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-Membros, numa sociedade
caracterizada pelo pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres.

O João Ferreira foi incisivo neste aspecto com toda a jovem plateia, que todos se empenhassem na exigência de que se realizem os princípios fundadores e as leis que os consubstanciam.

A escola deve ser activa na pedagogia e na educação dos valores enunciados no artigo 2.º. Estão para além da União Europeia, têm a ver com a essência da humanidade do ser gregário que é o Homo Sapiens. Mas não existem por si, no nada ou no vazio, concretizam-se e realizam-se na acção humana, acção essa que pede esforço, empenho e harmonização das diferenças.

A simples, mas muito avisada, sabedoria popular diz-nos há muito que «Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.» As sociedades humanas ainda não conseguiram ter o pão equitativamente distribuído em todas as casas. Não podemos nunca deixar de lutar para sermos capazes de o fazer.

Cabe-nos ser compreensivos e tolerantes com os nossos insucessos. Que a Tolerância, mais que levar-nos ao perdão, nos leve à renovação da vontade de continuar e nunca desistir. Nunca desistir do bem-estar de todos os seres humanos.

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quinta-feira, maio 08, 2025

#TOLERÂNCIA130 - O NOVO PAPA VAI SER UM BOM LÍDER MUNDIAL?

 #TOLERÂNCIA130 - O NOVO PAPA VAI SER UM BOM LÍDER MUNDIAL?

A primeira informação que li num canal televisivo (o barulho à volta era algum e a televisão devia estar com o som baixinho) foi "Papa norte-americano". A reacção automática que tive foi de susto.

Já fui, à pressa, aos chatbots procurar alguma informação acerca do que diz ele sobre a Tolerância. É este o resumo que fiz:

Robert Francis Prevost foi nomeado cardeal pelo Papa Francisco em 2023 e é actualmente o prefeito do Dicastério para os Bispos, é uma figura importante na Cúria Romana. Quanto à sua posição sobre a tolerância, Prevost, como alto oficial da Igreja, segue o ensinamento católico tradicional, que defende a caridade e o respeito no diálogo com todas as pessoas, sem abandonar os princípios doutrinais.

Embora não haja declarações públicas extensas dele especificamente sobre "tolerância" no sentido moderno, a sua trajetória sugere um equilíbrio entre fidelidade à doutrina e abertura pastoral, alinhado com o magistério do Papa Francisco. A Igreja, sob a sua liderança no Dicastério, continua a promover o encontro com culturas e religiões diferentes, mas sempre fundamentado na verdade católica.

É o primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos, natural de Chicago. Aos 69 anos, possui uma trajetória marcada pelo serviço missionário no Peru, onde se tornou cidadão e actuou como bispo de Chiclayo de 2015 a 2023. A sua actuação pastoral destacou-se pelo trabalho com comunidades marginalizadas, incluindo migrantes venezuelanos, evidenciando o seu compromisso com a inclusão e a justiça social.

No discurso de posse da sua nomeação como Prefeito (2023), terá dito «A Igreja deve ser "uma casa de portas abertas", onde as diferenças culturais são respeitadas, mas sem fragmentar a unidade da fé.»

Os relatórios oficiais acerca dele apontam-lhe "Discernimento cultural" (em que busca líderes que conheçam a realidade local (por exemplo, línguas nativas e costumes). Também "Evita o colonialismo eclesiástico" (não impor modelos europeus a Igrejas jovens). No Peru, apoiou a tradução de liturgias para línguas quéchua e aymara, respeitando expressões locais da fé. Como membro da USCCB (Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos), discutiu a integração de imigrantes latinos na Igreja, defendendo uma "unidade na diversidade.

São esperançosas estas informações. Que a fé que o guia o faça promotor dum Mundo mais justo, com grande sucesso na redução da Pobreza Humana e na promoção da Paz e da Fraternidade entre todos os grupos humanos.

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quarta-feira, maio 07, 2025

#TOLERÂNCIA129 - VAMOS ACEITAR UMA FAMÍLIA PAQUISTANESA?

 #TOLERÂNCIA129 - VAMOS ACEITAR UMA FAMÍLIA PAQUISTANESA?

Hoje, mais uma vez, fui confrontado com a ideia simplista, sincrética, estereotipada e preconceituada de que os imigrantes vêem para cá tirar os empregos aos portugueses e que têm logo direito a benefícios que os portugueses não têm.

Provavelmente, o ressurgimento do tema, para além da presença das propagandas focadas na imigração (a favor ou contra) nas campanhas eleitorais para as próximas eleições legislativas, deve-se à grande publicitação das recentes medidas do Governo de notificação de imigrantes ilegais para deixarem o País.

Em muitas das escolas do País está a celebrar-se a Semana da Europa, que culminará na próxima sexta-feira, dia 9, com o Dia da Europa.

Sim, a Educação deve ter uma palavra a dizer na reflexão de temas deste género, propondo actividades escolares e estratégias pedagógicas que lidem com a informação e a desinformação, os preconceitos e os estereótipos.

A título exploratório, pedi a um dos chatbots que criasse um primeiro jogo focado nas oportunidades e nos desafios que a Imigração coloca aos países da União Europeia. Dei instruções simples ao chatbot, e ele criou este jogo, que considero uma muito satisfatória primeira abordagem.

DINÂMICA DE GRUPO: MIGRAÇÕES - DESAFIOS E OPORTUNIDADES

1 - Objectivo: Estimular a reflexão e o debate sobre as implicações sociais, culturais e económicas da aceitação de imigrantes, promovendo empatia e compreensão intercultural.

2 - Duração: 60-75 minutos

3 - Participantes: 7 jovens europeus (ex.: Alemanha, França, Itália, Polónia, Suécia, Portugal, Espanha)

4 - Etapa 1 - Apresentação da Situação: Uma família paquistanesa procura asilo e deseja estabelecer-se permanentemente num pais europeu. A decisão de acolhê-los esta nas mãos de um comité juvenil europeu que representa diferentes países da União Europeia. Vocês são esse comité.

5 - Família Imigrante - Perfil
Composição familiar: Pai (motorista), Mae (costureira), 3 filhos (5, 9 e 14 anos)
Religião: Muçulmana praticante
Língua: Urdu (pais), inglês básico (pai), nenhum conhecimento de línguas locais
Educação dos pais: Ensino médio incompleto
Costumes culturais: Uso de roupas tradicionais, práticas de jejum e oração
Integração desejada: Abertos a aprendizagem da língua local, querem que os filhos frequentem a escola
Condição económica: Escassos recursos financeiros, mas disponíveis para trabalhar
Outras características: Fugiram de perseguição religiosa (são xiitas)

6 - Etapa 2 - Discussão em Grupo
Cada jovem assume a perspectiva do seu pais de origem. Com base nas suas realidades políticas, sociais e
culturais, devem discutir os prós e contras da aceitação desta família.

7 - Temas a considerar:
Adaptação cultural e linguística
Tolerância religiosa
Condições económicas e sociais
Potencial de integração
Benefícios/dificuldades para a comunidade local

8 - Papéis sugeridos:
Facilitador/a: guia o debate
Secretário/a: toma nota das principais ideias

9 - Perguntas para guiar o debate:
O que pode esta família contribuir para a nossa sociedade?
Que obstáculos podem surgir para a sua integração?
O que a comunidade pode ganhar ou perder com esta acolhida?
Como equilibrar valores culturais diferentes com os nossos?

    10 - Etapa 3 - Conclusão e Votação
    Cada jovem deve resumir a posição do seu país e votar a favor ou contra a aceitação da familia, justificando a sua decisão.

    11 - Resultados Esperados
    Consciência crítica sobre o fenómeno migratório
    Reconhecimento da complexidade das decisões políticas
    Desenvolvimento de empatia e respeito intercultural
    Identificação de preconceitos e estereótipos

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    terça-feira, maio 06, 2025

    #TOLERÂNCIA128 - A INTOLERÂNCIA E A CAPACIDADE DE ENCAIXE

     #TOLERÂNCIA128 - A INTOLERÂNCIA E A CAPACIDADE DE ENCAIXE

    Não é, nem de perto, nem de longe, um monopólio dos mais jovens, mas é frequente, numa palestra, conferência ou debate, o orador ser confrontado com a impulsividade da reacção intolerante do aluno que pediu a palavra e não quer de maneira nenhuma perder a oportunidade de levar incómodo ou dúvida ao orador.

    Para lá de tudo o que pudesse ser dito acerca do modo de estar do adolescente, e do jovem adulto, que busca de forma agressiva a afirmação pessoal perante o Outro, com tudo o que isso pode denunciar de verdura de anos e insipiente informação, o que quero realçar agora é que o orador deve ser capaz de aceitar que aconteça assim. E quero também realçar que a boa reacção à postura intolerante do jovem estudante pode ter um efeito de influência pedagógica bastante positivo à intolerância aberta, disfarçada ou contida que ele expressa, dando-lhe um bom ensejo de amaciar a reacção impulsiva intolerante, ou mesmo de, com o tempo, fazê-la desaparecer de todo.

    Em 2 dias de actividades extra-curriculares, participei na organização de 3 sessões com convidados que levámos à escola, cada sessão com seu auditório, logo, foram 3 auditórios.

    Reconheço que a minha preocupação acaba por não ter a ver com o que o aluno que pediu a palavra vai dizer, mas, isso sim, ter a ver com a maneira como o orador pudesse reagir.

    O balanço destes dois dias foi francamente positivo, mas reforço a ideia de que seria interessante levar a cabo junto dos professores (os conferencistas do dia-dia das escolas) e de quem mais quisesse (e fico a desejar que grande parte deles desejem) acções pedagógicas de sensibilização, sugestão e treino para serem capazes de receber, sem se sentirem atacados ou ofendidos com as investidas impulsivas da rapaziada, as quais, no fundo, são próprias dela. Acolher sem rechaçar, responder não impulsivamente e não agressivamente.

    Relembro o que dizia João dos Santos: «Educar é oferecer-se como modelo.» Também nos confrontos das aulas, das palestras, das conferências e dos debates, os grandes devem oferecer-se como modelos. Modelos de escuta, tolerância e capacidade de diálogo.

    Ah! Quanto aos quatro oradores das 3 sessões destes 2 dias: safaram-se muito bem.

    Ilustro com um caso, que acabou por ser muito divertido: na fase final da sessão do mirandês com uma

    turma do 7.º ano, em que os alunos foram convidados a perguntar sobre como se diziam coisas em mirandês, uma muito empenhada aluna, de sorriso largo no rosto, antecipadamente deleitando-se com o entalanço que iria provocar nos 2 oradores, perguntou-lhes como se dizia em mirandês "otorrinolaringologista". Ora, os oradores vacilaram mesmo!

    Foi nessa altura que o edificante modelo social dos mais velhos se revelou em toda a sua plenitude: tranquilamente, com sorrisos bem-humorados, que revelam confiança e serenidade, eles disseram que tinham de pensar, e foram mesmo ao quadro ensaiar, à frente de todos, a escrita, em conformidade com as regras de construção das palavras na língua mirandesa. E acabaram por chegar a uma forma que os satisfez, e que satisfez também a entusiástica menina. Foi mesmo um momento precioso de relação pedagógica e aprendizagem social.

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    segunda-feira, maio 05, 2025

    #TOLERÂNCIA127 - A NOSSA TOLERÂNCIA LINGUÍSTICA SÓ PODE SER ZERO?

     #TOLERÂNCIA127 - A NOSSA TOLERÂNCIA LINGUÍSTICA SÓ PODE SER ZERO?

    O texto de hoje é um plagio, ou um roubo. Quem o escreveu foi o linguista, professor e tradutor, Marco Neves. Que esteve hoje na Eça de Queirós a falar da Língua Portuguesa, das outras línguas de Portugal e das línguas do mundo. A pergunta do título é dele, e está no texto que a seguir para aqui copio integralmente. Eu sei que ele me perdoa.

    Antes do texto, quero deixar nota duma perspectiva de morte duma língua que ele partilhou «Há quem diga que uma língua não morre quando morre o último falante dessa língua, mas o penúltimo, é que assim o último falante deixa de ter alguém com quem falá-la.»

    O vício do purismo
    Celebrar a Língua Portuguesa—ou atirar a primeira pedra? (o texto é de 4 de Novembro de 2014)

    LEIO ESTE MANIFESTO sobre os 800 anos da nossa língua (aliás, os 800 anos do primeiro documento oficial) e acho que não deixa de ser uma forma inteligente de falar do português sem cair no já cansativo tema do “Acordo ou não Acordo”. Sim, é bom falar da nossa língua sem polémicas e sem medos.

    Por baixo do artigo, encontro um link para um blog que refere o manifesto publicado pelo Público.

    Vou ler o blog. O blogger menciona o Manifesto, mas parece ficar ligeiramente enojado com o português do Manifesto:

    Eu até ia postar o texto inteiro — apócrifo — sobre os 800 anos da língua portuguesa, mas comemorar uma data tão importante com um “a nível de”, eu me recuso!

    A ideia geral é esta: ah, e tal, eles até celebram a língua, mas estão a maltratá-la! Porquê? Porque no Manifesto, a certa altura, encontramos a expressão “a nível de”.

    Pois, exacto.

    O que interessa estarmos a falar da nossa língua, quando o texto que a celebra usa tão pérfida expressão?

    Tenho de perguntar: o que está errado com esse uso de “a nível de”? Será uma expressão pouco clara? Será uma expressão demasiado “popular”? Será pouco formal? É evitada por pessoas de elevado nível académico? Ou tudo isto é apenas uma irritação pessoal do autor, umas das manias linguísticas que algumas pessoas não conseguem distinguir dos erros verdadeiros?

    Neste caso, para além do purismo inflamado, presumo que haja alguma confusão do blogger, que não estará habituado à variante lusitana do português, na qual “a nível de” é perfeitamente aceitável (talvez um pouco afectada). Pelos vistos, no Brasil, é considerada um “erro comum” (vejam o número seis desta lista). É, provavelmente, daquelas expressões que muitos usam e alguns acham que ninguém deve usar, porque é feio e hoje não me apetece. Mesmo que seja um erro no Brasil (não me parece, mas não vou comentar), não é um erro na variante em que o texto está escrito.

    Temos um texto que chama a atenção para essa data que ninguém conhecia: o aniversário do primeiro documento oficial em português (e, em Portugal, o Manifesto teve impacto mediático, raro nestas questões da língua). Mas que vale isso perante uma expressão que nos irrita?

    Enfim, já devia saber que há pessoas especialmente susceptíveis ao vício do purismo inflamado.

    NÃO TRAGO À LIÇA UM ARTIGO num blog qualquer só para bater num blogger que estava para ali virado nesse dia. Refiro esse blog porque é um exemplo claro da crítica “disparar primeiro e perguntar depois”. A lógica deste purismo mal orientado é a seguinte: a expressão parece vagamente errada ou irritante? Vamos acusar os autores do texto de maltratarem a língua! Nem vale a pena dar o benefício da dúvida. O crítico fica sempre protegido no seu escudo de Protector da Língua. Os outros que se cuidem…

    Pensem lá. Mesmo que a expressão em causa (“a nível de”) não fosse a mais feliz; mesmo que

    pudéssemos rescrever o texto para a evitar; mesmo que fosse um erro… Será o suficiente para mandar para as urtigas todo um texto? A nossa tolerância linguística só pode ser zero? Não podemos celebrar a língua e falar da língua sem medo de irritar os polícias da língua?

    Este é apenas um exemplo dos inúmeros casos de pessoas que, perante um texto, procuram com prazer os mínimos erros ou gralhas ou mesmo certas expressões ou construções irritantes, ignorando olimpicamente o conteúdo. Para quê ler e pensar, quando podemos passar o tempo a ser deliciosamente puristas? Para quê ler de forma aberta um texto, quando podemos mostrar ao mundo que somos muito puros nessa coisa da língua?

    É um vício, como tantos outros e nem sempre vem daí mal ao mundo. Só que convém, de vez em quando, alfinetar esse balão de convencimento, não vá dar-se o caso de estes viciados no purismo estragarem o prazer que todos temos em ler e escrever.(1)

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    (1) https://medium.com/entre-linguas/bbae91508302

    domingo, maio 04, 2025

    #TOLERÂNCIA126 - MARCO AURÉLIO, A MÃE, A GENEROSIDADE E A TOLERÂNCIA

     #TOLERÂNCIA126 - MARCO AURÉLIO, A MÃE, A GENEROSIDADE E A TOLERÂNCIA

    A celebração deste domingo, o Dia da Mãe — que era para a minha mãe, sempre, um dia muito especial — traz a oportunidade para o que a seguir vou reproduzir, que li no livro "How to Think Like a Roman Emperor", de Donald Robertson, de 2019.

    «Com o passar dos anos, Marcus tornar-se-ia cada vez mais consciente da sua desilusão com os valores dos sofistas e da sua afinidade natural com os dos estóicos. É provável que, em certa medida, possamos agradecer à sua mãe por este facto. Domitia Lucilla era uma mulher notável que, tal como o pai de Marco, provinha de uma distinta família patrícia romana. Era também imensamente rica, tendo herdado uma vasta fortuna, incluindo uma importante fábrica de tijolos e azulejos situada perto de Roma. No entanto, Marcus diria mais tarde que foi particularmente influenciado pela simplicidade e despretensiosismo do seu modo de vida, “muito distante do dos ricos”.

    «Este amor pela vida simples e a aversão à ostentação impressionaram o filho. Várias décadas mais tarde, Marcus revelou a sua aversão à pretensão e corrupção da vida na corte em “As Meditações”. Prometeu a si próprio, no entanto, que nunca mais perderia o seu tempo a reflectir negativamente sobre ela. Acrescentou que era apenas através do recurso à filosofia que a vida na corte parecia suportável para ele, e ele suportável para os que estavam na corte. Recordou a si próprio que onde quer que fosse possível viver, era possível viver bem, viver sabiamente, mesmo em Roma, onde sentia claramente que era uma luta manter-se em sintonia com a virtude estóica. A insinceridade da vida na corte era para ele uma frustração constante, e passou a confiar no estoicismo como forma de lidar com a situação.

    «Marcus também aprendeu a generosidade com a sua mãe. Quando a sua única irmã casou, Marcus

    deu-lhe a herança que o pai lhe tinha deixado. Ao longo da sua vida, recebeu muitas outras heranças e, segundo consta, dava-as aos parentes mais próximos do falecido. Décadas mais tarde, durante o seu reinado como imperador no início da Primeira Guerra Marcomana, Marcus descobriu que o tesouro do Estado estava esgotado. Em reacção, organizou um leilão público, com a duração de dois meses, no qual foram vendidos inúmeros tesouros imperiais para angariar fundos para o esforço de guerra . A sua indiferença em relação à riqueza e aos ornamentos da corte imperial revelou-se, portanto, de grande valor para responder a uma grave crise financeira.

    «A mãe de Marcus era uma amante da cultura grega e pode ter apresentado o seu filho a alguns dos intelectuais que mais tarde se tornaram seus amigos e professores. Marcus menciona que o seu mentor estóico, Junius Rusticus, o ensinou a escrever cartas num estilo muito simples e desafectado, como uma, em particular, que Rusticus enviou à mãe de Marcus de Sinuessa, na costa italiana. Talvez Rusticus e a mãe de Marcus fossem amigos há muitos anos. Juntamente com o amor da mãe pela cultura grega, alguns dos valores romanos passados de moda incutidos a Marco durante a sua educação abriram, sem dúvida, caminho para o seu posterior interesse pela filosofia estóica. De facto, pode ser por isso que ele se lembra deles nas passagens iniciais de “As Meditações”.

    «Marcus começou a desenvolver estes valores através de uma formação em filosofia desde uma idade excecionalmente jovem. A História Augusta diz que ele já era totalmente dedicado à filosofia estóica enquanto Adriano ainda estava vivo. No entanto, parece que aprendeu a filosofia como um modo de vida prático quando ainda era um rapazinho que vivia em casa da mãe, muito antes de começar a estudar teoria filosófica com vários tutores eminentes. Primeiro, ensinou-se a suportar o desconforto físico e a ultrapassar hábitos pouco saudáveis. Aprendeu a tolerar as críticas dos outros e a não se deixar influenciar facilmente por belas palavras ou lisonjas.

    «Dominar as nossas paixões desta forma é a primeira etapa do treino no estoicismo. Epicteto chamou-lhe a “Disciplina do Desejo”, embora englobe tanto os nossos desejos como os nossos medos ou aversões. Como vimos, os estóicos foram muito influenciados pelos filósofos cínicos que os precederam. Epicteto ensinou uma forma de estoicismo que tinha aspectos do cinismo em particular consideração. É dito que ele era conhecido pelo slogan “suportar e renunciar” (ou “suportar e aguentar”).

    «Marcus parece lembrar-se deste ditado n’ As Meditações quando diz a si próprio que deve procurar suportar os defeitos das outras pessoas e abster-se de qualquer acto ilícito contra elas, enquanto aceita calmamente as coisas que estão fora do seu controlo directo.»(1)

    (1) Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

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    sábado, maio 03, 2025

    #TOLERÂNCIA125 - «QUANDO A TOLERÂNCIA NOS TORNA CEGOS»

     #TOLERÂNCIA125 - «QUANDO A TOLERÂNCIA NOS TORNA CEGOS»

    É Andrew Solomon que começa assim uma frase no capítulo 12, Pais, do seu enorme livro "Longe da Árvore, pais, filhos e a busca da identidade".

    Ele começa o capítulo escrevendo «Comecei este livro para perdoar os meus pais e terminei-o tornando-me pai.» Mais à frente, escreve: «Em 2008, a agência de notícias Associeted Press divulgou o nascimento de uma criança com dois rostos numa aldeia do norte da Índia. Lali Singh apresentava diprosopia, ou duplicação cranioencefálica, malformação rara em que uma única cabeça tem dois narizes, duas bocas w dois pares de olhos. O director clínico do hospital em que ela nasceu disse: "Ela tem tido uma vida normal, sem dificuldades respiratórias."»(1)

    O jornal Los Angeles Time escreve assim no dia 9 de Abril desse ano, 2008: «A Índia rural é profundamente supersticiosa e a menina está a ser saudada como um regresso da deusa hindu da coragem, Durga, uma divindade ardente tradicionalmente representada com três olhos e muitos braços. Cerca de 100 pessoas têm visitado Lali em sua casa todos os dias para tocar seus pés em sinal de respeito, oferecer dinheiro e receber bênçãos, disse Singh à The Associated Press. “Lali é uma dádiva de Deus para nós”, disse Jaipal Singh, um membro do conselho da aldeia local. “Ela trouxe fama à nossa aldeia”. O chefe da aldeia, Daulat Ram, disse que planeava construir um templo para Durga na aldeia. “Estou a escrever ao governo do estado para fornecer dinheiro para construir o templo e ajudar os pais a cuidar da sua filha”, disse Ram. O estado de Lali está frequentemente associado a complicações de saúde graves, mas o médico disse que ela estava bem.»

    Os pais recusaram as avaliações clínicas aconselháveis. A bebé sobreviveu 2 meses.

    «A beleza desta história — a aparentemente imediata aceitação da filha invulgar pelos pais — transformou-se em tragédia por eles terem confundido a integridade da filha com normalidade. Os pais de Lali acreditavam que o seu amor e a sua tolerância determinariam o que a filha viria a ser, mas essas qualidades determinaram, na verdade, apenas que eles fossem pais amorosos. A admissão da diferença não ameaça o amor; pelo contrário, pode enriquecê-lo.»

    Eu vou repetir: «Quando a Tolerância nos torna cegos para as necessidades da nossa prole, o amor transforma-se em negação.»

    Penso que, neste caso, a Tolerância anda de mãos dadas com a Resignação; e com outras motivações e crendices que são comuns em ambientes de demasiada simplicidade intelectual, cultural e espiritual.

    Parece-me, este caso, um bom tema para uma interessante reflexão em grupo acerca das vicissitudes da Tolerância e das múltiplas e complexas maneiras como ela se liga ao Amor.

    #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التسامح,

    (1) Edição portuguesa da Quetzal Editores, 2017.

    sexta-feira, maio 02, 2025

    #TOLERÂNCIA124 - COMO É QUE A TOLERÂNCIA É CANTADA?

     #TOLERÂNCIA124 - COMO É QUE A TOLERÂNCIA É CANTADA?

    Pus-me à procura... A primeira que encontrei foi esta. Noutro dia procurarei outras.

    Como água num deserto
    Procurei seu passo incerto
    Pra me aproximar a tempo

    O seu código de guerra
    E a certeza que te cerca
    Me fazem ficar atento

    Não me importa a sua crença
    Eu quero a diferença
    Que me faz te olhar de frente

    Pra falar de tolerância
    E acabar com essa distância
    Entre nós dois

    Deixa eu te levar
    Não há razão e nem motivo pra explicar
    Que eu te completo e que você vai me bastar
    Tô bem certo de que você vai gostar
    Você vai gostar

    Deixa eu te levar
    Não há razão e nem motivo pra explicar
    Que eu te completo e que você vai me bastar
    Tô bem certo de que você vai gostar
    Você vai gostar, é...

    Como lava no oceano
    Um esforço sobre humano
    Pra recomeçar do zero

    Se pareço ainda estranho
    Se não sou do seu rebanho
    E ainda assim te quero

    É que o amor é soberano
    E supera todo engano
    Sem jamais perder o elo
    E é por isso que te espero
    E já sinto a mesma coisa em seu olhar

    Deixa eu te levar
    Não há razão e nem motivo pra explicar
    Que eu te completo e que você vai me bastar
    Tô bem certo de que você vai gostar
    Você vai gostar

    Deixa eu te levar
    Não há razão e nem motivo pra explicar
    Que eu te completo e que você vai me bastar, eu sei
    Tô bem certo de que você vai gostar
    Você vai gostar

    Deixa eu te levar
    Não há razão e nem motivo pra explicar
    Que eu te completo e que você vai me bastar, eu sei
    Tô bem certo de que você vai gostar
    Você vai gostar, é...

    Deixa...

    Da cantora brasileira Ana Carolina. A canção já tem uns anitos, lá para o começo do século.

    #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التسامح

    quinta-feira, maio 01, 2025

    #TOLERÂNCIA123 - TOLERÂNCIA E INTOLERÂNCIA NO TRABALHO

     #TOLERÂNCIA123 - TOLERÂNCIA E INTOLERÂNCIA NO TRABALHO

    Ponto prévio: hoje é dia de marco especial: a partir de hoje, está cumprido o primeiro terço da aventura-viagem no reino da Tolerância. Sim, falta ainda muito até à estação final, mas o caminho percorrido já é considerável.
    Fico especialmente satisfeito por acontecer no Dia do Trabalhador.
    Precisamente por estar a ser um dia intensamente dedicado ao trabalho, tomo apenas nota de uma
    lista para, digamos, memória futura:
    A Tolerância no ambiente de trabalho.
    Coisas que podem, e devem, ser toleradas:
    primeiro: Flexibilidade horária
    segundo: Aceitação de erros pontuais
    terceiro: Aceitação de diferenças de opinião
    quarto: Abertura adaptativa às mudanças
    quinto: Pressão razoável, amiga da saúde dos trabalhadores, por resultados
    Coisas intoleráveis, que devem ser combatidas:
    primeiro: Todas as formas de assédio pessoal
    segundo: Todas as formas de discriminação individual ou de grupo
    terceiro: Trabalho não remunerado ou remunerado abaixo do que é justo
    quarto: Falta de condições no acesso ao trabalho e de segurança no trabalho
    quinto: Incumprimento em tempo oportuno das promessas e dos acordos laborais.
    Esta lista, aberta, em qualquer altura pode ser enriquecida com sugestões e contributos.