domingo, março 31, 2019

A flor, desenhar uma flor

Poucos conseguem encontrar as palavras, e a sua ordem, para falar do que vai na alma da criança que se entrega ao desenho.
autor: Victor Manuel Marques Candeias
«Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutra; umas mais carregadas, outras mais leves umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!»
José Almada Negreiros, in “O Regresso ou o Homem Sentado – III parte”
Nota: o texto e o desenho estão juntos na antologia "A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa", 1.ª edição, do Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina, Luanda, 1970.

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Meu amor é a Língua Portuguesa. (Sim, eu sei, é um plágio)

Era uma vez um par de namorados: uma menina e um papagaio. A menina chamava-se Língua Portuguesa e o papagaio, coitado, não tinha nome.

Um dia o papagaio desapareceu. Foi para bem longe, seduzido por graciosos amigos. A menina, apaixonada, procurou, procurou, procurou, sempre por onde o seu coração pedia. O Amor a guiou, o Amor os juntou outra vez. Até hoje, não voltaram a separar-se; nem o querem fazer nunca mais. Aliás, já os viram fazer planos para o Dia dos Namorados que está a chegar.

Mas afinal o que se passou?

Quem o conta é a escritora Lídia Jorge, no Contrato Sentimental. Assim:

«A história é breve e verdadeira, e narra-se mais ou menos da seguinte forma — Àquela data, ali na zona da península de Setúbal, uma família possuía um papagaio. O papagaio costumava voar para junto dos flamingos, subia para o dorso deles e por ali andava a dizer aquelas coisas que os papagaios dizem. Mas um dia o papagaio desapareceu. Consta que os donos percorreram os sapais de ponta a ponta, e nada. Puseram anúncio, e nada. Só que ao mesmo tempo que os donos, em Portugal, perdiam a esperança de encontrar o seu papagaio, na Tunísia aparecia um papagaio no meio dum bando de flamingos. Tinha voado com os flamingos. E imaginam, por acaso, como os serviços agropecuários tunisinos deram por que o papagaio era português? Pela simples razão de que o bicho entre outras palavras grasnava «amor, amor, amor». Ora os linguistas locais foram chamados a analisar a palavra insistentemente proferida e descobriram que a entoação era portuguesa de Portugal. Nem ‘amor’ espanhol com a aberto, nem ‘amore’ italiano com as vogais todas ao alto, nem ‘amor’ brasileiro, que prolonga o ‘ô’ bem fundo, e arrasta o ‘r’ final na profundidade da garganta, encorpando a palavra até ao sussurro. Não, não era nenhum deles — tratava-se do nosso ‘amor’, com as vogais bem sumidas, bem contidas, obrigando a pessoa a arredondar os lábios e a recuá-los logo, ao contrário dos franceses, que os têm de unir e fazer avançar em forma de bico ou de beijo. Nada disso, nem redondo, nem bico nem beijo. O «amor» do papagaio era ‘amor’ pronunciado à portuguesa, rápido, sumido, produzido a meio gás, a meio da garganta. O nosso amor. Então a história terminou bem. Descoberta a nacionalidade, os tunisinos ligaram para os homólogos de Portugal, os funcionários foram examinar a lista de papagaios perdidos e transformaram aquele espécime, de papagaio perdido, em papagaio achado.»(1)

(1) Lídia Jorge, “Contrato Sentimental”, Sextante Editora, Lisboa, 2009, pp. 128-9.

domingo, novembro 25, 2018

"A Europa" de Eça de Queiroz - edição quadrilingue

A EUROPA  *  L’ OUROPA  *  L’ EUROPE  *  EUROPE
Homenagear o patrono da escola com a edição quadrilingue de “A Europa”, de 1888. A tradução inédita do texto, quanto mais em 4 línguas!
português: A «crise» é a condição periódica da Europa.
mirandês: La «crise» ye la cundiçon quaije regular de l’Ouropa.
francês: La « crise » est la condition périodique de l’Europe.
inglês: “Crisis” is the almost standard condition in Europe.
1888 é também o ano de “Os Maias”, que a Gulbenkian e os CTT vão celebrar no dia 30.
Mas o dia de Eça é hoje: - Parabéns, Eça de Queiroz!

Com a colaboração entusiasta de portugueses valentes, de dentro e de fora da escola; e outros notáveis europeus. A todos eles agradeceremos publicamente como merecem.

A primeira partilha será na próxima semana, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, com alunos e professores dos outros países da União Europeia.

sábado, setembro 29, 2018

A boneca perdida, a criança nunca encontrada, as cartas procuradas, o afecto que nunca esmoreceu


A boneca perdida, a criança nunca encontrada, as cartas procuradas, o afecto que nunca esmoreceu

Um ano antes da sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular.
Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido a sua boneca.
Kafka disse à menina que queria ajudá-la a encontrar a boneca, ia procurá-la, e combinou um encontro com ela no dia seguinte, no mesmo lugar, podia ser que a tivesse encontrado.
Não tendo encontrado a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu-a à pequenita quando se encontraram. A carta dizia: “Por favor, não chores por mim, parti numa viagem para ver o mundo, e quero contar-te as minhas aventuras.”
Durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina outras cartas que narravam
as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo: Londres, Paris, Madagáscar…
Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!
No final das três semanas, Kafka deu de presente à menina uma outra boneca.
A boneca era, obviamente, diferente da boneca original.
A última carta da boneca, que chegou no mesmo dia da nova boneca, dizia assim: “Não te assustes, não me estranhes, a minha viagem transformou-me…”.
Anos depois, a garota encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta.
O bilhete dizia:
“Tudo que amamos, eventualmente perderemos, mas, no fim, o amor voltará numa forma diferente.”

Nota: Será verdade o que a história conta? Durante anos, Klaus Wagenbach, um estudioso de Kafka, procurou a menina pela região próxima ao parque, investigou com os vizinhos, colocou anúncio nos jornais, mas nunca conseguiu encontrar a pista da menina ou das cartas. Contada e recontada, a versão mais difundida da história é a do conto de Jordi Sierra I Fabra “Kafka y la Muñeca Viajera”.

Querido aluno, viaja! Ousa, aceita transformar-te! Olha, embarca já nesta: a da Psicologia — cada aula é uma paragem: Paris, Roma, Londres, e por aí fora…

Um beijinho grande de carinho e gratidão à Professora Manuela Barros Ferreira, que me fez embarcar na fascinante viagem deste conto!


Bibliografia
O conto e o testemunho de Jordi Sierra I Fabra:

quarta-feira, setembro 19, 2018

O PROFESSOR DE PSICOLOGIA ENQUANTO SUJEITO DOS TRABALHOS MONOGRÁFICOS


Conversas reais ou imaginárias com alunos, 1

O PROFESSOR DE PSICOLOGIA ENQUANTO SUJEITO DOS TRABALHOS MONOGRÁFICOS

— Mas, ó “stôr”, porque é que não o podemos escolher a si como sujeito do trabalho monográfico,
"O pensador" original, na Porta do Inferno.
será que é diferente das outras pessoas?...
A provocação é grande, mas a resposta não é difícil.
— Caro aluno, o caso que eu vos contei acerca da forma como cheguei ao contacto com o Professor António Damásio, o que nos diz ele? É que o desafio que vos proponho, o desafio vencedor, é aquele em que nós vamos um pouco mais além do que óbvio, do que é lógico: se eu quero falar com o Professor António Damásio, escrevo ao Professor António Damásio. Foi o que fez o vosso colega, insistindo ao longo de mais de 2 meses. Resultado: nada, o que o fez querer desistir do Professor António Damásio enquanto sujeito monográfico. E que fiz eu para chegar ao Professor António Damásio em menos de 24 horas? Não escrevi ao Professor António Damásio, não foi o que vos disse?
Porta do Inferno (Musée Rodin).
                No fundo, o que fiz eu? Pensei um pouco para além do óbvio, do imediato; do lógico. Quer dizer, essencialmente, em vez de pensar de forma convergente, pensei de forma divergente, criativa. Imaginei o Professor no seu dia-a-dia de trabalho, na maneira como se move entre as aulas que dá, as investigações em que participa, as teses que orienta, as leituras que faz, a correspondência que manda e recebe, etc.
                Então, agora, pensem cá uma coisa: nunca algum de vocês teria hipótese de fazer o trabalho monográfico comigo! Vejam lá se é obvio, ou não: os meus alunos fazem trabalhos monográficos há vários anos — vocês acham mesmo que são os primeiros a quererem fazer o trabalho monográfico comigo? Se eu já tivesse dito sim a um dos vossos colegas, em resultado das regras (não se podem repetir sujeitos monográficos), o que eu agora vos diria era “Não posso, já alguém fez o trabalho comigo.”
                Por outro lado, para ser justo com todos, da mesma maneira que vos estou a dizer não, disse não a todos os outros. O que eu tenho dito aos vossos colegas dos outros anos é o seguinte: “Aceitarei ser sujeito de trabalho monográfico quando tiver a certeza de estar a leccionar o meu último ano de aulas. E mesmo nessa altura, só serei se algum dos alunos quiser; se não quiserem, nem nesse ano serei. Portanto, aquele ‘nunca’ lá de trás vale para todos os anos em que ainda venha a dar aulas, excepto para o último ano.”

sexta-feira, setembro 07, 2018

Do gene egoísta à cultura altruísta

A convincente verdade do gene egoísta de Richard Dawkins, que nos mete pela cabeça dentro a lei do mais forte/apto, arrasa as concepções (românticas?) dos ideias humanistas e solidários. A
inevitabilidade da selecção genética, tal como o sábio e feliz Charles Darwin soube explicitar de forma sistemática, é, tanto quanto parece, irrefutável.
Se o egoísmo está-nos no sangue, a fascinante viagem evolutiva do Homo sapiens equipou a mente com os grandes adversários: a compaixão e a inteligência.
Qual é a estratégia que a compaixão e a inteligência arquitectaram para conter a frieza do egoísmo genético e, inclusivamente, usar a sua força a favor do companheirismo e da solidariedade em vez da competição e da anulação dos outros? A estratégia tem um nome: Cultura; também podemos dizer Civilização.
Só que o Gene Egoísta não desarma - e o que hoje em dia assistimos na vida dos Povos ( a recuperação dos idealismos nacionalistas, que excluem os outros; o "America first", de Trump; e os estilos de vida do puro desfrutar. aqui e agora, das comodidades materiais e dos prazeres turísticos a todo o preço e em todo o ano) é o leque de comportamentos humanos que bem comprovam a força primordial, constantemente renovada, do Gene Egoísta.
Esclarecido (ou informado) por esta evidência, apresso-me a um conselho: depois de lerem O Gene Egoísta de R. Dawkins, leiam (ou releiam) A Estranha Ordem das Coisas de A. Damásio.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Olhares das Religiões e o Ser Humano - Que perspectiva mais nos atrai?


Que convicção escolhe cada um de nós para lema do modo de estar na vida?
  • BUDISMO: «Somos todos budas.» (1)
  • CRISTIANISMO: «Somos todos pecadores.»
  • MANDELA: «Somos os senhores do nosso destino.»
Alguém estranha que aqui traga Nelson Mandela? Foi o Professor Adriano Moreia - alguém tem dúvidas em relação às suas convicções religiosas? - quem, em artigo vindo a público na edição 'on line' do Diário de Notícias de 30 de Julho passado, fala da santidade de Mandela e de outros homens que, como ele, dedicam, quiçá, o mais importante das suas vidas a esta "terra casa comum dos homens".
________________________
(1) Aquele que está desperto para o seu potencial de realização. Como título formal, refere-se habitualmente a Gautama Siddharta.

Quando a Psicologia, nos anúncios, é uma treta

Há dias assim: inopinadamente, isto cruza-se com aquilo, e o que tinha um pequeno efeito na atenção ganha um espaço nobre no pensamento.
Para não me alongar, que o calor record que está pede preguiça, só duas coisas:
1) Um jornalista, do género daqueles que gosta de fazer a reportagem dos fogos bem no meio de uma linda e cordial labareda, está dentro de um caiaque a dizer como é bom andar por ali de caiaque a ver as gravuras rupestres - na verdade, o que a gente vê é a enorme falta de conhecimento e de cuidado (a dois) na manobra da pequena embarcação. Pois, quando elas não acontecem, foi-porreiro-pá-nós-somos-bons-nisto ; quando acontecem, por que razão terá acontecido, se nós tivemos todo o cuidado, até estávamos de colete!
2) Mas esta é que é o alvo principal deste apontamento. Não vejo anúncios - e, por isso, já perdi, aqui e ali, boas oportunidades, não tanto de comprar, mas mais de desfrutar; mas eu sou assim. Só que, desta vez, eu estava a ver o telejornal da hora do almoço na SIC, vem o intervalo, mas eu já estava de olhos paralisados no écrã da televisão, olhando o infinito através dele. Quando volto a mim, passava o anúncio de um rapazinho vestido à super-homem, disparando tintas. Era o anúncio de uma nova pastilha de lavagem de roupa da Skip, que acaba a dizer (com direito a "selo" escrito, no canto inferior esquerdo da imagem), repare-se bem: "Manter fora do alcance das crianças".  Ah?, o que é isto?...
Então, põem as crianças no âmago do anúncio (são várias) e depois dizem para se pôr aquela pastilha super-poderosa longe das crianças, por exemplo, das que fazem o anúncio?
Há quase três anos atrás, a mesma Skip lançou um anúncio, informado com boa psicologia, que acabava dizendo "É bom sujar-se". Pois, o que isto dá para ver é que, nos anúncios, o uso da Psicologia é, em regra, perverso - a única coisa que verdadeiramente se quer é condicionar a vontade dos consumidores para que passem a desejar o produto, a psicologia, em si, é uma treta, é apenas um recurso para ser usado segundo as conveniências das vendas.


Canções com história, n.º 1: La Cucaracha

CANÇÕES COM HISTÓRIA, 1: LA CUCARACHA
Estive na Gulbenkian na estreia do conjunto de curtas-metragens de que esta faz parte (Programa Gulbenkian Distância e Proximidade, 2008)
Desde esse dia nunca mais cantei La Cucaracha em momento de folia puramente recreativa. Esta canção tornou-se para mim num hino. Como eu aprendi nesse dia, quantos não precisarão também de aprender?

Olhar o velhote, no fim do vídeo, no final da fila, deixa-me com um apertozinho no coração: o mundo, mais novo, vai-se afastando dele. Quanto é que tudo do que os mais novos deixaram de sofrer por tanto que ele, afinal, sofreu e lutou quando teve a idade dos que agora são os novos que se afastam dele?

sexta-feira, julho 20, 2018

O altruísmo é natural nas crianças. É, pois é. E depois?

Continuam em alta os estudos acerca do altruísmo e da compaixão - em todas as idades; com sofisticados estudos cheios de neuro-imagens; e muitas comparações entre culturas.
«As crianças pequenas ajudam espontaneamente», afirma a investigação experimental sistemática. Crianças pequenas são, 'grosso modo', as que têm 2 anos de idade; mas a investigação já detecta comportamentos altruístas aos 14 meses.
https://www.nytimes.com/2009/12/01/science/01human.html
Ainda há poucos dias aqui escrevi que, na minha opinião, a questão não é se o ser humano é naturalmente, e primariamente, bom ou mau; ou altruísta, ou compassivo, ou solidário.
E o foco na "ajuda" também me parece limitar o valor do que essencialmente está em causa. Para ser claro, mais do querer ajudar, a criança quer participar; participar ao lado dos outros, e com os outros..
As crianças apercebem-se, logo que despertam para o mundo (e as teorias do desenvolvimento sócio-afectivo voltam a situar por volta do ano e meio, dois anos, a consciência da vontade pessoal e do bem assumido "Não!" pela criança, em afirmação da sua própria vontade, em oposição à do adulto), que andamos por aqui todos (menos grandes e mais mais grandes), que elas têm de crescer, e que a vida dos adultos será um dia a delas. Naturalmente, as crianças querem fazer o que as outras pessoas todas à sua volta fazem; e as crianças fazem-nos com alegria e empenho. Portanto, as crianças querem, antes de mais, participar na Vida; e a vida está impregnada de adultos que fazem coisas. Se, em razão dessa natural participação na vida em comum com os outros, constatar que é preciso ajudar algum adulto, a criança, voluntariosamente, tenta ajudar.
Pensando desta maneira, a questão não será "São as crianças naturalmente altruístas?", mas sim "Por que razão as crianças se tornam cada vez menos altruístas?" Ora bem, responder a esta pergunta é comprometer os adultos.
Eu já disse, e repito-o, que a questão-chave é a da Educação.
Como deve ser, então, a educação do altruísmo, sobretudo tendo em conta que este precioso valor-motivador do comportamento corre fortemente o risco de ser vencido, ao longo da vida, pelo valor da competição entre os indivíduos e entre os grupos? Nos pódios, só há lugar para o outro, de ouro, prata e bronze - só mesmo três; e até o ideal olímpico exorta o "mais rápido, mais alto, mais forte"... que os outros! Mesmo que insista que o jeito e o espírito sejam o da competição saudável.
Ora bem, como a criança, antes de mais, faz o que vê o adulto fazer, a primeira forma de educação tem de ser o próprio exemplo do adulto. Quer dizer, a criança naturalmente, participa na vida do adulto, e ajuda-o. Naturalmente, também, a criança toma consciência de que tem desejos, tornando-se, por isso, (mais um) ser portador de desejos. Que nunca se negue que as crianças criam desejos!, alguns iguais aos dos adultos, e outros diferentes.
Na minha opinião, a chave da Educação do Altruísmo e do Desejo é uma, e é radical: a renúncia. Provavelmente, o Presidente José Mujica diria "a sobriedade do desejo" - é que renúncia, mais do que recusa ou negação total, quer dizer, no meu entender, contenção viável. Com os adultos, as crianças têm de aprender os exemplos do altruísmo e da contenção dos desejos. O altruísmo não se explica com textos, sejam eles servidos por sofisticadas ilustrações ou recomendações de boa exploração em sala de aula. O altruísmo faz-se, vive-se, todos os dias, em todos os momentos; e a sobriedade dos desejos também.