domingo, outubro 27, 2013

Pensar a Europa - mudou a hora!

Durante a noite que passou, a Europa mudou a hora.
Depois chegou a manhã. Durante a manhã, logo que ela começou, eu liguei o computador e fui à Internet. Abri a página do Diário de Notícias. "Se a Europa não conseguir repensar-se, é o seu fim" é o título que me chama imediatamente a atenção; a frase é do professor António Sampaio da Nóvoa. Ligo a televisão enquanto me sento à mesa a tomar o pequeno-almoço. Sintonizada na TVI24, a caixa que mudou o mundo traz-me um debate promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos - estão a pensar a Europa! Dum lado, fala-se de Política e dos partidos; do outro, fala-se de matrizes culturais e sobretudo religiosas.
O pensamento automático traz-me a imediata conclusão: Anda toda a gente a pensar a Europa! A seguir, ri-me... E sem me engasgar!
http://www.guiageo-europa.com/mapas/globo.htm
A seguir ao pensamento automático, pensei outras coisas, como acontece sempre fazermos a seguir aos pensamentos automáticos. E a maneira como comecei este texto mostra logo o caminho que eu tomei a pensar:

  1. É fácil tomarmos o todo pelas partes - basta até uma ou duas partes, mesmo ficando muitas por levar em conta.
  2. É fácil forçar o pensamento das pessoas - na verdade, a hora não muda só na Europa; mas deu-me jeito agora acentuar que isso aconteceu agora na Europa.
  3. Sinto que me fez muito bem ter lido há algum tempo um quase velho livro sobre a História da Europa. Um livro sem fotografias, sem imagens, só com palavras, com textos. O livro foi escrito por um autor italiano, senhor que, evidentemente, teria os seus todos e as suas partes (Ui! Como a língua portuguesa está sempre por aí pronta a ser traiçoeira...). Não me lembro agora do nome dele, emprestei o livro, talvez mais logo, ainda hoje, consiga trazer para a qui a identificação clara do autor; e também do livro.
  4. Com a leitura do livro fiquei com uma ideia sobre a Europa, a sua História, as suas dinâmicas e lutas intestinas  que me fazem ver com um grau de clareza que muito me satisfaz tudo o que vejo acontecer por essa Europa fora; e pelo Mundo fora com a Europa metida no barulho desse Mundo.
  5. Os europeus em que tantas reflexivas e doutas cabeças pensam são pessoas - pessoas cheias de violência irracional, de ódios aprendidos, de rivalidades acumuladas, de ânsias de domínio; mas também de espantosas capacidades de inventar e descobrir (Piaget é um notável europeu), de criar laços de fraternidade e de amar profundamente.
  6. Apetece-me trazer a ajuda de um gigante da Língua Portuguesa, com quem partilho o nome próprio. Cantou ele, a fechar enfaticamente o poema: "Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!"
  7. Pois bem, apetece-me dizer: "Cumpriu-se o desenvolvimento, e a Europa se fez e desfez. Senhores, falta pensar a sério nas pessoas."
  8. A Europa tem estruturas políticas (nacionais e interpaíses), sistemas de organização social, desenvolvimento material e conhecimento (científico e filosófico) bastantes; falta olhar honestamente as pessoas que compõem os povos, olhar com o necessário respeito às suas necessidades, anseios e caraterísticas pessoais, da irracionalidade ao amor de que falei lá atrás. Mais nada.
  9. Pois é, para mim só falta mesmo pensar a sério nas pessoas. Penso que é isso que agora tantos movimentos cívicos de cidadãos independentes procuram reclamar. Vamos a isso! E os políticos de profissão ou carreira que não caminharem nestes caminhos ou o percorram perversamente (os velhos lobos disfarçados de cordeiros não vão deixar de existir, seguramente) não deixarão de contar com a indispensável e muito humana tolerância e certamente poderão contar com o seu lugar na Europa: deixar-lhes-emos os lugares lá bem atrás da fila.

sábado, outubro 19, 2013

Palestrar sobre o cérebro, a Natureza e os organismos. E simetria.

             
 Manhã bonita, muito agradável, com tempo para chegar com todo o vagar do Mundo ao Museu Nacional de História Natural,  no edifício da velha Escola Politécnica (e depois Faculdade de Ciências), para participar numa conversa descomprometida sobre simetria, Natureza, seres vivos e cérebro.
                Logo que saí de casa marquei mentalmente o estabelecimento para tomar o café: a pastelaria que fica mesmo em frente à Faculdade de Ciências, com marcas bastantes, todas elas simpáticas, da presença do patrono da minha escola – Eça de Queirós. Gosto daquele interior luminoso e familiar; gosto do aspeto dos bolos, salgados e outras iguarias no largo balcão, formando um gigante éle; gosto do atendimento pessoal e gosto da envolvência do estabeleciemento; e gosto do tempo vagaroso que experiencio sempre que ali vou.
                Tive tempo de, a chegar ao meu destino matinal, numa nesga de rua bem declivosa, olhar a cúpula e as torres sineiras da Basílica da Estrela bem iluminadas pelo Sol; eu ia mesmo à procura de cenários ou pormenores bonitos – faltavam 25 minutos para a palestra começar, o vagar era o que desejava… Peguei na máquina fotográfica, puxei o ‘zoom’ ao máximo… clique! Olhei o resultado. Era melhor tirar outra, as linhas das verticalidades e das horizontalidades estavam como eu queria, mas – dúvida metódica - talvez tivesse ficado um pouco tremida; não se via no écrã da máquina, contudo, não fosse o diabo tecê-las…
                Como gosto de fazer, a certificar-me dos vagares que gosto de saborear, fui até
à imponente e respeitável entrada da Faculdade, antes de ir ao café da manhã. Ó diabo!, tudo fechado! Mau!... Não me digam que não é aqui!... Eu tinha-me certificado do local e da hora antes de sair de casa… Será que não recebi algum email de última hora? Afinal, o correio destas palestras já falhou comigo antes por duas ou três vezes…
                Mudei o ‘chip’, do registo lento-vagaroso para o operativo-dinâmico. Estuguei o passo, e, voltando para trás, passei para o lado de dentro do portão lateral, procurei uma porta aberta. Sim, ali estava uma, com o que era preciso encontrar naquele momento: um senhor porteiro devidamente identificado. Sossegou-me, sim, que não me preocupasse, estava tudo em ordem, as portas abririam 5 ou 10 minutos antes. Agradeci, sorrindo com simpatia para o senhor e alívio para mim. E voltei ao ‘chip’ anterior. Ora bem, o que tinha de fazer a seguir? Ah, pois, o café…
                Entrei no estabelecimento Cister e lá estava, à minha espera, a vagarosa e simpática ambiência que eu queria encontrar. Dirigi-me ao balcão. Do lado de lá, o empregado, ainda visivelmente senhor de mais anos de juventude do que adultícia, fez-me um discreto sinal de saudação e de que aguardasse enquanto fazia o apuro da despesa de um cliente que, à minha esquerda, já tinha posto o corpo a meio jeito de sair da pastelaria. Chega a minha hora: “Um café, se faz favor.” O meu interlocutor anui com um aceno de cabeça; sorri e traduz, em voz mais alta do que quando me cumprimentara: “Sai uma bica!” Achei piada à assertiva tradução.
                Enquanto aguardava pelo café, perdão!, pela bica, outro empregado, o da sala, tão jovem e adulto quanto o que eu tinha à minha frente, chegou à zona de serviço do balcão e faz um pedido em voz alta para dentro do balcão, claramente para alguém que ele não olhava mas sabia que estaria a ouvi-lo, mesmo que fosse na zona de trabalho mais afastada daquela em que ele se encontrava.
                O tom de voz do rapaz foi tal que eu reagi ao que ele disse. Captei a tonalidade firme do pedido que percorreu o ar mesmo à minha frente e tomei consciência de que só depois me esforcei por dar atenção à mensagem em si; a minha memória imediata ainda estava disponível e escrevi antes que me esquecesse – e escrevi porque achei piada ao pedido: “Sai uma bica em chávena fria pingada com leite frio!” Olhei para as outras pessoas que estavam do lado de dentro do balcão: um senhor, convincentemente com ar de patrão, tanto pelos anos de adultícia que aparentava como pela roupa que vestia; e uma senhora, de faces bem rosadas e bata branca, que não deixava dúvidas quanto à sua relação com as doçarias expostas em todas as montras, as do interior do estabeleciemnto e as que estavam nas montras de seduzir a rua. Pois ninguém parecia, naquele momento, ter ligado ao pedido da razoavelmente complexa bica.
                O empregado de mesa, que entretanto se afastara para junto das mesas, sem esperar que alguém lhe respondesse, voltou à zona de serviço e pediu no mesmo tom de voz firme: “Saem duas bicas escaldadas!” Respondem-lhe do lado de dentro do balcão: “Bica fria pingada com leite frio.” Reparei que a devolução deixara cair o “em chávena”. Vai a bica pingada na mão do rapaz, que volta logo de seguida com novo pedido: “Sai uma bica curta em chávena fria”. Do lado de dentro do balcão, a mesma indiferença visual! No fundo, tudo acontecia no universo das coisas que apenas se ouviam, no universo do rigor das palavras e dos pedidos dos clientes; e do universo da memória prodigiosa, disciplinada, educada em anos de atenção bem focada das pessoas do lado de dentro do balcão! Ninguém corria; tudo parecia discreto e lento. Eficácia absoluta; e tranquila.
                Eu saboreava a bica, mais lentamente do que é meu hábito, lembrando-me que, na escola, costumo pedir, quando há tempo para brincar, com a fórmula “Café quente em chávena morna a fugir para o frio”. Até deu tempo para olhar para trás, um barulho vindo da entrada despertara a minha atenção: era um casal que entrava com uma criança bem pequena e eu não percebi se o que ouvi da criança era um protesto ou um esgar de contentamento. Era contentamento. Sentaram-se na mesa mais ao pé de mim, logo ali atrás. Mais do que o café, eu saboreava aquele espetáculo todo à minha volta.
Pouco depois, dei-me conta de que um silêncio prolongado se instalara nas trocas entre o lado de fora e o lado de dentro do balcão. Só se ouvia, qual folhagem pouco densa agitada pela brisa, os murmúrios cruzados das pessoas sentadas nas mesas. O rapaz da sala encostara-se ao balcão de serviço e agora dobrava um papel de tabuleiro. Parecia estar a fazer um avião… Um avião!?... Ali?... Não, não podia ser… Eu, quando era pequeno, era assim que fazia os aviões de papel… Ali, com o patrão ali perto?... Talvez estivesse a improvisar uma caixa para um cliente levar algum bolo ou alguma metade de sandes… Ah, pois, devia ser isso!... Deixei-me ficar a ver, não fiz nada para apressar que me recebessem o dinheiro da bica. Olha!... Era mesmo um avião de papel!
                Eu continuava a sentir a estranheza daquele tempo de silêncio, acentuado por aquele avião que crescia nas mãos do jovem adulto de voz firme e clara. “Rúben, estás bem?”, oiço eu então, palavras pronunciadas pela senhora “culpada” da doçaria, bem do meu lado direito. O empregado de mesa, sem deixar de continuar o seu avião, denunciou ser ele o Rúben: “Estou muito caladinho, não é?...” A seguir riu-se. A senhora pasteleira riu-se também e confirmou que estranhava estar ali sem fazer nada que ele mandasse…
Sim, sim. Afinal ele queria alguma coisa dela: queria fita-cola para colar as asas do avião que acabou naquela altura de fazer. Mesmo não sendo assunto da área em quer reinava, a senhora arranjou ao rapaz das mesas o que ele queria. Ao mesmo tempo que eu me voltava para me ir embora, o improvisado mecânico de aviões entregava a sua construção ao miúdo que me tinha obrigado a voltar para trás e vê-lo entrar com os pais. Percebi que eram, o miúdo e os seus pais, clientes habituais. Serei mais rigoroso se disser que o improvisado homem dos aviões – que sorte a oportunidade aberta pela acalmia dos pedidos dos clientes! – terminou o avião, não o deu para as mãos do miúdo, mas fez o avião voar à frente do miúdo. Foi buscá-lo onde ele caiu, desta vez, sim, deu-o ao miúdo e apontou-lhe uma parede. O miúdo olhou para o grande – grande na perspetiva dele, pequenito – homem que lhe sorria e desafiava. O homem grande insistiu em desafiá-lo, apontando a parede: “Vá, atira para ali!” O miúdo pôs o avião em posição de lançamento, bem seguro na pequenita mão direita. Olhou ainda mais uma vez o fabricante do avião. Reparei que hesitava. Hesitava e fez vencer a sua vontade: apontou o avião à porta e lançou-o.
Eu ri-me, cheguei-me ao rapaz-quase-adulto e quase-tão-criança como aquela a quem ele se dirigia naquele instante, pus-lhe por trás a mão do ombro, e aproximei tanto quanto pude a boca ao seu ouvido. Seguramente que ele percebia o meu hálito a café. Percebeu também que eu me ria: “Ó homem, então você dá ao miúdo um avião assim desse tamanho e quer que o miúdo o ponha a voar aqui entre paredes… É claro que um avião desses é para subir bem alto no ar, o miúdo só podia lançá-lo porta fora! Não lhe apetece a si ir lá para fora e fazer o que o puto fez?...” Só nessa altura nos olhámos olhos nos olhos. “Tem toda a razão…” disse-me ele a rir-se, “tem mesmo toda a razão…” Dei-lhe duas palmadas cordiais no ombro, pisquei-lhe o olho e disse-lhe: “É bom a fazer aviões. Continue! Os miúdos gostam. Até um dia destes!” Ele agradeceu-me e eu saí.
Dois ou três minutos depois abriam finalmente as velhas – e as novas, de vidro – portas da Faculdade de Ciências.
Mas o meu dia na Pastelaria Cister ainda não tinha chegado ao fim, ainda havia vagar no tempo para mais uma coisa: cá fora, um dos toldos dizia “Confeitaria”; outro dizia “Pastelaria”; ao centro, entre estes dois, o terceiro dizia “Fundado em 1838”. Entrei outra vez, a senhora dos bolos percebeu que eu queria alguma coisa; e perguntou-me o que precisava eu. Respondi-lhe que queria só fazer uma pergunta, não queria tomar mais nada; e, se calhar, nem era a ela que eu devia fazer a pergunta, talvez fosse melhor ao patrão. Ela disse-me, apontando ao que certeiramente presumira ser o patrão: “O patrão é aquele senhor, mas se o senhor quiser perguntar-me, eu talvez saiba responder-lhe. O que é que o senhor quer saber?...” Agradeci à senhora, e fiz questão de respeitá-la na sua disponibilidade, mesmo que estivesse praticamente seguro de que a senhora não me iria responder: “A pergunta é esta: lá fora diz que este estabelecimento é uma pastelaria e uma confeitaria, mas não diz «fundada» mas «fundado»…” A senhora interrompeu-me e disse-me: “Ah, pois, esse assunto terá de ser mesmo com aquele senhor, o patrão….” Agradeci-lhe, mesmo assim, tão simpaticamente quanto pude e repeti a pergunta ao senhor, que me deu logo atenção. Ele reagiu com alguma atrapalhação. Para lhe facilitar a interpelação, perguntei-lhe se tinha a ver com «estabelecimento» e não com «pastelaria» e «confeitaria». O senhor respondeu-me: “Olhe, não sei… nunca tinha pensado nisso…” Voltou-se para trás, pegou num cartão da casa e deu-me, convidando-me a ver o cartão com atenção. Agradeci-lho, mesmo percebendo que o senhor me estava delicadamente a despachar. Mas, pronto, quem sabe?, um dia destes vai voltar a pensar sobre uma coisa eu até hoje nunca tinha pensado.
Muito bem, cheguei ao limite do meu vagar. Eram mesmo horas de me chegar à Sala Azul do Museu da Faculdade de Ciências, onde o atraso do Professor Maquiavel me deu tempo de tirar fotografias à baleia-comum pendurada do teto numa sala linda do Museu, bem ali ao pé do improvisado Café da palestra que era, desde o início, o motivo de ter ido hoje para aquela zona da cidade de Lisboa.

O que andam os matemáticos à procura?

Mestre Maquiavel, da Universidade do Porto, que começou na Matemática pela que será, aparentemente, a mais afastada do comum dos mortais, a Pura, lançou-nos hoje de manhã, no inventado Café, ali à esquina de um dos corredores do (ainda) majestoso edifício da Faculdade de Ciências de Lisboa, na famosa Rua da Escola Politécnica, para falar sobre a simetria na Natureza e no Cérebro, a seguinte pergunta:
- De que andam os matemáticos à procura?...
Hora do almoço a chegar, ele antecipou-se às nossas conjeturas e adiantou: - É de padrões.
Que o peixe do meu colega de mesa que estava lá em casa à espera dele para ser arranjado me perdoasse, mas não resisti a pôr o dedo no ar, bem esticado para que não deixasse de ser visto. E foi mesmo! Nestas coisas, em que a gente fala como quem brinca, eu não poderia ficar calado sem responder à desafiante pergunta!?...
- "Tudo o que existe, desde a mais ínfima partícula até ao composto mais complexo [quer dizer, da micropartícula à totalidade complexa dos objetos cosmológicos e universais]- dizia eu, tudo está em relação (1), nada existe sozinho, por si próprio, cada coisa relaciona-se com pelo menos uma outra. E as relações desenvolvem-se, acontecem, organizam-se, de acordo com padrões. Será que os matemáticos andam à procura da compreensão das relações e dos seus padrões?..."
O notável animador da sessão de hoje do World Café concordou. Concordou e gostou!

(1) Estais vendo, queridos alunos, a Psicologia está por todo o lado!... Não é só a Matemática!

sexta-feira, outubro 11, 2013

A vida é feita de pequenos nadas, não é?

Hoje estive na escola em "sessão contínua" das oito da manhã às três da tarde. Só depois vim a casa almoçar.
Tomara, como é costume, o pequeno-almoçoas seis e meia da manhã. No primeiro intervalo da manhã, consegui respegar uma banana que tentei digerir discretamente enquanto uma colega me falava de uma ocorrência bem matinal entre alunos, ocorrência essa bem mais difícil de digerir.
Quando estava a chegar a casa, a enfiar o passe do Metro no bolso no pátio largo da saída da estação, em Chelas, tomei consciência de que a fome, difusa, fazia mossa no humor e na genica para me mexer dali.
Quando entro no corredor de acesso à escadaria da saída, vindo precisamente dele, reparo que vem de lá o Roman, que não via há tempos. Ele vê-me no mesmo momento em que eu o vejo. Mesmo à distância vejo que o rosto dele se abre num intenso sorriso - e se são lindos todos os sorrisos genuínos! Logo a seguir estávamos a trocar um valente abraço.
O Roman, assim que desfizemos um abraço, diz-me, muito alegremente: "Ó 'store' nem sabe o que eu vinha a pensar!... Vinha ali atrás e vinha a pensar se  o ia encontrar agora aqui!... E o 'store' aparece mesmo!..."
E pronto, dissemos aquelas coisas que se dizem nestas alturas, divertidas; depois falámos das aulas, do seu curso. Acabou o 1.º ano, está a acabar as férias; na próxima segunda-feira começa o 2.º ano. E depois virá o resto, foi-me ele dizendo com entusiasmo e confiança.
Repetimos, à despedida, o abraço.
A subir as escadas dei-me conta que o humor como eu gosto de sentir regressara; e a genica também. Afinal, mais cedo do que era a minha expetativa de três ou quatro minutos antes. E sem ingerir qualquer caloria, ainda por cima!
Olha se eu tivesse vindo a casa almoçar a horas!... Não teria saboreado este tão agradável momento!
É bom quando o mundá dá as voltas do jeito que a gente quer, não é caro Roman?

sábado, setembro 21, 2013

Hoje conheci uma princesa ciganita

Hoje conheci uma princesa ciganita (21 de setembro de 2013, sábado)
                Hoje, a seguir ao almoço, fui visitar o meu neto nigeriano, que recupera ansiosamente de um osso partido no pé direito. Ansiosamente porque veio para cá atrás do sonho de vencer no futebol e este contratempo põe neste momento em causa a possibilidade de poder continuar no nosso País.

http://i1.r7.com/data/files/2C95/948E/301E/2E00/0130/225F/
0C43/506D/menina%20cigana%20450x338.jpg

                Fui pegá-lo ao Centro Pedro Arrupe, para irmos comer um gelado. Cheguei-me ao carro enquanto o KC saía da sala comum e, pelo lado de fora do prédio, passava ao lote a seguir para ir ao quarto compor-se na roupa.
                Ali encostado à porta aberta do carro, à espera, vi vinda da zona em que o meu neto desapareceu, uma menina, uma ciganita, que desceu o breve lance de escadas que ele também teria de descer para vir ter comigo. Trazia dois sacos de plástico volumosos, um em cada mão. Ambos cheios de lixo. Quando passou por mim olhou-me bem olhado; eu já estava a olhar para ela e continuei a olhar para ela, seguindo-a assim até ao caixote do lixo. A chegar lá, a menina olhou para trás, claramente à minha procura. Sorriu quando viu que eu continuava a olhar para ela e ganhou um jeito um pouco exibicionista no modo como atirou ora um, ora o outro saco de lixo para dentro do caixote.
                A menina tomou o caminho de volta e foi logo evidente que passaria ali muito perto de mim. Era uma menina bonita, magrinha, esguia, muito bem proporcionada. Rosto claro, olhos escuros e cabelo comprido apanhado atrás como é tradição na sua etnia. Que figura agradável!
                Eu queria meter conversa com a menina, mas o ambiente dos prédios
à volta inibia-me de o fazer. Só que tive muita sorte! A menina quando chegou outra vez ao pé de mim parou e lançou-me um vigoroso e bem sorridente “ – Olá!”.” – Olá!”, respondi eu.  “És uma menina muito forte!... Levavas cá cada saco!...” A menina-princesa riu-se, olhou para as palmas das mãos, limpou uma na outra e disse-me, pondo um ar de pessoa séria e com o sentido das responsabilidades, desabafou:  - “Agora tenho de ir fazer os trabalhos da escola…” “Ah!... A escola, não é?, já começou a sério, não foi?...” “Sim, já começou…” E antes que eu tivesse tempo de dizer mais qualquer coisa, deixou de olhar para as mãos, que continuava a limpar uma na outra, olhou para mim e perguntou-me: - “Tu não és daqui, pois não?... O que é que estás aqui a fazer?...”
                Eu já admitia que alguém pudesse estar algures a controlar-me: que faria ali aquele estranho a falar com uma miudita do bairro? Pelo menos, - que isso me valesse! - eu estava à vista de toda a gente; e tive o cuidado de não me aproximar mais da menina desde que ela parara ali à minha frente.
                - “Não, tens razão, eu não sou daqui, vim buscar um rapaz que está aqui no Pedro Arrupe e vou levá-lo a dar um passeio comigo, ele é mais ou menos meu neto.”  Disse isto e fiz um gesto bem exuberante a apontar para a entrada do Centro de Acolhimento para que quem quer que fosse que estivesse a controlar-me  pudesse perceber a razão de eu estar ali. – “Onde é que moras?...” perguntou-me a menina. Achei que era conveniente tomar alguma liderança na conversa e respondi-lhe: - “Moro longe daqui, moro nos Olivais e dou lá aulas numa escola.” A menina-princesa arregalou os olhos, e antes que ela dissesse alguma coisa, eu perguntei-lhe: - “Em que ano andas tu?...”“Ando no terceiro ano, a minha escola é ali para trás”, disse-me ela torcendo-se sobre o seu lado esquerdo e apontando quase a 180 graus para trás de si. – “E tu dás mesmo aulas?”, perguntou-me ela olhando outra vez para mim. – “Sim, dou, mas para teres aulas comigo, tens de chegar primeiro ao 12.º ano…”“Tchiii!... Ainda falta muito!...”, disse ela. – “Não te preocupes, vais lá chegar, e se quiseres ter aulas comigo vais à escola que fica ao pé da Quinta Pedagógica… Sabes onde é a Quinta Pedagógica?...” Sim, ela sabia, já lá tinha estado. – “Depois, quando lá chegares, é só perguntares pelo professor de bigode!...” A menina levou a mão direita acima do lábio superior e esticou ali os dedos indicador e médio, colando-os como se de um farto bigode se tratasse. Riu-se e comentou, divertida: - “O professor de bigode?...”
                Entretanto, o KC, o meu neto nigeriano aproximava-se. Ela olhou-o e perguntou-me: - “É este o seu rapaz?...” Não deixei de repara na diferença de tratamento entre o "tu" e o "seu"; já conheço esta transformação, normalmente é de bom sinal. Disse-lhe que sim e ela afastou-se. Já no patamar do prédio, voltou-se para trás, na minha direção, e gritou, com o dedo indicador direito bem apontado para mim: - “Eu não me vou esquecer do professor de bigode!...” Depois disse-me adeus. Eu não qui deixar de  lhe responder ao aceno e disse-lhe também adeus, de braço bem levantado no ar. O meu neto ria-se, comentando que eu já tinha arranjado mais uma amiga.
                Levei, então, dali o KC até ao Spacio, nos Olivais, ele pediu no MacDonald’s um Sunday com ananás – ele não se apercebeu logo que o ananás era de São Miguel, dos Açores, ilha que ele, afinal, conhecia já de maneira muito especial; e eu deleite-me com o meu gelado favorito: Sunday de caramelo, em bolacha, com pedacinhos de amêndoas.
                O encontro com o KC durou cerca de duas horas. Quando o deixei de novo à porta do Centro Pedro Arrupe, ouvi um grito de gente pequena. Olhei em volta, era a minha princesa a chamar-me; e lá de longe fez-me ouvir muito claramente: - “O professor de bigode, não é?... Eu não vou esquecer-me!...” As pessoas que estavam à volta dela olhavam sem perceber o que estava a acontecer. Eu acenei bem vivamente à menina, deixando que todos me vissem bem. Ela atirou-me um beijinho e eu atirei-lhe outro. Dei um abraço rijo ao KC, ele ria-se e abanava a cabeça a dizer mais ou menos assim: - “Avô, arranjas amigos em todo o lado…” – “E que amiga eu arranjei aqui! É uma princesa!...”

                E fui embora dali.

terça-feira, setembro 17, 2013

Santo Agostinho: brincar ou ir à escola; e ser castigado

O meu amigo Luís B. Moniz é o principal "culpado" de uma revisita aos escritos que tenho de Santo Agostinho. Encontrei um que achei ter muito a ver com o recomeço das aulas.
Os responsáveis dos estabelecimentos escolares esforçam-se em receber os alunos com cordialidade, com carinho, com sorrisos; mas não conseguem resistir a lançar firmes avisos da tolerância zero para os atos de indisciplina. Cada vez mais eu me interrogo sobre o que vale hoje a escola na formação integral da pessoa que é cada criança e cada jovem que a frequenta. Tenho cada vez menos certezas, mas também não me angustio com as minhas incertezas.
Creio que a generalidade dos alunos gosta de voltar à escola, mas as aulas são cada vez menos espaço para se gostar de estar, são espaços que despertam cada vez menos entusiasmo para aprender.
Os professores são profissionais com cada vez menos tranquilidade na sua condição profissional e também na sua condição pessoal; e familiar. Os professores são profissionais cada vez mais tolhidos na sua espontaneidade, na sua criatividade, na sua intuição e experiência pessoal por regulamentos, decretos ministeriais, procedimentos administrativos, e outras burocracias...
Não tenho soluções, mas acredito que continua a valer a pena privilegiar a experiência social positiva em sala de aula à preocupação obsessiva de encher as cabeças dos alunos com conteúdos programáticos - até porque, entretanto, seria necessário verificar se eles são os oportunos e ajustados. As lideranças políticas, económicas e financeiras do mundo estão cheias de especialistas de conhecimentos e o estado do mundo é a desgraça que se conhece. Falta na condução do mundo, nas lideranças o que, por exemplo, o ministro da Educação tanto critica: a humanidade, a ética, os valores, a solidariedade e a tolerância que as Ciências da Educação tanto alertam que não sejam descurados. Como diz a expressão popular, bem podem Nuno Crato e outros especialistas esclarecidos e empreendedores limparem as mãos à parede com a linda... coisa que têm andado a fazer!
Por isso deixo, então, aqui esse texto de Santo Agostinho, que ele escreveu há quase 1600 anos. Fala ele de gostar de ir à escola, gostar de brincar; compara crianças com homens de negócios (- Olha!...) e da maneira como uns são castigados e outros não por pecados equivalentes; finalmente, de quem acaba por ficar atormentado pela ira e pela inveja.
O texto:

Na paixão do jogo [da brincadeira]

Ó Deus, meu Deus, que misérias e enganos não experimentei, quando, simples criança, me propunham vida reta e obediência aos mestres, a fim de mais tarde brilhar no mundo e me ilustrar nas artes da língua, servil instrumento da ambição e da cobiça dos homens.
Fui mandado à escola para aprender as primeiras letras, cuja utilidade eu, infeliz, ignorava. Todavia batiam-me se no estudo me deixava levar pela preguiça. As pessoas grandes louvavam esta severidade. Muitos dos nossos predecessores na vida tinham traçado estas vias dolorosas, por onde éramos obrigados a caminhar, multiplicando os trabalhos e as dores aos filhos de Adão. Encontrei, porém, Senhor, homens que Vos imploravam, e deles aprendi, na medida em que me foi possível, que éreis alguma coisa de grande e que podíeis, apesar de invisível aos sentidos, ouvir-nos e socorrer-nos. Ainda menino, comecei a rezar-Vos como a "meu auxílio e refúgio", desembaraçando-me das peias da língua para Vos invocar. Embora criança, mas com ardente fervor, pedia-Vos que na escola não fosse açoitado. Quando me não atendíeis — "o que era para meu proveito" —, as pessoas mais velhas e até os meus próprios pais, que, afinal, me não desejavam mal, riam-se dos açoites — o meu maior e mais penoso suplício.
 Haverá, Senhor, alma tão generosa e tão unida a Vós pelos laços dum ardente afeto, que despreze, não por insensibilidade louca, mas por amor intenso e forte para convosco, os cavaletes, os garfos de ferro e os demais tormentos deste género dos quais os homens em toda parte suplicam que os liberteis? Haverá alguma alma dessas que despreze essas torturas a ponto de rir dos que tão acerbamente temem esses suplícios, como meus pais caçoavam das penalidades que a nós, meninos, infligiam os mestres? Eu não temia menos os castigos do que as torturas, nem Vos suplicava menos que nos livrásseis deles.
Contudo, pecava por negligência, escrevendo, lendo e aprendendo as lições com menos cuidado do que de nós exigiam.
Senhor, não era a memória ou a inteligência que me faltavam, pois me dotastes com o suficiente para aquela idade. Mas gostava de jogar - e aqueles que me castigavam procediam de modo idêntico! As ninharias dos homens, porém, chamam-se negócios; e as dos meninos, sendo do mesmo jaez, são punidas pelos grandes, sem que ninguém se compadeça da criança, nem do homem, nem de ambos. Um juiz reto aprovaria os castigos que me davam, por eu, em pequeno, jogar a bola e o jogo ser um obstáculo ao meu aproveitamento nos estudos, com os quais eu havia de jogar menos inocentemente quando chegasse a homem? Agia, porventura, de modo diferente aquele que me batia, se nalguma questiúncula era vencido pelo seu competidor? Então esse não era mais atormentado pela ira e inveja do que eu quando superado no desafio da bola pelo meu rival?...
(Santo Agostinho, 2010. Confissões. Público 20 anos, Livros que mudaram o mundo, p. 27-29)

segunda-feira, setembro 16, 2013

O melhor presente é...

https://fbcdn-sphotos-c-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash3/
1233375_455157784603360_1407836691_n.jpg
Reproduzo agora um pensamento que encontrei no Facebook, com a fotografia que o acompanhava. É capaz de ficar bem aqui hoje, dia em que recebemos os novos alunos na nossa escola:
"The best gift you can give to someone is your time, because you're giving them something you can never get back."
"O melhor presente que alguma vez podemos dar a alguém é o nosso tempo, já que assim estaremos a dar qualquer coisa que nunca poderemos tomar de volta."
É um pouquinho desse tempo, para lá do tempo profissional que, se calhar, os professores podem ainda dar, não obstante as sempre crescentes dificuldades e cada vez mais insuperáveis obstáculos no seu trabalho diário.
É essa também a grande dádiva dos jovens mediadores que se comprometeram já, perante as crianças e os seus pais, a ajudar que a empresa da escola seja mais fácil e saborosa!
P.S. - Ao que parece, ninguém sabe quem é o autor deste pensamento. É certamente de alguém que refletiu sobre as coisas importantes na Vida. Como também fez e disse, entre outros, Nelson Mandela.

quinta-feira, setembro 05, 2013

Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo - será perverso o argumento de Nuno Crato?

Com um tom de voz esforçadamente sereno, apaziguador, seguro da sua própria sabedoria, Nuno Crato, depois de aduzir argumentos assim e antes de aduzir argumentos assado, diz que "estamos absolutamente convictos, SABEMOS (o destaque é da minha responsabilidade, tal como os que virão a seguir) que isto vai DEFENDER A ESCOLA PÚBLICA, isto vai TORNAR MELHOR a escola PÚBLICA melhor e isto vai melhorar o SISTEMA no seu conjunto". Pois...

  1. SABEMOS. Hum... Parece-me que sabem com o mesmo tipo de certeza que Bush e os outros políticos que se juntaram na cimeira dos Açores tinham quando disseram que o Iraque tinha armas de destruição massiva. 
  2. DEFENDER A ESCOLA PÚBLICA. Será mesmo a escola pública que se está a defender?... Ou não será, ao invés, a "outra"?
  3. TORNAR MELHOR. Tornar melhor... a escola pública? E a escola particular é já boa?... Com tudo o que se sabe? Com tudo o que tem vindo ao conhecimento público? Com o que se sabe que é a vantagem dos alunos da escola pública no sucesso no Ensino Superior, não obstante a vantagem (pelos vistos, não relevante) do ensino privado/particular nas classificações finais dos alunos à saída do ensino secundário?
  4. SISTEMA. Hum... Não estará Nuno Crato, falando de "sistema", a DEFENDER, debaixo de um eufemismo, a escola não-pública, que ele reconhece implicitamente que é preciso "TORNAR MELHOR", mas que, por conveniência de identidade social e política ("dinâmicas" de grupos socialmente e politicamente dominantes...) , se disfarça assim... Tão engraçado!... Tanto que Nuno Crato escreveu e dissertou jocosamente sobre "aqueles" das Ciências da Educação que argumentavam com o "contexto" e com o "sistema"!...

segunda-feira, setembro 02, 2013

As aves da bela cidade de Lisboa

EXTRAORDINÁRIO!...
Que espelho encantador para nos olharmos narcisicamente!...
DESTAS, SIM, DESTAS VAIDADES VALE BEM A PENA A GENTE GABAROLAR-SE!
Que lindo o nosso património animal, natural e adaptado! E alguma coisa dos nossos séculos de história!

O almofariz da Escola Portuguesa atual

Sou professor dedicado à escola pública.
http://1.bp.blogspot.com/-pgeFEMUhvZQ/UPgmUNjVyxI/
AAAAAAAAw04/Lun-2AR9ZTw/s640/desenho-colorir-escola.jpg
Regresso hoje ao trabalho (sem que dele saísse completamente durante as férias... Tantas coisas boas encontrei, delas logo fazendo desejo de trazer a alunos e colegas!), com o entusiasmo renovado dos outros anos.
Sinceramente penso que o grande desafio dos professores - e dos pais dos alunos! - continua a ser a vitória sobre a escola de que fala Guerra Junqueiro neste seu poema. Aliás, do meu pensamento sobre a escola atual faz parte a convicção de que a "estupidez decretada" e  "esse almofariz" estão mais presentes do que nunca!
Acredito nos professores dedicados. Acredito na vontade de muitos de se tornarem professores dedicados. Assim ganharemos os alunos, até mesmo os mais renitentes à escola e aos professores! Todos os alunos merecem a dedicação dos professores!
Vivemos tempos em que muito teremos - nós, os professores -  de nos esforçar contra o tutelar ministério e a estupidez decretada. Se estivermos unidos será mais fácil.

A Escola Portuguesa


Eis as crianças vermelhas 
Na sua hedionda prisão: 
Doirado enxame de abelhas! 
O mestre-escola é o zangão. 

Em duros bancos de pinho 
Senta-se a turba sonora 
Dos corpos feitos de arminho, 
Das almas feitas d'aurora. 

Soletram versos e prosas 
Horríveis; contudo, ao lê-las 
Daquelas bocas de rosas 
Saem murmúrios de estrela. 

Contemplam de quando em quando, 
E com inveja, Senhor! 
As andorinhas passando 
Do azul no livre esplendor. 

Oh, que existência doirada 
Lá cima, no azul, na glória, 
Sem cartilhas, sem tabuada, 
Sem mestre e sem palmatória! 

E como os dias são longos 
Nestas prisões sepulcrais! 
Abrem a boca os ditongos, 
E as cifras tristes dão ais! 

Desgraçadas toutinegras, 
Que insuportáveis martírios! 
João Félix co'as unhas negras, 
Mostrando as vogais aos lírios! 

Como querem que despontem 
Os frutos na escola aldeã, 
Se o nome do mestre é — Ontem 
E o do discíp'lo — Amanhã! 

Como é que há-de na campina 
Surgir o trigal maduro, 
Se é o Passado quem ensina 
O b a ba ao Futuro! 

Entregar a um tarimbeiro 
Um coração infantil! 
Fazer o calvo Janeiro 
Preceptor do loiro Abril! 

Barbaridade irrisória, 
Estúpido despotismo! 
Meter uma palmatória 
Nas mãos dum anacronismo! 

A palmatória, o açoite, 
A estupidez decretada! 
A lei incumbindo a Noite 
Da educação da Alvoradal 

Gravai na vossa lembrança 
E meditai com horror, 
Que o homem sai da criança 
Como o fruto sai da flor. 

Da pequenina semente, 
Que a escola régia destrói, 
Pode fazer-se igualmente 
Ou o assassino ou o herói. 

Desta escola a uma prisão 
Vai um caminho agoireiro: 
A escola produz o grão 
De que a enxovia é o celeiro. 

Deixai ver o Sol doirado 
À infância, eis o que eu vos peço. 
Esta escola é um atentado, 
Um roubo feito ao progresso. 

Vamos, arrancai a infância 
Da lama deste paul; 
Rasgai no muro Ignorância 
Trezentas portas de azul! 

O professor asinino, 
Segundo entre nós ele é, 
Dum anjo extrai um cretino, 
Dum cretino um chimpanzé. 

Empunhando as rijas férulas 
Vós esmagais e partis 
As crianças — essas pérolas 
Na escola — esse almofariz. 

Isto escolas!... que índecência 
Escolas, esta farsada! 
São açougues de inocência, 
São talhos d'anjos, mais nada. 

(Guerra Junqueiro [1850-1923], in 'A Musa em Férias')