terça-feira, junho 23, 2015

A Crise de Fernando Pessoa exactamente há 100 anos atrás

Pois é, exactamente há 100 anos atrás Fernando Pessoa estava à rasquinha de dinheiro, coitado!...
No dia 23 de Junho de 1915, ele escreveu a seguinte carta a Armando Côrtes-Rodrigues (1):

Lisboa, 23 de Junho de 1915.
               Meu caro Côrtes-Rodrigues:
É uma circunstância violenta e aflitiva. V. pode emprestar-me cinco mil réis até ao dia 1
Armando Côrtes-Rodrigues
do mês que vem (1 de Julho)? É aflitivíssimo
[sim, é isso mesmo: aflitivíssimo] o caso, creia. E o pagamento é pronto e certo no referido dia 1, se não for antes, o que pode acontecer, mas não prometo.
Se v. me pudesse fazer isto! Valia-me numa conjuntura em que não tenho ninguém para quem me vire. Era questão de uns dias; nem eu — desde o que v. já me explicou sobre a sua situação — lhe faria partida alguma, ou seria capaz de lhe dizer que lhe pagava em determinado dia, se me fosse impossível fazê-lo. Se v. puder, não deixe de me fazer isto!
Não estarei no escritório amanhã senão tarde. Mas, vindo v. cá e deixando-me em envelope a quantia, ser-me-á entregue fielmente quando eu chegue.
Não me julgue indelicado por lhe pedir, ainda por cima, que venha aqui ao escritório e, mais, dizendo-lhe que talvez eu não esteja. É que tenho coisas inadiáveis de que tratar e não poderia marcar horas e lugar mais conveniente onde encontrá-lo. Desculpe.
Veja se me pode fazer isto, sim? É só por estes 5 ou 6 dias. Decerto que poderá ser.
Seu mt.º am.º e grato
               F. Pessôa
Há registo que no dia 26 ele voltou a escrever ao amigo. Assim:
Noite de 26-6-1915.
               Irmão em pseudo:
Saberás que hoje, pelas 6 horas da tarde, inesperadamente, tudo se resolveu.
Eu nada já esperava, como sabias, e eis que de repente uma porta se abriu nas ocorrências, mesmo defronte do meu Desejo.
Um astro benéfico talvez transitando um ponto vital do horóscopo? Verei se assim foi. Saúdo-te.
                Fernando Pessôa
Segundo a nossa fonte, esta segunda carta alude «certamente, à resolução do problema de dinheiro que motivara a carta de 23 do mesmo mês.»
A fonte é o volume "Correspondência, 1905-1922", edição de Manuela Parreira da Silva, da Asírio & Alvim, 1999, p. 165-6.

Pronto, a crise financeira de Fernando Pessoa, ao contrário da nossa, foi de pouca dura; só que ele teve muitas crises assim...

(1) Noutra carta, de 24 de Fevereiro de 1913, a Álvaro Pinto,  Pessoa chama a atenção ao seu correspondente, que é Côrtes, não é Cortês.

quarta-feira, junho 10, 2015

Ora bolas!, a gente a pensar que isto era mesmo sobre os portugueses!...

Ora  bolas!,
a gente a pensar que isto era mesmo dos portugueses!...

Na última edição de "Os prós e contras", da RTP1, no dia 7 de Junho, o tema foi A FELICIDADE.
As Nações Unidas, por votação unânime (claro, fica bem a todos, pois então!, o pior é quando têm que decidir sobre as coisas sérias, concretas, materiais que efectivamente fazem a felicidade; nestes casos, a bondade dos países é bem outra coisa...), dizia eu, por votação dos 193 países membros, estabeleceram, em 2012, o dia 20 de Março, como o Dia Internacional da Felicidade (1).
Quanto lhe foi dada a palavra, o humorista Herman José mostrou que as pequenas anedotas, tal como as imagens, também valem mais que mil palavras.
Lembrou-se ele de uma anedota "que a minha querida Amália Rodrigues, que eu amava, contava". Diz ele que a anedota espelhava o espírito português na perfeição.
A anedota fala de uma senhora que ia no comboio e sentia muita sede. Lamentava-se repetidamente "Ai que sede que eu tenho!... Ai que sede que eu tenho!..." Até que um senhor, que viajava também naquela carruagem, lhe deu água a beber. Depois de beber a muito oportuna dádiva do senhor, a senhora passou a repetir, com o mesmo tom lamuriento, "Ai que sede que eu tinha!... Ai que sede que eu tinha!..."
Acontece que eu lembrava-me vagamente de qualquer coisa que conhecia. Como preguiçava àquela hora, em vez de me levantar do sofá, pequei no computador que tinha ali ao pé e pesquisei no Google. Pois, estava correcta a minha vaga lembrança. É que lá encontrei esta história, que faz parte, como tantas outras, de conjuntos de textos, parábolas, tão caras ao Oriente, para educar as pessoas com as lições dos velhos Sábios, Mestres e Anciãos.
O VIAJANTE SENDENTO 
[adaptado; no fundo o velho ditado que diz que quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto]
Lentamente, o sol tinha-se ocultado e a noite tinha caído por completo. Pela imensa planície da Índia deslizava um comboio, como uma descomunal serpente queixosa. Vários homens compartilhavam um vagão e, como faltavam muitas horas para chegar ao destino, decidiram apagar a luz e porem-se a dormir. O comboio prosseguia a sua marcha. Passaram alguns minutos e os viajantes começaram a conciliar o sono. Levavam já um bom número de horas de viagem e estavam muito cansados. A certa altura, começaram a escutar uma voz que dizia:
- Ai que sede que eu tenho! Ai que sede que eu tenho!
Assim, uma e outra vez, insistente e monotonamente. Era um dos viajantes que não cessava de queixar-se da sua sede, impedindo de dormir ao resto de seus companheiros. Já resultava tão molesta e repetitiva a sua queixa, que um dos viajantes se levantou, saiu, foi ao lavabo, e trouxe-lhe um copo de água. O homem sedento bebeu com avidez a água. Outra vez apagaram a luz. Os viajantes, reconfortados, dispuseram-se a dormir. Transcorreram mais uns minutos. No silêncio que se instalou, surpreendentemente, insinuou-se a mesma voz de antes, que começou a dizer:
- Ai, que sede que eu tinha, mas que sede que eu tinha!
O Grande Mestre disse: A mente sempre tem problemas. Quando não tem problemas reais, fabrica problemas imaginários e fictícios, tendo inclusivé que buscar soluções imaginárias e fictícias.
Ora bem, há outras versões por aí espalhadas; das que entretanto pesquisei entretanto, constante, só mesmo os queixumes em volta dos quais o conto, a anedota ou lição se tece.
Fará parte dos estereótipos culturais do nosso País, da maneira de ser dos Portugueses, que faça mais sentido que os queixumes sejam feitos por uma mulher do que por um homem. Seja, mas isto também nos alerta para o facto poderoso da miscigenação das culturas, que levou a que as Nações Unidas, a partir de certa altura, por pressão das realidades políticas e sociais mundiais, também passassem a tomar como uma das suas grandes bandeiras o lema "Todos diferentes, todos iguais."

(1) A ONU até criou uma lista "oficial" de temas musicais para mostrar como soa a felicidade. Obrigado! Fica-lhes bem darem-nos música. São mais agradáveis de ouvir do que os lamentos das mães sem condições para criarem os seus filhos; os choros das crianças que têm fome; os gritos dos cidadãos que tentam fugir aos tiros e às bombas que caem sobre as suas povoações; os gemidos dos velhos indefesos, deixados à impotência de não poderem já fazerem nada para se protegerem e protegerem os seus.

terça-feira, junho 09, 2015

Falar nem sempre é dizer palavras.

Falar nem sempre é dizer palavras.

Isso sim, muitas vezes, falar é sentir as palavras que nos percorrem a mente ao ver, ao ouvir - no fundo, tomar consciência do que nos desperta os sentidos no instante que estamos a viver; assim simplesmente, ao lado de quem connosco está e nos deixa assim estar,  nos dá espaço relacional para fazer tão simplesmente isso: sentir os sentidos, tomara consciência deles e procurar as palavras que tornem comunicáveis os nossos sentimentos e os nossos pensamentos ao Outro, ao nosso interlocutor.
Tenho a crença de que, se calhar, é isso que eu sei fazer de melhor na minha prática clínica; e nas aulas tanto insisto com os alunos para que parem e pensem!
Seguramente o precioso relato de Alice Vieira explica muito melhor que eu quero dizer com todo o palavreado que acabei de produzir. A escritora tinha acabado de citar João dos Santos que dizia que "falar é deixar que os silêncios falem". (1)
«Mas onde está o silêncio de hoje?
Há dias sentei-me com a Isabel [a neta mais pequena] a uma mesa do El Corte Inglês. Eu estava a acabar um texto que tinha de mandar para o jornal e, como normalmente fazia com os irmãos dela quando eram pequeninos, levava a mala cheia de lápis de cor, e marcadores, e caderninhos, e um puzzle miniatura, e bonequinhos dos Estrunfes, herdados de outra geração, tudo para eles se distraírem numa emergência. Coloquei tudo em cima da mesa mas a Isabel, recostada na cadeira, não parecia muito decidida a pegar fosse no que fosse.
 - Queres fazer um desenho? - A Isabel abanava a cabeça.
- Queres brincar com os Estrunfes? - A Isabel abanava a cabeça.
- Então o que é que queres fazer, enquanto a avó está aqui a trabalhar?
Deu um suspiro muito fundo, daqueles em que ela é perita quando quer dizer, mas não diz... - "coitada, não percebe mesmo de nada..." - e murmurou, na sua voz sempre calma:
- Quero olhar para as pessoas.
E lá ficou, a olhar para as pessoas.» 
(1) Repito-o muitas vezes que, um dia, na última sessão de psicoterapia muito bem sucedida a um rapazinho encoprético, que no rosto dava sinais claros do advento da puberdade, ele, na expressão da sua gratidão me quis dizer porque ele e outros colegas seus tanto gostavam de estar ali comigo: é que eu não os enchia de perguntas e deixava-os estarem ali pensar.  


segunda-feira, junho 01, 2015

Em jeito de pequenina aula aos meus alunos - Sobre pintos, galinhas, árvores, florestas e medos

AFINAL, UMA ANDORINHA FAZ MESMO, SOZINHA, A PRIMAVERA.

Ou, uma árvore basta mesmo para fazer a floresta.
Na cabeça de um jornalista muito pouco responsável, e que é pai com olhos de mãe-coruja. É o que concluo assim depois de ler esta pequena notícia. Dela retiro este pequeno excerto:
Tim Lott, cronistas do The Guardian, lançou o alerta: as crianças de hoje já não têm medo do escuro. Temem o fracasso. E esta conclusão surgiu depois de ter perguntado a uma das suas filhas qual o seu maior receio, e sem hesitação surgiu a resposta: “falhar”.
Reagi imediatamente com alguma irritação, mas como tenho andado a dizer aos meus alunos para se esforçarem e formarem opiniões com base em percepções bem informadas, fui ler o texto original.
 Pois, afinal Tim Lott não disse o que as "Notícias ao Minuto" afirmam, naturalmente em resultado de uma leitura apressada do jornalista que construiu a pequena notícia.
Até porque Tim Lott põe o dedo na ferida:
Children’s fears are a litmus test of the society we live in and they are clearly changing – becoming more concrete – as society becomes more performance-driven, insecure and saturated with threatening, upsetting facts. (1)
Cá está, as crianças apenas - no fundo, desde que os grupos animais (incluindo os humanos) existem e os seus elementos regulam os seus comportamentos através da imitação dos mais velhos pelos mais novos - reagem em razão das ocorrências sociais, das exigências pessoais que são determinadas pelos valores e os objectivos dominantes ( e que nas sociedades modernas reflectem a ditadura do Mercado, do Dinheiro e do Consumo Material); e reagem também em razão da (des)educação que cada vez mais os governos impõem à organização escolar dos seus países.
No seu texto - lúcido e sábio - Tim Lott diz mais, citando outros autores:
“To conquer fear is the beginning of wisdom,” said Bertrand Russell, (...)  I agree wholeheartedly with Aung San Suu Kyi – “The only real prison is fear and the only real freedom is freedom from fear.” (2)
E remata a sua reflexão dizendo:
Courage is not being free from fear, however. Courage is not allowing fear to distort your purposes and cramp your life. We all have secret fears and to deny it is to deny some essential element of our personalities. But if you can do one thing for your children, show them bravery, so that they learn bravery themselves. For courage is the wellspring from which an authentic life flows. (3)
CONCLUSÃO: Há jornalistas e jornalistas: uns escrevem bem, e outros distorcem perigosamente o que os outros, escrevem. Diz a sabedoria popular que "Galinhas apressadas têm pintos carecas".
Queridos alunos, como tantas vezes vos tenho dito, desconfiem até do mais "pinto-ado" dos psicólogos! E nunca deixem de informar bem as vossas opiniões!
Beijos e abraços para todos!

(1)  Os medos das crianças são uma prova de fogo da sociedade em que vivemos, e estão mudando claramente - tornando-se mais concretos - à medida que a sociedade se torna orientada para o sucesso, insegura e saturada de ameaças e  factos perturbadores.
(2) "Vencer o medo é o primeiro passo para a sabedoria" dizia Bertrand Russel [Como eu muito agradavelmente me lembro do lema que durante muitos anos orientou o sentido das actividas da associação juvenil "Os Traquinas da Boa Vida": Vencer o Medo com o Prazer da Cultura.], (...) Concordo, do fundo do coração, com Aung San Suu Kyi - "A única verdadeira prisão é o medo e a única verdadeira liberdade é a libertação do medo".
(3) Coragem não é ser livre de sentir medo, no entanto. Coragem não é permitir que o medo distorça os nossos objectivos e nos ponha obstáculos na vida. Nós todos temos medos secretos e negá-lo é negar um elemento essencial de nossas personalidades. Mas se você pode fazer uma coisa pelos os seus filhos, mostre-lhes coragem, para que eles aprendam a bravura a partir de dentro deles mesmos. É que a coragem é a fonte a partir da qual uma autêntica vida flui.

domingo, abril 12, 2015

Será a miscigenação um notável e genuíno traço do modo de ser do português?

Tenho uma automática reacção alérgica quando se toca o assunto da atribuição de características ou traços de personalidade do "português", do francês", do "alemão", do "japonês", e tantos outros... quer dizer, todos os grupos humanos designados especificamente.
Acontece que - como tantas vezes já se passou!... - dois acontecimentos se produziram bem pertinho um do outro nas coisas que me ocuparam neste fim-de-semana; e deixaram-me a pensar...
É recorrente eu falar aos alunos na facilidade com que os portugueses se misturam com os Povos, com as Gentes, com que se cruzam - aconteceu assim, ao longo da nossa História, com os Mouros (os africanos do norte), com os Negros (os africanos do sul), com os Asiáticos e com os Índios do Brasil; e mais recentemente com as sociedades que têm acolhido os nossos emigrantes. (E, por agora, vou passar ao lado do papel dos homens, por ventura muito mais evidente que o das mulheres).
Por isso, quando ontem, de manhã, na Igreja da Graça dei de caras com os santos negros, quis logo saber se aquelas estátuas, com aquelas feições dúbias (europeus?... africanos?... seriam negros só por causa da cor da madeira?...) eram mesmo o que eu estava a pensar, ou melhor, o que eu queria que fosse mesmo; e eram: as estátuas representavam mesmo pessoas de pele negra.
Ao que pude perceber, foi no Algarve que aos pouco surgiu um culto, uma devoção aos santos negros, certamente explicada pela proximidade geográfica e histórica ao continente africano. E não é por acaso que na Igreja da Graça os santos estão à volta da imagem de Nossa Senhora do Rosário; na verdade, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário permitia (terá sido durante muito tempo a única a fazê-lo) que os irmãos fossem pretos. A Irmandade juntava dinheiro para "desalforrear" os escravos e dava-lhes o trato humano que a todos os homens livres era reconhecido. Lindo!... Repare-se, não apenas lhes conseguem a carta de alforria como logo os valorizam, alcandorando-os a santos!
http://www.whitewolfpack.com/2015/04/10-native-american-quotes-about-mother.html
Ora, a segunda imagem do dia, com que me deparei pouco depois, foi a desta fotografia animada, que é um documento extraordinário! Pois é... estes, os europeus que colonizaram a América do Norte
praticamente aniquilaram as suas culturas, com chacinas, autênticos genocídios. Ainda hoje nem o infeliz Prémio Nobel da Paz, Barack Obama, reconhece e assume o trágico destino a que os "pavões" da Liberdade condenaram os Povos indígenas da terra que os colonos europeus indignamente reclamaram como sua.
Sim, gostei muito do que vi na Igreja da Graça; e pus-me a imaginar, com tristeza, o que terá o jovem nativo americano, que aparece aqui a dançar, enfrentado ao longo da vida, e como se terá decepcionado, protestado e rebelado...

domingo, abril 05, 2015

AS PALAVRAS E OS ACTOS DA FÉ; E A COERÊNCIA

AS PALAVRAS E OS ACTOS DA FÉ; E A COERÊNCIA


Cuidado com o que pedimos!... Cuidado com o que louvamos!
Deus não joga aos dados, pois não; e Deus também não dorme. Não dorme e pergunta-se se temos ou não ideia de onde nos levam as palavras e os actos, mesmo que genuinamente estejam ao serviço do Bem.
Uma muito interessante proposta de reflexão do Patrono da minha escola, Eça de Queirós, precisamente a propósito da Páscoa celebrada por um papa que agora quer honrar o nome, o pensamento, as palavras e as obras de Francisco de Assis.

"− O Senhor que tanto sofreu, por que me não manda a mim o padecimento bendito?"
Enfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus de Santa Maria dos Anjos,
avistou de repente, no ar liso e branco, uma vasta mão luminosa que sobre ele se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:
− Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher ou para me repelir.Deu logo a um pobre, que ali rezava a Ave-Maria, com a sua sacola nos joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do Evangelho, muito usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na igreja, ao levantar da Hóstia, desmaiou. Sentindo então que ia terminar a sua jornada terrestre, quis que o levassem para um curral, o deitassem sobre uma camada de cinzas.
Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem dos seus trapos, lhe
vestissem um hábito novo: mas, com os olhos alagados de ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado como fora o de Jesus, seu senhor.
E, suspirando, só se queixava de não sofrer:
− O Senhor que tanto sofreu, por que me não manda a mim o padecimento bendito?De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o portão do curral.
Contemplou o céu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e silêncio, começavam a cantar sobre o beiral do telhado, e, sorrindo, recordou uma manhã, assim de silêncio e frescura, em que, andando com Francisco de Assis à beira do lago de Perusa, o mestre incomparável se detivera ante uma árvore cheia de pássaros e, fraternalmente, lhes recomendara que louvassem sempre o Senhor! “Meus irmãos, meus irmãos passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que vos deu essa árvore para que nela habiteis, e toda esta limpa água para nela beber, e essas penas bem quentes para vos agasalharem, a vós e aos vossos filhinhos!” Depois, beijando humildemente a manga do monge que o amparava, Frei Genebro morreu.
[...]  Subitamente, porém, no alto, o prato negro oscilou como a um peso inesperado que sobre ele caísse! [...] Na alma de Frei Genebro correu um arrepio imenso de terror. O negro prato descia, firme, inexorável, com as cordas retesas. E na região que se cavava sob os pés do Anjo, cinzenta, de inconsolável tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, cresceu, rolou, como a onda duma maré devoradora.
O prato, mais triste que a noite, parara - parara em pavoroso equilíbrio com o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genegro, o Anjo que o trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo, um porco, um pobre porquinho com uma perna barbaramente cortada, arquejando, a morrer, numa poça de sangue... O animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas! 
Frei Genebro morreu mas não foi para o Céu; o Senhor mandou-lhe ainda o padecimento bendito que ele, em queixa pressurosa, tanto pediu.
Está aqui o texto integral, com o título Frei Genebro.

domingo, março 01, 2015

MORREU AMADEU FERREIRA.

MORREU AMADEU FERREIRA.
Acabo de receber esta tão triste notícia!...
Tive ainda o privilégio de o conhecer; e de lhe levar um pouco de alegria, quando ele soube o que, tropegamente, comecei a procurar fazer pela Língua e pela Cultura que ele tanto amava: o Mirandês.
A partir de agora só tenho de me esforçar em dobro no que decidi fazer; mesmo que tropece também em dobro! Conte comigo, Mestre Amadeu!
Aos seus filhos, a todos os familiares; e a todos os amigos, os seus e os meus, a quem a Língua Mirandesa me juntou, o meu mais fraterno abraço!
(a fotografia é de Carlos Ferreira, irmão de Amadeu Ferreira)

APENAS GRATIDÃO: MOTE PARA UMA ELEGIA
[...] foi desta gente que nascemos, solidária ainda que abandonada, culta ainda que analfabeta, forte mesmo velha e cansada, de uma dignidade que supera as montanhas com que sempre lutou; saudades? defesa do passado? são, que desde sempre a minha mãe me disse «tu nun quergas esta bida»: apenas gratidão me ocupa." (Norteando, 224-225)
A aguarela é de Manuol Bandarra, irmão de Amadeu Ferreira.

- Perdoa-lhe, pai, ele não sabe o que diz.

Assim que entrei na carruagem, no Metro do Saldanha, dei logo de olhos com ele: sportinguista da cabeça aos, a impecável camisola oficial e o cachecol que saúda e celebra os golos.
Encostei-me nas costas do banco do costume, ali aconchegado ao cantinho da porta que não abre, oposta à que usei para entrar. Peguei no livro, fresquinho, compradinho de manhã, de tema candente e leitura apetitosa.
Tocou um telemóvel, e como o som habitual do meu está alterado, reagi ao toque, dando-lhe atenção. Não, não era o meu; era o do jovem sportinguista; e era para falar do jogo entre o Sporting e o Porto, mais logo. Pelos curiosos e complexos caminhos da atenção difusa reconheço claramente a espantosa afirmação: "Se perdermos com o Porto, o resultado já não é mau..." Ainda tentava eu confirmar que tinha sido isso mesmo que tinha ouvido, já o mesmo rapaz desabafava: "Ao menos não tenho que aturar depois aqueles filhos da p*ta, se não forem campeões!..."
Pasmei!... Pasmei mesmo! Como é possível que o entusiasmo clubista seja feito destas "convicções"?...
- Perdoa-lhe, pai, ele não sabe o que diz.
O meu pai foi sempre um entusiástico adepto sportinguista; daqueles que se irritava, nas disputas directas, com as vitórias dos benfiquistas e dos portistas. Agora, consolar-se com as derrotas do seu clube do coração, mesmo que servissem os sucessos dos adversários mais difíceis?!... Nunca! Nunca!

terça-feira, dezembro 30, 2014

Outra vez a Paz, a Paz vale sempre a pena!

As Nações Unidas celebram, oficialmente, o Dia Internacional da Paz no dia 21 de Setembro de cada ano.
(http://www.timeanddate.com/holidays/un/international-peace-day)
A Igreja Católica celebra no dia 1 de Janeiro, de cada ano, também, o Dia Mundial da Paz.
(http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/nacional/2015-comissao-nacional-justica-e-paz-apela-a-luta-contra-a-pobreza-que-se-acentuou-com-a-crise/)
Bem, se pegássemos naquilo a que na Matemática se chama "pôr em evidência os factores comuns", ficaríamos com o "Dia da Paz" - e duas vezes!
Sendo assim, esperemos que tanto empenho celebrativo seja aditivo e não subtractivo ou disjuntivo.
Na verdade, a Paz vale sempre a pena, sempre com o maior número possível de indivíduos empenhados.
Pela minha parte, vou tentar não me esquecer, no dia 21 de Setembro de 2015, criar aqui no blogue outro apontamento sobre a Paz.
Eventualmente, virei a fazer actualizações neste apontamento, acrescentando afirmações, pensamentos, citações, imagens, fotografias, etc., que nos ajudem a ter sempre a Paz na mente e nos corações.
Agora, a começar, vou servir-me de uma afirmação de Mahatma Gandhi, e de outra, de , que a completa ou esclarece: "Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho."
Dois mil anos antes, numa região vizinha à de Gandhi, Lao-Tsé terá afirmado: "Toda a caminhada, por mais longa que seja, começa com um primeiro passo."
Repito, a Paz vale sempre a pena! Primeiro, desejo e, a seguir, vontade. "É a vontade que faz o homem grande ou pequeno.", afirma Friedrich Schiller.
Onde nos levará o caminho da Paz?... Será ao Paraíso?
Será, com certeza, mas reclamando que, mais do que nunca, tenhamos consciência de  que, como diz Frederico Garcia Lorca, "A Terra é o provável paraíso perdido."

domingo, novembro 09, 2014

O 25 de Abril, o Muro de Berlim, a Guerra do Vietnam - A Luta, Hoje, pela Paz

Ontem, a descer a avenida da Liberdade, o coronel Sousa e Castro dizia, deixando as palavras saírem do fundo do coração e do fundo da memória, que o Movimento dos Capitães, o que queria, era acabar com a Guerra! Eles, os militares, os capitães e os outros oficiais jovens, foram a África, ao "Ultramar", a Angola, à Guiné e a Moçambique, e lá perceberam o absurdo da Guerra.
Como diz Ben Polis neste poema, também eles gritaram a revolta e a determinação: «Parem a Guerra!»
O Muro de Berlim, cujo derrube hoje se celebra, não acabou com o confronto e a Guerra; pelo contrário, continuou a alimentá-los, por isso foi necessário deitá-lo abaixo.
Por isso, os Capitães de Abril tinham, também ele, derrubado o Estado de Salazar e de Marcelo Caetano. Em 1989, em Berlim, alguma D. Celeste levou aos jovens esperançosos da Europa Central os cravos das espingardas dos soldados da nossa Madrugada da Liberdade. Em 1974, no dia 25 de Abril.
Em 1997, na Austrália, um rapazinho, o terror das escolas por onde passava, escreveu este poema. Teria 15 ou 16 anos.
Mais do que nunca, as televisões, as internetes e os écrãs dos telemóveis pessoais confirmam que as guerras estão para durar. Por isso temos de continuar a denunciá-las e a ajudar a que acabem mesmo!

Fizeste aquilo que Era Certo (Guerra do Vietname)

Dedico este poema ao meu Pai, que, aos vinte e um anos de idade, foi recrutado pelo exército australiano para combater no Vietname.

Estou a fazer o que é certo,
Acho eu.
O Bem contra o Mal.
Sou um soldado da liberdade,
Sou um matador de crianças,
Sou um assassino.
Sou um homem encurralado.
Lanço uma bomba sobre os vietcongues,
Espero que acerte.
Raios, falhei.
No que estava eu a pensar?
Devia estar lixado da cabeça,
Acabei de matar uma família de seis.
Lanço uma e outra bomba,
Até que o bem derrote o mal.
Bomba a bomba,
Napalm a napalm,
Os pesadelos estão cá para durar.
Tudo o que ouço no meu sono
É o grito das bombas
Que fizeram tanta gente chorar.
Muitos homens caíram
Nas matas do inferno.
Os meus camaradas estão em casa,
Mas as cicatrizes estão cá para durar.
O meu companheiro está sentado numa cadeira
Mas as pernas não estão lá.
Um outro anda de andarilho,
Um outro ainda com bengala.

Outro amigo tenho
Que perfura a carne,
Não com uma arma
Mas com uma agulha
Para fugir à dor do Vietnam.
Diziam eles: «Venham, rapazes,
Venham e ajudem o vosso país,
Venham, façam o que é certo.»
Lembrem-se, não tirem os olhos do chão.
Se for uma mina,
As pernas se vão.
O estrilho, o medo
Ecoarão nos ouvidos para sempre.
Mas lembrem-se, rapazes,
Fizeram o que é certo.
Parem a Guerra!

Parem a Guerra,
Não posso mais.
Homens bons a morrer,
Mães sem parar de chorar.
Pais orgulhosos
Mas nada pode impedir a nuvem-cogumelo iminente.
Não há vencedores neste espantoso jogo de morte e desespero.
Onde, onde está o meu companheiro?
A mulher, Beth, não tardará a saber da morte sangrenta do seu amor.
Os políticos sentam-se nas cadeiras e controlam-nos como peões que somos.
Mas são as pernas desses sacanas que eu vejo serem rasgadas ao meio?
Não me parece - esta vida é f#%&*+@!
Alguns destes rapazes são jovens o suficiente para voltarem ao berço.
Parem a guerra, não posso mais. Parem-na agora, porque ninguém vai conseguir parar a bala...
Que traz o vosso nome gravado!
(Ben Polis, O Menino que não queria ser Diferente. Lisboa, Verso da Kapa, p. 87-88)