quarta-feira, agosto 22, 2012

Kilimanjaro - 22 de Agosto de 2007, quarta-feira (4.º dia)


22 de Agosto de 2007, quarta-feira (4.º dia)


Programa proposto:
Day 4: Arusha to Moshi Londrossi gate (About 1:30hrs)
Drive from Arusha to Londorossi Park Gate (2250m, 1.5 hours). From here a forest track requiring a 4WD vehicle leads to Lemosho Glades (2000m, 11Km. 45minutes) and a possible campsite. Walk along beautiful forest trails to Mti Mkubwa (big tree) campsite, (2750m, 3hours).

Dados da expedição para este dia:
·                  Ponto de partida: Londorossi Park Gate (2250m)
·                  Ponto de chegada: Mti Mkubwa Campsite (2750m)
·                  Progressão em altitude: 500m
·                  Distância percorrida: (a pé) 10km
·                  Tempo de caminhada previsto: (a pé) 3 horas (real: 03h23m)
Condições do dia:
·                  Nascer-do-sol:
·                  Temperatura:
·                  Condições de tempo: céu completamente limpo; sem vento

Chegou o dia da partida para o Kilimanjaro, o motivo príncipe que trouxe o grupo à Tanzânia. Após o pequeno-almoço, saímos do hotel por volta das 08h00. À nossa espera estavam a Rose (Operations Manager) e o Charles (Executive Director) da ML Tours and Safaris; e o Eliezer, que nos ia conduzir até aos Lemosho Glades. Também ali estavam um jeep e uma carrinha, para transporte do material e da equipa de carregadores.

Num praticamente improvisado briefing, a senhora Rose, provavelmente com o fito de nos tranquilizar, tendo em conta as condições climatéricas, disse-nos que “The weather is changing”, habitualmente o mês de agosto é um mês quente; os meses de maio, junho e julho são meses mais frios; os de setembro e de outubro, tal como o de agosto, são quentes; e os meses de janeiro e fevereiro são meses climatologicamente suaves.
De qualquer das maneiras, a senhora Rose diz que se notam diferenças no Kili nos últimos 10 anos. Esta afirmação, dita assim com esta simplicidade toda, obrigou o grupo a tomar outra vez consciência uma das principais razões da aventura-expedição à Tanzânia que agora verdadeiramente se iniciava: verificar pelos próprios olhos, para além do tanto que se diz, envolto em muita polémica, ditos e contaditos: a condição de “saúde ecológica” do colossal relevo montanhoso, mágico, do coração de África. O filme de Al Gore, “Uma verdade inconveniente”, tem cerca de 1 ano, os seus avisos são impressionantes! No documentário, Al Gora claramente indica a situação do Kilimanjaro como uma das situações que mais dramaticamente evidencia as consequências do aquecimento global. Na ideia que nos foi possível trazer naquela altura ao pensamento, verificamos que os 10 anos da senhora Rose coincidem genericamente com os 10 anos mais quentes da Terra, até hoje. 10 são, também, os anos de que ele fala para o desaparecimento completo das neves eternas do Kilimanjaro.

Logo naquela altura fomos apresentados a Arusha, que supostamente iria ser o nosso guia principal.

A genericamente designada equipa de carregadores (os porters) era constituída por um chefe de equipa, 2 guias auxiliares, 10 carregadores, um cozinheiro, um ajudante de cozinha e 3 assistentes. Ao todo, 17 pessoas que viriam a constituir a nossa equipa de apoio durante os dias de “ataque” ao topo do Kilimanjaro. O procedimento habitual prevê a existência de 2 carregadores por caminheiro. A regulamentação oficial (agradável surpresa para todos nós!) limita a 20kg o peso total de carga transportada por cada carregador. As caminhadas deverão ser abertas por um dos guias e fechadas por outro, com todos os caminheiros entre um e outro.

 A meio do caminho para o Londorossi Park Gate, a carrinha avariou, o que obrigou a uma autêntica revolução no transporte planeado. O grupo de caminheiros seguia no jeep, com as respectivas bagagens.
A avaria do outro veículo iria obrigar a uma segunda viagem do jeep. Para já, na primeira, ao grupo dos caminheiros se juntariam alguns dos carregadores, e as bagagens que iam no interior do veículo foram mudadas para o tejadilho. De repente, sem nos darmos conta, inesperadamente, uma das clássicas imagens das velhas expedições, que se enchem de imprevistos românticos chegava-nos à própria pele! Isto sim, isto é que dá pica!...

No interior do jeep, a compactação dos corpos trouxe também a intensificação dos cheiros e das sensações olfactivas, que passaram a testemunhar a presença, no exíguo habitáculo, de anteriores - mas bem recentes - trabalhos humanos esforçados de muitos dos passageiros... Quer dizer, o romantismo impregnava por dentro e por fora aquele veículo, prenhe de intenções e entusiasmos.

10h50. Chegámos a Londorossi Gate. O nosso altímetro[1] marcava 18º C.


A entrada no Parque obriga ao registo de todos os elementos do grupo, com assinatura pessoal dos livros de registo.
A partir de agora vai ser sempre assim, todos os dias, enquanto nos mantivermos dentro dos portões que delimitam as rotas de marcha até ao topo do Kilimanjaro, temos de assinar o livro de ponto, certificando-nos o ponto de passagem. E não se pense que uma ou outra vez um colega possa assinar por outro!... Se alguém, por qualquer razão, não estiver junto do grupo quando o funcionário do parque se aproximar, ele espera ou vai à procura de quem ali falta.


Entretanto, noutro lado, em paralelo a este procedimento, toda a bagagem é pesada, volume e volume, para verificar se, no final da pesagem, a proporção peso de carga/carregador é respeitada: 20 kg por carregador.
Estes cuidados, estes procedimentos, deixam-nos satisfeitos. Subir o Kilimanjaro não é uma balda, nem se tratam os carregadores, pessoas simples e pobres, como burros de carga!...

12h35. Saímos para Lemosho Glades, ainda de jeep, e com o apoio de transporte da camioneta de um outro grupo.
Contrariamente ao previsto, o guia-chefe previsto não iria acompanhar-nos. Disse-nos que tinha sido tomado por uma complicação de saúde súbita, mas, em nossa opinião, a sua grande preocupação era a saúde da carrinha avariada. E, tendo em conta a compreensível importância que o veículo teria para o senhor e o seu trabalho, concluímos que a avaria da carrinha seria a verdadeira razão desta primeira (e, felizmente, única) redução no número de elementos de apoio à ascensão do Kili.
O romantismo do dia ainda não tinha chegado ao fim. Foram mais 50 minutos de romantismo, por picada acima. Tinha chovido e o caminho estava enlameado, por isso, difícil. O jeep atolou mesmo. Todos teriam de ajudar, nem que fosse simplesmente saltando fora do jeep e percorrendo um pequeno trajecto a pé. O Man’el matou saudades do seu tempo de África, em Angola!... Logo ele saltou para o comando das operações de desatascanço. A intervenção dele, serena, mas carregada de empenho e de entusiasmo pelo velho desafio reencontrado, foi determinante para a resolução do problema. Ele chegou mesmo a considerar o trajecto espectacular!
E chegámos a Lemosho – um descampado a partir do qual não se podia avançar mais com o jeep. Almoçámos uma sandes, uma fruta e um bolo. Este nosso lanchezinho, perfeito para as nossas necessidades, não era nada comparado com a postura holliwoodesca de um casal de exploradores americanos que almoçavam nas suas cadeiras de realizadores, e mesa bem composta com uma toalha de xadrez. Pareciam tirados de um filme americano qualquer e assim postos no meio da paisagem africana.
São agora 14h37. A temperatura subiu para os 22º C.
E finalmente partimos. Ou melhor, finalmente começámos. A pé. Sempre assim, até mais não se poder subir, daqui a alguns dias, não restando, nessa altura, senão a necessidade de depois se voltar a descer.


Percorremos um trajecto que não levantava quaisquer dificuldades especiais, muito bonito, muito arborizado. Quase 3 horas e meia depois chegámos a Mti Mkubwa, local da primeira pernoita em “resort” e “paredes” finas – bem finas, mesmo -, ondulantes e nómadas.
À chegada esperava-nos uma tina com água quente e sabonete – que luxo!... –, antes de entrarmos numa tenda onde nos foi servido um lanche de chá, leite, café, cacau e bolachas. A partir deste dia, qual casquinha de caracol culinário, esta tenda seria o nosso delicioso refúgio e aconchego para momentos de pausa e descanso sempre saborosos, sempre desejados.

Depois fomos arrumar as bagagens nas tendas previamente montadas pela nossa equipa de apoio. Aproveitámos algum tempo que então tivemos para pequenas arrumações, verificação do equipamento pessoal, algumas antevisões; e pequenos apontamentos. Até que fomos contemplados com o nosso primeiro jantar de campo constituído por sopa, carne com batatas fritas, fruta e chai, palavra swahili para chá.

            (…)

E chegou a hora do contacto com o primeiro “poço da morte”!... E o que é isto que rapidamente baptizámos de modo tão contundente? É, nada mais, nada menos, a latrina, local ou dispositivo onde obrigatoriamente temos que deixar os nossos dejectos mais básicos, produtos naturais da dimensão excretora do nosso metabolismo digestivo. O local, aquele paralelepípedo escuro, mal-cheiroso (naturalmente, claro!... como se dizia há muitos anos entre a rapaziada que acampava, Aqui ninguém come sabonetes!...), nada convidativo a que se entre dentro dele, é verdadeiramente indescritível. Mas vamos descrevê-lo… Consiste numa estrutura de madeira fechada, sem janelas e cujo principal orifício se localiza aos nossos pés, entre dois pequenos suportes, que, pelo modo como estão pregados ao chão, sugerem a posição correcta dos nossos corpos abaixados, em equilíbrio instável, em que as mãos não chegam para as necessidades simultâneas de se encontrar algum apoio, de segurar as roupas para que não toquem em parte alguma do interior de madeiras humedecidas, não de água, certamente; e ainda mãos para segurar e fazer uso dos indispensáveis papéis ou toalhetes que assegurarão as limpezas pessoais mínimas. E pronto, descrevendo a direito, pretende-se que os comuns mortais ali exercitem a sua pontaria, à boa maneira dos antepassados (europeus e todos os demais), acocorados (como se faz ainda muito em muitos locais públicos do nosso país e também, por exemplo, em muitos quartéis; e como é tradição em muitas culturas muçulmanas), largando estrategicamente os ditos-cujos produtos de excreção digestiva, na vertical, em linha perpendicular com o exíguo buraco. Não conseguem imaginar a situação?...
A Isabel mostrou-se ansiosa, com vontade de desistir, tendo mesmo perguntado ao guia Augusto, como o poderia fazer e quais as alternativas para voltar para trás. O grupo tentou convencê-la a continuar e a enfrentar um dia de cada vez. Tomou um chá de camomila e fomos todos deitar-nos por volta das 21h45. A Isabel e a Cristina dormiram na mesma tenda, para que esta se sentisse mais acompanhada e menos nervosa. Amanhã irá decidir o que quer fazer.
Entretanto, o Luís puxou as pernas do Man’el, que estava sentado distraidamente na tenda, com um repentino sacão. Não deu conta da preciosa água que os vizinhava. A água entornou-se e ficou tudo molhado. Ora bolas!...


[1] Sim, altímetro! Não nos enganámos. Trata-se de um aparelho com multifunções (dá-nos a altitude, data, hora, temperatura e pressão atmosférica; e valores acumulados), que sempre designamos “altímetro”. 

terça-feira, agosto 21, 2012

Kilimanjaro - 21 de Agosto de 2007, terça-feira (3.º dia)


21 de Agosto de 2007, terça-feira (3.º dia)


Programa proposto:
Day 3: Ngorongoro Crater Tour (Ngorongoro–Arusha - 190km about 3:30hrs)
Depart with packed breakfast drive to Ngorongoro Crater for a half day Crater Tour.
Drive back to Kiboko Tented Camp for late lunch, after lunch drive back to Arusha for dinner and overnight at SINKA COURT HOTEL

Acordamos às 05h30, ainda era escuro e, claro!, o gerador eléctrico não funcionava. Tivemos de usar os frontais dentro da “tenda” para conseguir alguma orientação no escuro de breu. A Isabel, corajosa, conseguiu sozinha e no escuro chegar primeiro que todos ao pequeno-almoço. Só depois começou a alvorecer.
Às 07h35 partimos para a visita à Cratera do Ngorongoro. A manhã apresentava-se cinzenta, o céu ameaçava chuva, e à medida que íamos subindo para a boca da cratera o nevoeiro cerrava e não nos deixava ver a beleza da paisagem.
[Contar episódio do Luís, na recepção do Parque, em que perdeu a carteira]
[Contar episódio do miúdo americano que foi muito solícito para tirar uma fotografia ao grupo; mas que não deixou que o fotografássemos]
Logo depois, às 07h48, passámos o Ngorongoro Gate.
[Contar episódio em que o Fernando tentou mijar atrás de um arbusto e foi logo avisado pelo Eliezer]
O Eliezer explica-nos que “ngorongoro” é o nome do badalo das vacas dos Maasai. Quando começámos a descida para a cratera o tempo abriu e possibilitou-nos termos a noção da enormidade do espectáculo. No interior, a imensidão de uma planície gigantesca, a perder da vista, rica de animais, os mais variados, tal como ontem. Já se tem considerado que este local encerra a maior concentração de vida selvagem do mundo: inúmeras espécies de aves, predadores (como os leões, e as hienas), animais de grande porte (elefantes, rinocerontes, hipopótamos, búfalo africano), necrófagos (exemplo: abutres), manadas de herbívoros (gnus, zebras…), delicadas e ágeis gazelas, pitorescas famílias de javalis; e os impagáveis diversos grupos de macacos: ora dolentes, ora determinados, quase sempre divertidos.
Não é fácil, na circunstância destes safaris feitos à medida de pequenos grupos de turistas, observarem-se as imagens dos documentários especializados da National Geographic, que nos mostram a violência da predação e das relações bióticas entre as diferentes espécies animais. Eventualmente o acaso da sorte traz um desses momentos de espectáculo, mesmo que sem grande dramatismo. Mas às vezes com o dramatismo todo! Foi o caso, por exemplo, do que, algures, também em África, um pequeno grupo semelhante ao nosso pode testemunhar, que envolveu na luta pela água e pela sobrevivência, uma cria de búfalo, um grupo de leoas (que avançavam para a cria em caça organizada), um crocodilo (que irrompeu da água num ataque invisível e explosivo à mesma cria de búfalo); e ainda a manada de búfalos a que a cria pertencia, na hora em que os animais se aproximam dos charcos para matar a sede.
A cria, apanhada por uma das leoas, reagiu, esperneou, lutou pela vida; e a certa altura conseguiu mesmo escapar-se dos caninos da leoa que a prendia. Mas, ali à borda da água, cai logo presa nas mandíbulas ainda mais mortíferas do crocodilo. Continua a lutar, o pobre animal. Entretanto, os búfalos, que tinham começado por pôr-se em fuga ao primeiro ataque das leoas, eis que voltam! A leoa e o crocodilo disputam o infeliz, mas esforçado, pedaço de carne juvenil, à beira de esgotar as forças. Os búfalos voltam numa imagem impressionante. Estão todos cerrados uns contra os outros. Formam uma massa larga de patas poderosas e cornos ameaçadores. Resfolegam e reclamam o pequeno ser que lhes pertence. Quando seguramente já resistia com as derradeiras energias, a pequena cria – Oh, milagre! - consegue soltar-se das mandíbulas que procuravam impor a lei do mais forte. E eis que escapa!... no instante, no único pedacinho de tempo viável, suficiente para que naqueles corpos enormes colados uns contra os outros, que desenhavam uma impressionante força colectiva em movimento uníssono, não se sabe como, se abrir um buraco, por onde a cria, esgotada de tanto esforço merecedor de vitória – Sim, aquela cria ali ganhou o direito de viver!... –, entrou e se perdeu (ou melhor, se ganhou), no meio de tantos corpos iguais ao seu, solidários com ela, como todos gostaríamos de sentir muitas vezes da parte dos da nossa própria espécie.
Esta ocorrência está já há vários meses no site do nosso projecto, que tivemos a felicidade de conhecer por indicação oportuna da nossa amiga João Cordeiro, que segue, nos Estados Unidos, o projecto do Kilimanjaro desde a primeira hora.
            Almoçámos, por volta das 13h00, uma pequena refeição volante, que nos tinha sido fornecida no Lodge. Parámos o jeep junto a um pequeno lago repleto de hipopótamos. Foi o momento e o local em que nos confrontámos com a maior concentração de pessoas, turistas, na sua maior parte; e um grupo de estudantes e professores, certamente em visita de estudo. Ou seja, aquele local era como se fosse a estação de serviço em que o motorista de longo curso estaciona para a pausa de descanso, a meio da grande viagem.
Sem qualquer esforço, quase que por atracção natural, instintiva, o nosso grupo encontrou-se junto do grupo escolar; pouco depois, o Fernando falava já com os professores, completamente rodeado de alunos, que observavam tudo em grande silêncio, provavelmente sem perceber qualquer palavra trocada entre os seus professores e os professores que eles não sabiam que o eram também. A certa altura, trocavam-se moradas, e prometiam-se contactos futuros.
Não quisemos perder a oportunidade de contactar directamente com os alunos que, fardados, todos por igual, com a farda que o anfitrião, que na véspera cantou para nós, não pode comprar para os seus irmãos, por isso se vendo obrigado a tirá-los da escola[1], continuavam a olhar-nos em silêncio, não ousando qualquer gesto ou passo que pudesse ser alvo de censura de algum dos professores. Avançámos, então, nós para eles.
O Fernando levava, pendurado ao pescoço, o seu pequeno par de binóculos e apercebeu-se da curiosidade que os rapazes, que fixavam os olhos nesse pequeno equipamento pessoal. Tirou os binóculos do pescoço e estendeu-o para as mãos dos rapazes que estavam mais próximo. Eles esperaram ainda por um sinal dos professores que lhes permitisse aceitar o convite que o Fernando lhes estendia. Pouco depois, como nos habituámos a dizer na gíria da formação dos professores, “quebrou-se o gelo”. Os professores também queriam espreitar pelos binóculos. Disponibilizámos-lhes outros binóculos e, pouco depois, ouvia-se já a voz de muitos dos alunos; o Man’el e a Cristina assumiram a sua condição de professores e distribuíam, como podiam, indicações para o uso adequado dos binóculos. Estávamos encantados com o encanto das crianças por aquele bocadinho tão cheio com tão pouco!
O tempo não dava para mais. Tiraram-se fotografias, renovaram-se promessas de contactos futuros, desejaram-se felicidades no futuro e fizeram-se despedidas[2].

Depois de almoço, afinal, sempre fomos presenteados - fomos deliciosamente surpreendidos!... - com a tal cena “à la National Geografic”. Inclusivamente, tivemos a felicidade de a registar num pequeno documento vídeo[3]! Não houve, até agora, dia que esse espírito mágico do Kilimanjaro não nos presenteasse com alguma coisa que nos fizesse sentir ali como desejados e bem-vindos! Outro momento a trazer-nos a pitada que acentua o sabor da vida selvagem, na sua pureza e na sua espontaneidade.
Quando estávamos parados, fosse por que razão fosse, olhando, de pé, à volta, apareceu, no meio do capim, um pequeno felino, que deduzimos tratar-se de uma fêmea porque trazia pendurada na boca uma ainda mais pequena cria. As passadas eram firmes, mas o animal parecia deslocar-se em movimentos ziguezagueantes, como se não soubesse bem para onde quisesse ir.
Não identificámos o animal logo ao princípio. Só pouco de pois o Luís pôs o grupo a pensar no animal, identificando-o claramente: tratava-se de uma fêmea cerval. Hipotetizámos que a mãe procurava um lugar para pousar a cria em segurança. Pouco tempo depois de o animal atravessar o caminho mesmo à nossa frente, continuando, do outro lado, com o mesmo tipo de comportamento, vimos uma hiena aproximando-se de nós pelo mesmo caminho do cerval. Vinha devagar, de focinho empinado, farejando o ar. E acabou por atravessar o caminho bem perto do sítio onde, momentos antes, a mãe passou o filhote, à procura de esconderijo.

 Já tínhamos perdido o cerval de vista. Agora já só víamos a hiena. Finalmente, deixámos de a ver também. O jeep arrancou. Que terá acontecido depois, fora da nossa vista? Será que o filhote se salvou? Será que a mãe cerval conseguiu ludibriar a hiena faminta? Em nós ficará para sempre a dúvida. E sempre que gigantescas paisagens de Ngorongoro guardadas na memória voltarem ao nosso pensamento, virá também a imagem do pequeno filhote na boca da mãe, coruja a seu modo, como o instinto animal manda que toda a mãe de filhote seja. E, se calhar ainda com uma pontinha de ansiedade, a pergunta: será que a mãe conseguiu salvar o seu bébé?...
O relógio marcava 15h26 quando saímos do parque. Nesta altura, o dia estava lindo, cheio de sol.
          De regresso a Arusha, constatámos que dispúnhamos de tempo.
Primeiramente, tempo para procurar numa casa de comércio à beira da estrada, souvenirs Maasai, de origem de confiança, segundo as palavras do guia e motorista Eliezer. A seguir, tempo para outra paragem para “negociar” a compra de mais do verdadeiro artesanato Maasai,
Depois, quisemos tomar contacto mais de perto com as gentes locais, mesmo que isso não estivesse previsto na programação de actividades contratada com a agência. Insistimos com o Eliezer para parar numa das aldeias por onde passássemos. Diga-se, em abono da verdade, que não foi preciso insistir muito. Ele era uma pessoa delicada e dócil; e nós éramos um grupo cordato, de trato fácil e amigável. Ele só queria encontrar um local que fosse absolutamente seguro para os seus passageiros e para o próprio veículo. Pouco depois estávamos numa “esplanada” a beber uma cerveja.

A conversa fez-nos saborear o tempo. A certa altura, “coscuvilhávamos” o que à nossa volta as pessoas bebiam e comiam. Não deixámos de ser premiados no nosso esforço: acabámos por tomar contacto – o primeiro - com uma das especialidades gastronómicas locais em gastronomia – o ungali –, que um grupo de homens, certamente habitantes locais, comia numa mesa ao lado. Tratava-se de uma farinha branca que eles enrolavam com molho e pedaços de carne e comiam com visível prazer. Ficámos curiosos e desejosos de experimentar. Por isso, quando chegamos ao hotel – o mesmo do primeiro dia – resolvemos experimentar a especialidade já nessa mesma noite. Provámos ungali com carne de porco, de galinha, com bife, com peixe, etc. Foi uma novidade; agradável para uns, sensaborona ou decepcionante para outros.
De qualquer maneira, o dia ficou ainda marcado por duas outras ocorrências merecedoras de relato.
A primeira, aconteceu por volta das 17h40. Já em estrada asfaltada, num longo pedaço de recta que subia lentamente, uma, depois outra; e finalmente uma terceira girafa, atravessaram, no seu passo característico, a estrada, lá quase no topo da lomba. Em contra-luz, os corpos esguios em passada lenta e cadenciada, desenhavam figuras negras que se moviam contra o alaranjado cada vez mais forte que vinha dos lados do monte Meru, deixando-nos presos do fascínio daquele quadro belo e inesperado.
A segunda ocorrência fez-nos registar no caderninho de apontamentos: 18h15. E conta-se em duas palavras: lá ao longe, a caminho de Arusha, surgia aos nossos olhos, magnífico, na silhueta que desenhava quase no horizonte pinceladas enérgicas de branco brilhante, o Kilimanjaro. Parecia que aparecia para nos perguntar: Então, que tal?... Gostaram das coisitas que vos preparei?... Sei onde vão amanhã. Força!... Vou ficar muito contente em ter-vos bem perto. Boa sorte! Que tudo vos corra bem!...


[1] Ver desenvolvimento deste tema em Modos de vida,
[2] Ver desenvolvimento deste tema em
[3] Ver anexo n.º x, ………………………………………

segunda-feira, agosto 20, 2012

Kilimanjaro - 20 de Agosto de 2007, segunda-feira (2.º dia)


20 de Agosto de 2007, segunda-feira (2.º dia)


Programa proposto:
Day 2: Arusha – Manyara (120km about 2:30hrs)
After breakfast drive to Kiboko Tented Lodge for lunch, after lunch have a game drive in Lake Manyara National Park. Dinner and overnight at Kiboko Tented Lodge.
Nota: A bagagem para Zanzibar entrega-se à Rose. Recebe-se em Moshi

05h00. Somos acordados pelos apelos à oração feito pela voz metalizada esforçada que saía do altifalante da mesquita que, verificávamos agora, ficava ali mesmo do outro lado da rua.
06h00. Alvorada. Antes já praticamente todos nós apercebêramos de um pequeno tremor de terra; duas vezes o chão se sacudiu. Mais um brinde de boas-vindas à nossa chegada à Tanzânia. Pelo menos, um acontecimento com algum impacto. Como que para que consciencializássemos a natureza telúrica do espaço mágico que agora pisávamos. Na costa oposta da imensa massa continental africana, há séculos, o Adamastor aparecera à frente dos portugueses, a atemorizá-los, a pô-los à prova. Para que não falhassem no respeito que naquelas regiões era devido.
Não foi assim que interpretámos os sinais que o Kilimanjaro nos mandava. Pelo contrário, a montanha parecia contente de nos ter nela. E esforçava-se para que a conhecêssemos em todas as suas dimensões, esforçava-se para lhe sentíssemos as mais ínfimas pulsações. Chovia. Era uma chuva miudinha, muito cinzentona, como que para acentuar a ambiência telúrica.
07h10. Pequeno-almoço: sumo de maracujá, ovos mexidos, pão de forma, doce de goiaba, papaia, bananas (muito pequeninas) e melancia.
Saímos finalmente do hotel, em direcção ao escritório da ML Tours, onde recebemos as boas-vindas oficiais, a cargo da já cada vez mais nossa amiga Rose Shaidi, nosso principal contacto até ao momento. A Rosa conduziu um pequeno briefing de apresentação geral do programa de toda a estada. Após o briefing fizemos entrega de algumas lembranças ao pessoal da ML Tours, cuidando especialmente de dar destaque ao galhardete da JFSMO (Junta de Freguesia de St.ª Maria dos Olivais), a entidade que fez questão de apoiar a dimensão cultural e educativa da expedição ao Kilimanjaro. Deixámos ainda à guarda da empresa a bagagem de que não teríamos necessidade nos dois dias seguintes, nos safaris do Lago Manyara e da cratera de Ngorongoro.
Ainda em Arusha fomos trocar dinheiro (dólares por moeda local, os xelins tanzanianos) e o Fernando foi comprar um cartão local para fazer chamadas e tentar activar a Internet, o “Tigô”.
Fizemo-nos à estrada e o percurso, ao longo da estrada, não se coibiu de nos mostrar aquilo que queríamos ver: os primeiros vestígios das aldeias de cubatas africanas características da tribo Maasai.

Passámos pelo Kiboko Tented Lodge, onde iríamos pernoitar. Aí almoçámos e escolhemos os quartos para o grupo.
Cada uma das tendas tinha à entrada a figura de um animal selvagem que o identificava. Coube-nos o Leão, o Búfalo e o Leopardo. Os quartos eram simples, mas muito agradáveis e as camas eram totalmente rodeadas por redes mosquiteiras. Os geradores de luz eléctrica só funcionavam entre as 19h00 e as 23h00. A partir dessa hora, a selva cobria-nos com o seu manto negro e os animais nocturnos rodeavam-nos... Para nos proteger o descanso, claro!, não para que ficássemos temerosos.
Após o almoço fomos visitar o Parque Nacional do Lago Manyara. A pitada de sal, a aguçar o paladar, continuava. Uma operação de auto-stop, que ao princípio tivemos dificuldade em identificar enquanto tal, mas que a demora na troca de palavras e a acentuação dos semblantes do nosso motorista e de um dos polícia acabaram por nos fazer perceber que o que se estava a passar era sério e obrigou ainda à apresentação do Eliezer na esquadra local. Pequeno momento de tensão, a trazer-nos à ideia algumas imagens de televisão de procedimentos policiais sumários de alguns países de África. Aguardámos. Ao longe, de dentro do jeep, observámos o Eliezer a falar com o que parecia ser o polícia-chefe. Depois de uma breve troca de palavras, o nosso motorista-guia voltou. Estava tudo resolvido e poderíamos continuar o nosso caminho. Não fizemos mais perguntas.
A chuva manteve-se praticamente toda a manhã, tal como tinha acontecido durante a noite. Mas quando chegámos ao Lago Manyara, as condições atmosférias estavam nitidamente melhores.

Tema de jornada n.º x – O Lago Manyara, parque nacional da Tanzâzia
            Parece que Ernest Hemingway, que eternizou num conto as neves do Kilimanjaro (“… grande como um mundo, muito alto e incrivelmente branco à luz do Sol…”[1]) terá dito sobre o parque nacional de Manyara, O mais bonito que alguma vez vi em África”.
            O parque tem uma superfície de 330km2, 200 dos quais ficam cobertos pela água do lago na época do ano mais húmida. É considerado o local ideal para se tomar contacto com a tremenda diversidade de aves africanas. Num dia especialmente feliz, consegue-se observar pelo menos uma das quatro centenas de aves já identificadas nesta região magnífica.
            Geologicamente assume a importância de se constituir como a região que se estende na base do Vale do Grande Rifte, uma escarpa de 600m que se prolonga por dezenas de quilómetros.


            Praticamente logo ao início da viagem Parque adentro, o motorista-guia Eliezer chamou-nos a atenção para a árvore sagrada ali e noutras regiões africanas: o embondeiro, a árvore “de cabeça para baixo”, designação imposta pela imagem das copas nuas hiper-ramificadas. A tradição oral africana diz que um dia, depois da criação do mundo, foi dada uma árvore a cada animal para a plantasse. O embondeiro foi entregue à hiena, que, com a representação que a mesma tradição africana faz deste animal (que não abona muito a favor da sua inteligência), plantou a sua árvore assim mesmo, de cabeça para baixo.
O Eliezer não tinha - não podia ter - a noção da nossa costela histórica e cultural africana, donde quase geneticamente resulta um certo tipo de familiaridade nostálgica desta espécie arbórea. O embondeiro aparece frequentemente na prosa e na poesia da nossa literatura; nos relatos das experiências de vida trabalhosa, anos a fio, no Ultramar; nas histórias das guerras forçadas contra os movimentos de libertação das ex-colónias africanas; nas canções que os nossos trovadores trouxeram inspiradas na ambiência das savanas iguais à que era agora a nossa vez de percorrer, sentir e respirar. Mas não deixámos de olhar respeitosamente, e em silêncio, o embondeiro para que o guia apontava. Também não deixámos de guardar uma, e mais outra, e ainda outra fotografia, embondeiro a embondeiro.

São plantas que podem atingir troncos gigantescos, de 10m de diâmetro. Guardam água, e tudo nelas se aproveita. O tronco para a madeira, a casca para a produção de fibras e substâncias medicinais; as folhas, as flores e as sementes, para além dos frutos, são comestíveis.


O nosso safari confirma a grande diversidade de animais anunciada. O parque é realmente muito rico em vida selvagem, sejam os animais de grande porte (elefantes e hipopótamos, por exemplo), sejam as tais centenas de espécies de aves.
Há uma imagem que quase se impõe na memória de todos: é a das margens do lago marcadas por grandes manchas de flamingos e pelicanos, pontuadas aqui e ali pelos hipopótamos, em que todos parecem cooperativamente partilhar o potencial alimentar daquelas bordas lamacentas.

Nas estruturas edificadas na entrada do parque, criadas para receberem os visitantes, pudemos ler num dos cartazes:
As quatro famílias linguísticas mais antigas do mundo são todas africanas. Khoisan, Bantu, Nilo-Saharan e Cushitic. Todas estas famílias linguísticas estão representadas nas línguas que hoje em dia se ouvem na região do Lago Manyara. Muito perto dos locais onde os fósseis humanos mais antigos do mundo foram encontrados.
Mto wa Mbu ou “Rio do Mosquito” é a aldeia da diversidade cultural desta região para onde várias tribos convergiram e formaram uma mistura linguística composta pela maior parte das línguas tribais faladas na Tanzânia.

 Sim, pareceu-nos importante guardar registo de mais estes factos da dinâmica de intercâmbio cultural entre os povos. Eu sou eu e a minha circunstância, disse um dia José Ortega e Gasset. Por analogia, a afirmação também parece aplicar-se com propriedade a cada uma das realidades culturais específicas. No fundo, são os encontros circunstanciais de grupos de homens, em contextos geográficos determinados que promovem e consolidam a riqueza da diversidade intercultural. Quer dizer, durante séculos e séculos, foi predominantemente assim, independentemente até da forma mais pacífica ou violenta com que os povos se foram encontrando uns com os outros.
A alma do Kilimanjaro continuava connosco. Não poderíamos sair do parque sem que um frisson dos fizesse sentir na espinha, de alto abaixo, a natureza selvagem de África. Não, não estávamos a fazer a visita a um jardim zoológico, nem observávamos o espectáculo de uma realização cinematográfica a três dimensões. Não!... O elefante que se pusera ali à nossa frente, preenchendo completamente o caminho de terra batida, expectante, de grandes orelhas a abanar lentamente, de olhos fixados no nosso veículo e tromba balouçando à frente e atrás, sim!... era mesmo de carne e osso!... Ele não estaria ali em jeito de receber-nos de braços abertos… Foi um momento de ambiência bem selvagem… O Eliezer, muito mais conhecedor do que nós do que por ali acontecia, redobrou imediatamente de prudência e aprestou-se logo a fazer recuar o jeep... Da ideia passou à acção. O elefante avançou pelo espaço que lhe libertávamos à frente. Parecia manter o que nos também parecia ser uma atitude ameaçadora. Tivemos de recuar mais. Um pouco mais ainda. A distância entre nós e o elefante aumentava. Aproximávamo-nos já de uma curva mais acentuada. Demos algum tempo. A certa altura, o elefante parou e acabou por deixar o caminho, desaparecendo pachorrentamente pelo seu lado direito. O Eliezer resolveu avançar, com muita prudência. Lá estava ele, à nossa esquerda. O elefante arrancava folhas às árvores e alimentava-se. Parámos, mantendo o jeep pronto a arrancar a qualquer instante. Se o elefante nos permitisse, ainda lhe tiraríamos algumas fotografias.  Falávamos baixinho uns com os outros, fascinados ainda por aquela massa enorme do paquiderme, e deixando que o batimento cardíaco retornasse a pancadinhas de maior repouso.
A temperatura do dia andara estavelmente à roda dos 28º C. Mas, naquele instante, parecia que tínhamos sido tomados por um súbito salto ainda mais para cima no termómetro!...


17h45. Saída do parque nacional do Lago Manyara.
Levámos para lá a expectativa de ver e fotografar os leões trepadores. Mas acabámos por não os ver, risco a que está sujeito quem se entrega a observação “quase” naturalista da vida selvagem. O nosso guia comentou que o parque está agora muito empobrecido. Se assim era, interrogaram-se alguns de nós, como seria antes, quando o parque fervilharia em toda a sua pujança animal?... De facto, pudemos observar ainda muita coisa.
Regressámos ao Kiboko Lodge e relaxámos no banho. Ainda dispúnhamos de algum tempo, aproveitámo-lo dar um pequeno passeio antes de jantar, para abrir o apetite. Sabíamos já que na cozinha se confeccionava um prato especial expressamente preparado para nós. Era um prato típico com banana de sabor a batata, arroz e carne. Uns apreciaram mais que outros o guisado. Depois de jantar o responsável pelo Lodge relaxou também, o atendimento principal tinha sido feito e tinha corrido bem. Sentou-se ao pé de nós, fez-nos companhia, falou dele, da família, da escola, e do investimento pessoal que fez naquelas instalações turísticas. Cantaram-se canções e contaram-se histórias[2], tendo-se feito mesmo um pequeno registo digital de uma pequena canção sobre o Kilimanjaro.
No pequeno espaço exterior coberto, à entrada da sala do restaurante, um indivíduo novo tinha exposto no chão um conjunto razoavelmente variado de souvenirs, a que o grupo não foi indiferente. Olhámos, apetitosos, os artigos expostos, com a convicção, naquela ambiência de amizade que se estabelecera, que se poderiam adquirir os “verdadeiros” panos Maasai, que assim, à primeira vista, se parecem com qualquer coisa entre os panos de toalhas de mesa e os tecidos escoceses.. E – coisa não insignificante - adquiri-los a preço justo!


[1] Hemingway, E. As neves do Kilimanjaro. Lisboa, Editora Livros do Brasil, 2005, pág. 38.
[2] Ver Modos de vida e Temas de educação em Temas do Projecto Kilimanjaro e Educação.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Parabéns a António Nobre, à beira do mar

http://www.gutenberg.org/files/27535/27535-h/27535-h.htm
Hoje seria o dia de aniversário de António Nobre.
Fernando Pessoa, a fazer fé nas suas notas autobiográficas, leu o "Só" aos 18 anos de idade. Num dia leu metade e no dia a seguir acabou.
Num texto que é publicado pela primeira vez em 1915 (tem, portanto, 26 ou 27 anos de idade), Pessoa diz que "De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. (...) ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. (...) Quando ele nasceu, nascemos todos nós." (http://arquivopessoa.net/textos/3119)
Filho da brisa que soprava do mar, fascinado pela lonjura prateada do horizonte que o poente lhe trazia, António Nobre, várias vezes cantou o mar, prendeu-se por ele, pelas suas fainas, e pela sua história:


Quisera ser um grande marinheiro, 
Um novo astro entre os milhões de sóis! 
Ser de Albuquerque um filho aventureiro, 
Pertencer à família dos Heróis! 
«Quisera ser um grande marinheiro», Leça, 1887


Um dia, ainda em 1887, António Nobre escreve assim a um amigo:


«Tens o mar, que é o melhor conselheiro depois de nossos Pais.»
«Ouve uma coisa que te digo: nunca te decidas sobre uma questão qualquer 
sem primeiro teres meditado nela à beira daquelas negras águas. Verás como 
aquele eterno runrum das ondas que se transformam a pouco e pouco numa voz 
deliciosa e amiga capaz de deitar a um canto a voz da Patti (…).» 

Todos nó somos produto das nossas circunstâncias, como falava Gasset das influências à volta das quais crescemos e nos fazemos. Também eu tenho fascínio pelo mar, também eu tenho memórias ainda vivas do seu cheiro intenso, húmido, na respiração da minha infância.
O que, todavia, me pergunto agora é qual é o mar do transmontano, do beirão ou do alentejano do interior? O mesmo conselho profundo, telúrico, a seguir ao dos Pais, estes buscarão também. A que "mar" vão eles buscá-lo?...
Muito bem, António, vinha eu apenas dar-te um abraço de parabéns e pus-me a divagar por estas coisas. Sabes que tenho um carinho especial por ti, sabes que, para mim, o Manoel e a Coimbra da tua carta é o Manuel e a Coimbra do meu pai.
Vá, um abraço de parabéns, António! Seguramente muitas mais vezes te procurarei em muitos mais aniversários - os teus, os meus, os do Manuel; e os do Mar.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Anima Sana in Corpore Sano

Tirada em 2006, a fotografia prova
 onde foi Usain Bolt buscar inspiração...
A publicação de uma notícia sobre uma investigação conduzida pela Faculdade de Motricidade Humana, que conclui que os estudantes que praticam mais atividade física têm melhores resultados escolares nas disciplinas de Português, Matemática, Inglês e Ciências, deve fazer sorrir os filósofos da Velha Grécia, da mesma maneira que Higgs faz sorrir Aristóteles, num diálogo muito bem concebido por Marcelo Gleiser, e que pode ser lido aqui. Éter de Arsitóteles, bosão de Higgs.
A verdade conhecida, mas que só pode ser certificada pela ditadura do método experimental.
Muito bem, que a gente sorria, mas que a gente não deixe de tomar devidamente em conta a verdade e o valor desta asserção clássica sobre o corpo e a mente, de que a ASICS soube tirar partido.
Só falta lembrar, a propósito da parte final deste artigo, o ditado popular que diz "Cedo deitar, cedo erguer, dá saúde e faz crescer."


Educação

Alunos que fazem mais exercício físico têm melhores resultados escolares

09.08.2012 - 21:15 Por Bárbara Wong, Catarina Gomes
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Diariamente, é recomendado fazer uma hora de actividade física moderada e vigorosaDiariamente, é recomendado fazer uma hora de actividade física moderada e vigorosa (Foto: Paulo Pimenta)
 Os alunos que fazem exercício físico têm melhores resultados escolares, conclui uma investigação junto de três mil alunos realizada, ao longo de cinco anos, por uma equipa de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade Técnica de Lisboa (FMH/UTL).
Os jovens com aptidão cardio-respiratória saudável tiveram um maior somatório das classificações a Português, Matemática, Ciências e Inglês.

Luís Sardinha, director do Laboratório Exercício e Saúde, da FMH, afirma que existe "a tendência para sobrevalorizar a parte biológica" dos benefícios do exercício físico. E este estudo também os comprova, evidenciando, por exemplo, que "os alunos insuficientemente activos", ou seja, que não cumprem as recomendações de actividade física diária (pelo menos 60 minutos por dia de actividade física moderada e vigorosa), têm maior probabilidade de serem pré-obesos ou obesos, que os miúdos cuja aptidão cardio-respiratória é saudável, decorrente do exercício, têm mais massa óssea, e os que não a têm tendem a ter uma saúde vascular pior.

Mas, para o coordenador do estudo, o resultado mais inovador desta investigação - feita em parceria com o Ministério da Educação e Ciência (MEC) e a autarquia de Oeiras - é o demonstrar que o aumento da actividade física tem reflexos "na parte psicológica, uma dimensão que tem sido menos estudada", nota. "Face à dimensão da amostra", o investigador admite que os resultados possam ser extrapolados para a população escolar.

O chamado Programa Pessoa, co-financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), estudou durante cinco anos (começou em 2007) três mil alunos de 13 escolas do concelho de Oeiras, usando desde acelerómetros, instrumentos que os alunos usavam na cintura para medir os seus tempos sedentários e activos; ecografias para medir a espessura das camadas da artéria carótida; cronómetros para medir a performance cardio-respiratória dentro de um determinado circuito com cadência progressiva.

O que se concluiu é que os alunos do 3.º ciclo com aptidão cardio-respiratória saudável têm melhores classificações a Matemática e a Língua Portuguesa e que, no geral, os alunos com aptidão cardio-respiratória saudável têm um maior somatório das classificações a Português, Matemática, Ciências e Inglês. Ou seja, o exercício físico tem efeito positivo no aproveitamento escolar, uma conclusão que estava sobretudo estudada em idades mais novas, nota.

"Esta linha de investigação vem demonstrar a importância do jogo e actividade física informal e organizada para todas as crianças em contexto escolar", defende Carlos Neto, presidente da FMH/UTL.

Mais auto-estima

A explicação para este efeito foi já estudada noutras investigações: "o exercício promove a formação de novos neurónios e uma maior interacção entre neurónios, que, por sua vez, promovem maior sensibilidade e desenvolvimento cognitivo".

Mas não só. É sabido que a adolescência é uma idade turbulenta, tendencialmente acompanhada pela diminuição de indicadores ligados à qualidade de vida, refere o investigador. O que este estudo também permitiu concluir é que, aumentando a actividade física, cerca de uma média de duas horas por semana, melhoraram indicadores como "a auto-estima, afectos positivos, competência, autonomia, relacionamentos positivos e boas motivações". Pelo contrário, constata-se que os rapazes e as raparigas que fizeram menos exercício desceram nestes indicadores.

Além da produção de resultados estatísticos, o Programa Pessoa esteve no terreno para tentar mudar comportamentos em termos de exercício físico e nutrição, dando acções de formação a professores das várias disciplinas, e produzindo quatro manuais. Nos alunos que revelam maior apetência para a prática desportiva, "um dos objectivos do programa foi criar uma porta de entrada à maior participação desportiva".

Luís Sardinha afirma que "nos jovens há uma luta muito grande entre comportamentos sedentários, associados às tecnologias, e exercício físico" e, defende Sardinha, nesta faixa etária, "temos que mudar o discurso". "Nos jovens, a mensagem assente nos benefícios que o exercício traz à saúde não é eficaz", diz, "estão numa idade em que pensam que são super-homens e não têm capacidade para se colocarem na linha de vida aos 40 anos". O investigador sabe que apelar a estes jovens não tem o efeito desejado.O investigador sublinha que o que é importante é que os jovens "identifiquem o retorno que o exercício lhes traz com situações do dia-a-dia: têm de perceber que [se fizerem exercício] dormem melhor, interagem com mais confiança com o namorado ou a namorada, podem ter melhores notas, relacionam-se mais positivamente com os colegas e os pais".

Se o exercício físico se revela tão importante para os alunos, como é que Carlos Neto comenta a redução da carga horária da Educação Física e a nota da disciplina no final do secundário deixar de contar para todos os alunos? "Um corpo sedentário a par de um currículo escolar apenas centrado nas aprendizagens socialmente úteis (corpos sentados) será um caminho problemático no aumento do "analfabetismo e iliteracia motora" dos cidadãos", responde, acrescentando que "as posições assumidas pelo MEC [são] paradoxais e incompreensíveis".

O ideal seria que, ao terminarem o 12.º ano, estes alunos fossem "consumidores educados do exercício físico", isto porque "está identificado que este é o período de maior abandono da actividade física, por ser uma altura que os jovens adultos adoptam novas rotinas, quer arranjando emprego ou indo para a universidade. Este é um período crítico para o reconhecimento do valor do exercício físico", conclui Sardinha.

O Ministério da Educação e Ciência rejeita que exista uma redução efectiva das horas da disciplina, lembrando que cabe às escolas tomar essa decisão. Quanto ao secundário, a nota contará apenas para os estudantes que queiram. Portanto, "não existe assim qualquer desvalorização da disciplina", informa. 

Dormir nove horas

Os alunos que dormem menos de oito horas por noite têm maior risco de serem pré-obesos ou obesos, conclui o estudo, confirmando assim uma relação já identificada em estudos anteriores. O tempo ideal de sono nas idades estudadas (dos 13 aos 15 anos) é de mais de nove horas, diz o coordenador do Programa Pessoa, Luís Sardinha. 

"Os miúdos que dormem menos têm um Índice de Massa Corporal superior. Dormir oito ou mais horas por noite reflecte-se também num maior aproveitamento académico", aponta. Os alunos que dormiam um mínimo de oito horas por noite tiveram melhores classificações a Matemática e Língua Portuguesa, revelam os resultados. (http://www.publico.pt/Sociedade/alunos-que-fazem-mais-exercicio-fisico-tem-melhores-resultados-escolares-1558459?all=1)