sábado, dezembro 31, 2011

A chegada do ano 2012

Em jeito de diálogo entre mim e a minha querida aluna Sandra Vozone, no Facebook, a escrever na água, no seu sentido quase mais literal.

SANDRA VOZONE:

Boas entradas minha gente! Espero que todos aqueles que estiverem aqui marcados entrem em 2012 com o pé direito e que ao longo do novo ano tenham tudo aquilo que desejam, até mesmo dinheiro que sei que vai ser difícil. Como não tenho tempo para agradecer um a um por fazerem parte da minha vida, agradeço em conjunto... OBRIGADA ao todos por me aturarem durante este ano nada fácil para mim. Obrigada aos amigos de longa data, obrigada ao novos amigos, obrigada também aos que deixaram de ser, todos contribuíram para o meu crescimento contínuo! Obrigada aos professores mencionados! Obrigada pelos sorrisos, pelos momentos, por tudo! :D ♥
Peço desculpa se falta alguém mas não tenho boa memória!


FERNANDO PINTO
Ôi, @Sandra Vozone! Que volta é que a gente há de dar a isto?... Provavelmente, com a mesma sinceridade que nos desejas tudo de bom para 2012, desejaste também para 2011... Os votos para o ano novo são - quantas vezes? - votos de ilusão. Quantas vezes são verdadeiramente votos de confiança? Ainda por cima, para azar nosso, a passagem de ano é puramente arbitrária, nem sequer está ligada a nenhum momento de renovação natural ou biológica. Por mim, alinharia numa festa de renovação de confiança numa data entre o Entrudo e a Páscoa. E nem estou a ser nada criativo com isso! Basta olhar para a história dos homens e dos seus rituais.
É por isso que, muito sinceramente, minha querida Sandra, aceita o que a seguir escrevo como uma contribuição pessoal ao voto que formulas. Acabei de receber um email que traz uma citação de um(a) autor(a), Stacia Tauscher [ainda não sei bem quem é este(a) autor(a)]r, que diz assim: "We worry about what a child will become tomorrow, yet we forget that he is someone today". No fundo, é como dizer: não nos comprometamos demasiadamente com as ilusões do futuro; isso sim, apreciemos e consolidemos as relações do presente. Assim, verdadeiramente, estaremos a construir o futuro.
Grande beijinho, Sandra, espero ver-te em breve. Estou a contar contigo para a minha Bolsa de Voluntários, que já está em marcha na nossa escola. ♥

SANDRA VOZONE

Professor Fernando Pinto, sempre tão sábio nas suas palavras. Não posso deixar de concordar com o que diz, claro, é tudo verdade mas eu sou (e não confesso com o maior orgulho) daquelas pessoas em que os votos de ilusão, como diz, lhe parece o melhor e mais sincero para dizer nestas alturas. Quanto à Bolsa de Voluntários, assim espero fazer parte desse seu projecto que deve ser muito enriquecedor a todos os níveis. ♥
Sempre tão perfeccionista professor! (:


FERNANDO PINTO
‎Sandra Vozone, quando criei o blogue que acompanhou a nossa viagem a Estrasburgo, o lema que juntei foi este: "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive." (Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa). Como poderia eu fazer de outro modo, sem correr o risco de tornar ocas as palavras que escrevo? Não sei se sou perfecionista; isso sim, tento acrescentar algo que valha a pena, mas certamente nem sempre o consigo.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Natal 2011 - Confissão de um alquimista


O meu menino jesus deste ano.
No que diz respeito ao Natal, há muito que tenho o espírito e o entusiasmo de um alquimista. Se bem me conheço,  tenho e sempre continuarei a ter esse espírito e esse entusiasmo. Pegar em reagentes que, em si, praticamente são nada e fazê-los, misturando-os, transformarem-se em ouro, não, isso não me interessa. É verdade, isso não me interessa, ou melhor, sou suficientemente sábio para me reduzir ao pouco que valho e, assim, só me resta admitir para mim próprio que não conseguirei nunca fazer o que tantos, muito melhores do que eu, têm tentado, há milhares de anos, repetidamente, obter, sem sucesso.
Vou fazer-vos uma confissão: a minha alquimia, o meu grande desejo, é juntar o Menino Jesus e o Pai Natal num só. Pronto,  já disse!... Está dito!
De há 2 ou 3 anos a esta parte, o Pai Natal não tem parado de escrever aos meus alunos, até já das Maldivas, nas férias de Verão deste ano, ele escreveu! Sim senhor, o Pai Natal escreveu aos meus alunos, ali está bem marcado nos postais, o carimbo de correio das Maldivas, carimbo verdadeira, sem enganar ninguém! E assinadinho à mão: P-a-i-N-a-t-a-l! Há dias, recebemos mais um postal, este agora – só podia ser! -  da Finlândia! Escrevi-lhe, logo de seguida, para Rovaniemi, um email a agradecer e ele já me respondeu a dizer que esperasse, que não era tudo! Que a caminho vinha outro postal dele, escrito em finlandês, imagine-se. Postal escrito sem medo que a gente não o percebesse! O Pai Natal sabe que a gente usa a Internet e sabe que conhecemos e usamos o tradutor do Google. Esta ferramenta da Net dá mesmo jeito!
Todos os anos – e este ano não foi exceção, até para os meus alunos do 12.º ano -, o Pai Natal, de cada vez que eu leio, ou faço ler, as suas cartas nas aulas, fica sujeito ao desdém de quem, de cara desconfiada e boca torcida para o lado, os dentes exibidos em insolência quase agressiva, arranha as venenosas palavras: “Isso é tudo treta!... Foi o “stôr” que escrever a carta, o Pai Natal não existe!...” O Pai Natal está habituado a estas saídas da malta jovem. Ouve e sorri, cheio de carinho e tolerância.
Seguem-se sempre, depois, confrontos de argumentos, em que o desafio a que me proponho é convencer sem nunca fugir à verdadeira verdade. São bem mais as vezes que consigo que as que não consigo.
Senhores, já viram bem o rosto da mais cética das criança ou do mais cético dos  jovens quando sinceramente põem na sua consciência, levada por emoções que irrompem a partir do espanto genuíno, a ideia de que o Pai Natal possa existir? Que lindos ficam! Vale ou não vale a pena despertar emoções, ou dúvidas, assim?
Há muitos anos, numa história que já contei, o Nelson, num Natal que tudo lhe dizia que iria ser triste como tinham sido todos os outros Natais da sua vida, acreditou que o Pai Natal existia. E isso mudou o Natal daquele ano! Porque teve mais prendas?... Porque viu o Pai Natal?... Não, simplesmente porque acreditou. Talvez ainda hoje ele diga que foi o melhor Natal da sua vida.
Senhores, já se deram bem conta da experiência emocional que é acreditar que pode existir uma pessoa bondosa, amiga, gordinho, anafadinho de coisas lindas e encantadoras para toda a gente, como é a pessoa do Pai Natal? Como passamos nós a olhar as pessoas à nossa volta quando começamos a acreditar como o Nelson acreditou?... Todos nos parecem bons e com todos nos apetece estar. E queremos que se sintam tão alegres quanto nós próprios. O Pai Natal só desperta sentimentos bons e positivos!
Sim, que bom é sentir que o Pai Natal existe, que ele vai vir a nossa casa; que bom é pensar que, quem sabe?, um dia vamos vê-lo!... Não veio este ano?, não faz mal, se calhar não pode, ele tem de andar por tantos lados… se calhar, até veio, eu é que não consegui vê-lo… E, com o tempo, descobre-se outra coisa: que cada um de nós pode brincar ao Pai Natal, descobre-se que cada um de nós pode fingir que é o Pai Natal. Descobre-se que cada um de nós pode chegar-se a uma criança e fazer acontecer nela aquele momento – tão saboroso! - em que as crianças tomam contacto com aquele senhor tão bondoso, tão amigo das crianças e de todas as pessoas. Que bom é sentirmos estar em contacto com pessoas boas! Que bom é fazermos uma criança sentir-se interiormente tão bem! Não é bom termos todos uma experiência emocional assim?
Se o Pai Natal nos traz a experiência emocional da bondade abastada, o Menino Jesus traz-nos o outro lado do tempo do Natal. O lado do amor da família, o lado do aconchego do lar, mesmo no casebre mais pobre de todos. A paternidade biológica do Menino Jesus põe-nos perante problemas de compreensão que pedem asas ou rasgos de pensamento que vão – também, como no caso do Pai Natal – bem para além do que a nossa condição racional nos deixa chegar. Deparamo-nos outra vez com a capacidade de acreditar. De acreditar e de sentir. E, outra vez, não é bom sentir? Não é bom acreditar? Qual de nós não sente o coração cheio de ternura e compaixão quando pensa no e sente o Menino Jesus?
Os tempos que vivemos estão a tirar-nos o saco das prendas do Pai Natal. Balançamos entre as duas alternativas: olhar tragicamente para a vida à nossa volta e para o que nos dizem dos anos que aí vêm; ou fazer, outra vez, a experiência renovadamente reconfortante das Boas Festas e do aconchego natalício.
No seu tempo, em 1883, e ao seu jeito, Eça de Queiroz, na véspera de Natal, escrevia a Jaime Batalha Reis e dava conta ao seu amigo da ambivalência que lhe ia na alma entre trabalhar e a si próprio se “dar feriado de Natal”. Logo a seguir afirmava o desapontamento da resolução. E prometia ao seu amigo que, assim que pudesse, se chegaria a ele para lhe dar um abraço.
Noutras culturas, as que não contêm a matriz da mensagem cristã, o Natal não existe, a ambivalência não acontece. Certamente nessas culturas, as pessoas, geração após geração, encontraram outras formas de sentir a existência de gente genuinamente boa e também de sentir a possibilidade da abastança partilhada; de sentir o prazer da teia de laços afetivos entre gente que se conhece e ama, mesmo quando tudo à nossa volta nega a experiência da abastança. Estas crenças têm diretamente a ver com necessidades humanas básicas, por isso aparecem em todas as culturas, mesmo que com formas diferentes.
Que é, na verdade, o Natal sem a crença sincera no Menino Jesus e no Pai Natal? Que experiência de laços afetivos, que sabor é que o Natal do 25 de Dezembro tem, na nossa cultura de origem, se pusermos o Menino Jesus e o Pai Natal fora das nossas casas, dos nossos lares, do borralho que sempre fez parte das nossas tradições familiares?
Pensando bem, depois disto tudo, interrogo-me se devo mesmo continuara a tentar o dois em um, quer dizer, juntar o Pai Natal e o Menino Jesus, ou se será melhor que a gente continue a tê-los separados. Às tantas…
Muito bem, enquanto o pau vai e vem folgam as costas, não é verdade? É sim senhor. Se as coisas correrem bem, vai acontecer-me o mesmo que aos alquimistas do ouro. A crença que atingirei, mesmo que apenas no fim dos tempos, o meu desiderato (juntar, num só, o Pai Natal e o Menino Jesus), alimenta em mim, tal como em todos os alquimistas, a experiência afetiva do entusiasmo e o sabor gostoso que essa experiência nos deixa e que, depois, espalhamos na nossa relação com os outros. E, mesmo que a alquimia me traga só isso, sem nunca vir a trazer o tal “dois em um”, vale bem a pena!
Vá, não posso deixar os reagentes ali entregues, inertes, a eles próprios. Perderiam a competência para reagir. Deixem-me voltar para o laboratório secreto da minha alquimia. Um dia vou conseguir! Tenho a certeza! Se alguém quiser ajudar, força! Apareça!
Se acreditarem, como eu acredito, que pode haver algures, no mundo, um homem muito bondoso (ele às vezes disfarça as barbas brancas, ou a roupa vermelha), que deseja convictamente levar à satisfação dos sonhos de criança; se acreditarem, como eu acredito, que há um menino de família humilde (fale ou não a nossa língua) que quer ver todas as famílias aconchegadas na alegria de partilharem a carinhosa mesa da Consoada…
pois então, apareçam, que eu vou mostrar-vos todas as fórmulas que já tentei; talvez assim juntos consigamos chegar à fórmula definitivamente boa.
Votos de um Santo Natal, cheio de Sonhos que renovem em todos nós o prazer de estarmos juntos e caminharmos confiantes e entusiasmados ao encontro do Futuro!

domingo, novembro 06, 2011

O Homem Que Caminha


Sem a firmeza do teu andar, passo a passo, a fragilidade do teu ser voltará a ficar mais exposta.
É esta a alegoria que leio nesta obra de Alberto Giacometti.

Tinham de ser os bancos suíços a tirar partido partido da força da poderosa sucessão de imagens do Homem Que Caminha, solitariamente, fotografado em diferentes perspetivas! A isto eu chamo perversão! É esta perversão ligada ao dinheiro, ao poder e à ambição desmedida que trouxe as sociedades desenvolvidas ao estado a que chegaram e a que não conseguem dar a volta... para desgraça de todos, os da geração atual e das gerações que se seguirão.
Ícone da arte moderna, o Homem Que Caminha de Giacometti deverá manter-se como um desafio constante para cada um de nós. Eu penso assim.

domingo, outubro 30, 2011

É um simples jogo. Mas eles estão concentradíssimos.

De Moçambique, em jeito de mensagem de parabéns, recebi hoje este lindíssimo texto. Foi o João Figueiredo que mo mandou. Ele próprio é o autor do texto.
"São jovens. Não devem ter mais de vinte e poucos anos e são magros.
Têm cabelo curto e vestem roupas sujas. Estão sentados no chão e consigo observar os seus pés calejados.
À sua frente passam carros numa estrada de alcatrão cheia de buracos e com areia e vidros partidos amontoados junto à berma do passeio. Atrás deles, crianças semi-despidas brincam na pouca areia que existe numa praia com muito lixo.
Perto deles, ao alcance de um braço estendido, estão dois trapos com alguns artigos de madeira expostos. Rostos moçambicanos, porta-chaves, pulseiras, fios, anéis, carros, enfim… de tudo um pouco. Mas não há clientes.
Não sei se já conseguiram vender qualquer coisa hoje. Mas isso também não parece ser importante.
Estão concentrados noutra coisa. Estão frente a frente. Não querem saber dos brancos. Não estão preocupados se amanhã vai chover. Agora, tudo o que interessa é o jogo.
Sobre um pedaço de esferovite que já foi a tampa de uma caixa para transporte de peixe, consigo distinguir algumas linhas. É um xadrez improvisado.
O branco não é branco. É um branco sujo. Tão sujo, que quase parece castanho. É um branco gasto pelo tempo e colorido pela pobreza e falta de condições de vida.
O preto não é preto. É escuro. Talvez tenha sido pintado de preto. Mas já não é. É escuro.
Sobre o tabuleiro de esferovite há damas. Mas também não são damas. São tampas de garrafas de coca-cola. Então? Como é que estes vendedores, que agora são jogadores, conseguem perceber quais são as suas peças? É fácil! Umas estão voltadas para cima e as outras para baixo. É simples, não é?
É um simples jogo. Mas eles estão concentradíssimos. Nada parece ser mais importante. Nem mesmo os clientes. Para eles tudo o que interessa são as tampas de coca-cola. Tudo o que interessa é o jogo. Pelo menos, por agora.
E a crise? Onde é que está a crise?
Em todo o lado. A todo o momento. Mas aqui não se sente.
Desde que vá havendo tampas de garrafas de coca-cola haverá jogo…haverá vida."


segunda-feira, outubro 24, 2011

Falar claro, claro! Na escola e em todo o lado.

Que bom ouvir esta pequena palestra em português!
Muito interessante, muito clara, à atenção de professores, de alunos e da cidadania de todos nós!
Sandra, um grande abraço para o senhor Domingos!



Para chegar ao sítio na Internet da Sandra clicar aqui.

sábado, outubro 22, 2011

O habitante 7 mil milhões está a chegar

O mundo, com a aprovação oficial das Nações Unidas, prepara-se para receber o habitante sete mil milhões (7 000 000 000) do planeta Terra.
Às tantas, hei de estar eu a fazer saltar a rolha da garrafa de espumante para celebrar o meu aniversário e os meus vizinhos hão de pensar que estou a celebrar a chegada deste habitante tão especial. É que as Nações Unidas preveem que ele nasça ali bem pertinho do meu dia de anos: faço anos a 30 de Outubro e a previsão oficial é para 31.
Um contador sofisticado vem atualizando os números, segundo a segundo.
As Nações Unidas estão empenhadas em que muita gente, gente de todo o mundo, participe na celebração da chegada da nova unidade de milhar de milhões.
A razão não é para menos: o desafio é enorme, à escala mundial. Se cada nascimento de uma nova criança deve ser sempre motivo de celebração alegre e partilhada, as atuais condições políticas, ambientais e de consumo dos recursos disponíveis na Terra deixam-nos apreensivos quanto às possibilidades de vida, agora e já no futuro próximo, de tanta gente igual a nós nas alegrias, nos sofrimentos; nos direitos e nos deveres.
As Nações Unidas lançam-nos alertas e propostas.
Na Língua Portuguesa, parece que Cabo Verde vai à frente, será um exemplo para os outros países falantes da nossa Língua.
De que estamos à espera?...

sábado, outubro 08, 2011

A viagem a Ermua e o Professor Aníbal Pinto de Castro

Passa das 3 da tarde. Estou em trânsito, de Lisboa a Coimbra. Estou na Nazaré, no papel de chauffeur.
Acontece que, por momentos, sou chauffeur dispensado das suas obrigações. Quem me requisitou ao seu serviço está agora numa reunião de médicos.
Tentei tirar partido da liberdade que a dispensa me proporcionou: fui ao mercado tradicional da terra à procura dos velhos bolos de feira. Encontrei alguns, mas ao domingo -diz-me quase com pena de mim o senhor Joaquim, pegando numa pequenina broa e oferecendo-ma, como que para me consolar- é que há os que eu gostaria de mandar para a minha mãe. A minha "patroa" de hoje, a minha irmã, volta amanhã muito cedinho para o Faial, a horas que não nos permite tirar partido de amanhã ser precisamente domingo, o tal dia da semana que é o único que tem os bolos em forma de bonecas. Voltarei eu cá em breve, noutro domingo. Antes que chegue o Natal, para que a senhora idosa que está no Faial sinta que o Menino Jesus pensou mesmo nela.
Depois do mercado fui para a marginal, à procura de mesa para almoçar. Ainda era cedo, mas os sentidos traziam já os aromas tentadores dos peixes a grelhar. A esplanada a que me sentei praticamente obrigou-me a optar por uma salada de polvo; grelhados, ainda não, as brasas estavam atrasadas, que eu os desculpasse. O sentido do paladar reclamava sabores de maresia mais fresca; o estômago puxava avidamente para o excesso da gula. Preteri um e outro a favor do conforto pachorrento e resguardado do corpo; e a favor da vontade imperial da visão. Pronto, daquele lugar eu não me mudaria, que viesse a salada. O sentido da visão, portanto, esse, sim, empanturrou-se como pode. Seguramente escolhi a mesa com a panorâmica mais próxima, mais viva e mais completa do mar da Nazaré, ali em frente, e do Sítio, lá em cima, sobre o lado direito. Depois de quase cansar os sentidos a ver e a ouvir o mar, tirei algumas fotografias.
A seguir, já na praça da baixa nazarena, aproveitei a modernidade da pública rede wireless, peguei no pequeno computador portátil, e pus-me a deitar mais lenha na fogueira do Comenius que ainda arde intensamente, agora que está passada uma semana completa sobre a empresa escolar partilhada de Ermua, no País Basco.
Daqui a três horas estarei, já sem patroa, só com irmã, em Coimbra a lembrar, junto de outros, o falecimento de um dos mais importantes vultos dos estudos literários das universidades portuguesas: o professor Aníbal Pinto de Castro. Tive o privilégio de ser seu primo, amigo e confidente. Um dia ele, a tentar demover-me de fazer o meu doutoramento em Psicologia, perguntou-me porquê, se, afinal, havia tanta coisa verdadeiramente bonita e interessante para fazer nas escolas com os alunos; e que já havia muita gente com canudos grandes. Ri-me, sem me deixar convencer por ele. E disse-lho.
Tenho a certeza de que daqui a pouco, quando o ato religioso na igreja da Rainha Santa Isabel nos convidar ao recolhimento, eu vou falar ao meu primo Aníbal na viagem a Ermua, o que lá aconteceu, e sei que ele vai aprovar a minha participação nesta ação, que moveu um número razoável de alunos e professores de vários países da Europa.
Já agora, que acabo de escrever duas ou três palavras com uma grafia que até há pouco tempo era diferente, deixem-me dizer que o professor Aníbal Pinto de Castro, o seu ponto de vista sobre este assunto, foi determinante para que não adiasse hesitantemente ou contrariadamente a minha adesão ao acordo ortográfico que tanta polémica tem mantido. E se cuidadoso procuro ser no trato da língua que foi mãe dele e é também minha mãe (é a outra mãe que tenho, a da matriz cultural, não a biológica de que falei ainda há pouco), a alguns gigantes devo o exemplo de tal cuidado; ele, o meu primo Aníbal, é - foi-no sempre! -, seguramente, um dos mais poderosos de todos esses gigantes! Qual Colosso de Rodes, à beira do qual, desde muito pequeno, sempre me senti protegido, ele sempre fez projetar a luz que me levou, encantado e entusiasmado, para Alexandria, à procura de outras luzes.

P.S. 1 - Enquanto escrevia este apontamento, fui notificado por mensagem de telemóvel: a dispensa de chauffer termina às 16h30. A essa hora, viatura pronta para seguir viagem. A doutora terá terminado a sua reunião aqui neste hotel da Pederneira, sobranceiro ao mar e à povoação da Nazaré, pelo lado sul.
P.S. 2 (acrescentado hoje, dia 9 de outubro, em razão do acrescentamento da fotografia na sala da Confraria da Rainha Santa Isabel) - Agradeço muito vivamente, do fundo do coração, ao "Cajo", a gentileza (como diria o primo Aníbal, a pachorra de nos aturar!) de, no meio da azáfama profissional em que estava quase afundado, tirar a fotografia em que os dois irmãos puderam ficar juntos do primo de que guardam ternas, saudosas e exemplares lembranças.

quarta-feira, outubro 05, 2011

Dia Internacional do Professor, 2011

Na edição desta ano do Dia Internacional do Professor, proponho a leitura dos seguintes textos:

O primeiro é de um jovem do Canadá, de 15 anos de idade, lido no Dia Internacional do Professor, em 2002, nas Nações Unidas:
"What we need are good teachers who can get you to question yourself and what you know about the world, and who build communities in schools. Good teachers are what we need" (Nikki Sanchez-Hood, 15yrs, Canada)
(http://portal.unesco.org/education/en/ev.php-URL_ID=5217&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html)


O segundo tem a chancela do mestre Agostinho da Silva, que tive ainda a felicidade de conhecer pessoalmente e de o visitar em sua casa:
O Professor como Mestre
Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo. (Agostinho da Silva, in 'Considerações')

A terceira proposta de leitura vem do meu grande mestre e amigo João dos Santos:
[Renúncia ao educador perfeito]
A minha formação como homem e a minha carreira como profissional, devo-a tanto às interferências positivas dos meus educadores e mestres, como, sobretudo, aos erros educativos que eles cometeram para comigo. Aprendi por intuição e experiência na vida que as atitudes erradas são tão válidas em educação como as atitudes corretas. O educador em que me tornei renunciou há muito à crença mágica do educador perfeito, como o profissional que sou renunciou a esconder a ignorância com a erudição. Aprecio, portanto, os homens mais por aquilo que são (para o meu sentir) do que por aquilo que dizem.
Texto não revisto pelo autor(João dos Santos, in "Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta", Assírio € Alvim, p. 306)



domingo, setembro 18, 2011

Ano novo, vida nova. Outra vez, na escola.

"Ano novo, vida nova"
Se eu disser aos meus citadinos alunos que nos pomos a jeito de caminhos difíceis se quisermos sol na eira e chuva no nabal, estou em crer que muitos deles não entenderão imediatamente a expressão popular.
Mas a expressão sobre o ano novo e a vida nova certamente todos os alunos de todos os professores, citadinos ou não, entenderão. Por exemplo, se olharmos uma das mais recentes formas de comunicação inventada algures no mundo, o Facebook, na Internet, os murais dos utilizadores jovens estão, precisamente hoje e nos últimos dias, cheios de mensagens de entusiasmo pela chegada do novo ano escolar, do regresso à escola, do regresso às aulas, da confirmação da entrada no curso superior almejado, etc. Mesmo que se tenha imediatamente consciência de que nem tudo será fácil, pelo contrário: as dificuldades dos alunos, as dificuldades nas escolas não param de crescer!
Os alunos a quem já apresentei, na primeira aula do curso de Psicologia deste novo ano letivo, a Psicologia, tal como ela acontece na nossa vida do dia a dia, entenderão a razão porque escolhi o poema de Eugénio de Andrade sobre as amoras para corporizar uma pequena mensagem de saudação para eles, desejando-lhes um bom ano de trabalho escolar e que, no final, lá para junho de 2012, lhe traga os sucessos que eles agora sonham vir a ter.

As amoras
O meu país sabe a amoras bravas no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele,
mas quando um amigo me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade, O outro nome da Terra


Os meus alunos deste ano já sabem que as minhas amoras não são bravias, das silvas dos muros, as minhas, por uma bênção maravilhosa que me calhou, um dia, em sorte, são de uma amoreira que foi mágica e que, mesmo que já desaparecida, vai, muito em breve, poder renovar-se na oportunidade de trazer mais bênçãos e magia. Os protagonistas da história de há 30 anos assim se comprometeram e contam já com o companheirismo e a solidariedade de quem os conhece e lhes tem amizade.
O poema de Eugénio de Andrade denuncia sentimentos e ideias de descrença e de apoucamento, mas não deixa de alertar para que todos nós percebamos que, mesmo sem querer, as coisas que nos acontecem na vida têm o condão de poderem transformar-se no sentido do que dá alegria, dá prazer, e nos realiza a todos como pessoas.
É esse testemunho pessoal  que agora quero deixar aqui, quase em jeito de carta aberta, aos novos alunos da minha nova vida, que acaba de começar.
Queridos alunos, força no vosso entusiasmo! Força, agora que estamos a lançar a semente à terra! Que o tempo das colheitas, lá para quando o calor do próximo verão voltar, confirme a sabedoria que fomos capazes de manter durante o tempo do amadurecimento do que agora estamos a plantar. É preciso saber esperar, não é?... Também já falámos que o tempo de amadurecimento do fruto não é um tempo de descanso para o plantador, é precisamente na entrega pessoal ao tempo de amadurecimento do fruto que se joga a essência da sabedoria do plantador, quer dizer, do aluno.
Contem comigo ao vosso lado, sobretudo nos tempos em que os muros não forem brancos e o céu não vos mostre a cor azul. Vá, arrisquem a acreditar!...


quinta-feira, setembro 01, 2011

As insinuações vagas do discurso do senhor ministro da Educação

Assim que o ministro da Educação, o dr. Nuno Crato, tomou posse, aqui neste blogue dei pública conta da minha disponibilidade para alinhar com ele na (r)evolução do ensino.
Por isso, depois, já disse isto e aquilo. Não é verdade que da discussão nasce a luz?
E o que me apetece dizer agora?... Apetece-me dizer que depois que publicou o seu "Eduquês" (que li com muito interesse, até mesmo com algum entusiasmo), o senhor ministro da Educação parece que fixou fixado nalguns fantasmas mentais, que o perseguem em todo o lado. Não sei se ele tem pessoas concretas na cabeça, fantasmas, isso tem, seguramente, que parecem vir duma coisa vaga, que são as suas Ciências da Educação. O discurso público do senhor ministro começa a a encher-se de afirmações que, no meu entender, veem eivadas de alusões perigosas, enganadoras e - como gostariam de dizer muitos dos nossos políticos - sem substância.
É verdade, começo a pasmar que tenhamos chegado aos tempos a que chegámos para ouvir o ministro da Educação de Portugal a dizer que a escola não é para passar de ano, a escola é para aprender!... Como dá esta bota com esta perdigota? A escola não foi sempre para aprender? Aprender não se certifica com as passagens de ano? Vamos "oficializar" a desconfiança sobre a aprendizagem dos alunos, quanto mais passarem de ano, maior deverá ser a desconfiança?
O senhor ministro da Educação vai (31 de agosto de 2011) à universidade de verão do PSD e diz, no meio de risos irónicos, que  está bem, isso de desenvolver o espírito crítico é importante e, logo a seguir, praticamente põe isso como sinónimo de "passar de ano sem saber".
Depois diz que estudar é importante para ganhar mais dinheiro. Penso que já oiço isso desde que minimamente me conheço como pessoa, há 50 anos. As transformações sociais, culturais e civilizacionais, das últimas dezenas de anos, em todo o mundo, foram capazes de parir essa ideia?... Só isso?... Ou mesmo que não seja só isso, é isso o mais importante?... Numa época em que o mundo agonia como agonia precisamente por causa daqueles que querem ganhar dinheiro, muito dinheiro?
Dr. Nuno Crato, tem todo o direito de pensar o que quiser sobre quaisquer teorias que queiram largar postas de pescada sobre como deve ser a educação nas escolas. Como ministro da educação, para além desse direito, tem, como mais ninguém no País, a responsabilidade de tomar decisões sobre a maneira de fazer a educação das crianças e dos jovens desse mesmo País.
Em pequeno, quantas vezes na escola e fora da escola me falaram do velho "ler, escrever e contar" de Salazar. Era isso que bastaria na "sagrada oficina das almas" que formava "os bons meninos".
Deixo-lhe uma pergunta, senhor ministro Nuno Crato:
Na sua ideia (ideia de ministro, claro!), como pensa que se compatibilizam a necessidade de preparar os jovens para um mundo de trabalho em que a mudança é a constante; a tão apregoa capacidade de empreendedorismo; a menorização que o senhor faz do desenvolvimento do espírito crítico; e a bandeira que agita, cheio de alma, em que o senhor diz, muito vagamente, que a escola é para aprender; no fundo, aprender o quê?...