OUTRA FRASE DE EINSTEIN, É SOBRE O OLHAR
quarta-feira, junho 02, 2021
OUTRA FRASE DE EINSTEIN, É SOBRE O OLHAR
A JUVENTUDE E A VELHICE, EINSTEIN E EU
A JUVENTUDE E A VELHICE, EINSTEIN E EU
Concordo com Einstein em muitas coisas que ele diz. Nesta, na verdade, penso de maneira diferente, direi mesmo, completamente ao contrário.
Diz Einstein, numa carta que escreveu para a rainha Isabel da Bélgica em 3 de Janeiro de 1954. Tem ele 73 anos:
"Na juventude cada pessoa e cada acontecimento nos parecem únicos. Com a idade, tornamo-nos muito mais conscientes de que acontecimentos semelhantes se vão repetindo. Mais tarde, fica-se menos vezes contente e surpreendido, mas também menos desapontado."
Pois eu penso, mais, eu sinto-me bem diferente dele: com a idade tenho-me tornado cada vez mais fascinado com as pessoas, que me parecem cada vez mais diferentes umas das outras, e, em geral, com histórias pessoais riquíssimas que eu ganharia muito em conhecer.
São histórias que só estão à espera de quem as saiba ouvir ou de quem saiba despertar nos protagonistas a vontade de as contar. Valorizamos tão pouco as pessoas!... São tesouros tão preciosos!
E tanto me encanta a mundividência de uma criança de 8 anos, como a de um velho de 80.
segunda-feira, março 15, 2021
GÉNERO NEUTRO E O REI SALOMÃO: REFLECTIR E INFORMAR PARA ENTENDER, n.º 1
GÉNERO NEUTRO E O REI SALOMÃO: REFLECTIR E INFORMAR PARA ENTENDER, n.º 1
sábado, março 13, 2021
MOVE-TE POR VALORES, NO DESPORTO E NA EDUCAÇÃO
MOVE-TE POR VALORES, NO DESPORTO E NA EDUCAÇÃO
Pensamento divergente, pensamento criativo. Pensamento cordial e grato que faz os professores sentirem-se bem e reconhecidos no seu devido valor. Neste futebol eu alinho!
sábado, fevereiro 27, 2021
POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 9/52 - O PÃO DA MESA E O PÃO DA CULTURA
POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 9/52 - O PÃO DA MESA E O PÃO DA CULTURA
«Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão», desabafa, há muito, a sabedoria popular.
Victor Ângelo, conselheiro em segurança internacional e ex-secretário-geral-adjunto da ONU, deu-nos ontem um artigo no Diário de Notícias que acaba assim:
«Ruídos recentes levaram-me a escrever este texto. Refiro-me à polémica sobre os brasões na Praça do Império frente ao Mosteiro dos Jerónimos, à ideia demolidora que trouxe o Padrão dos Descobrimentos para as redes sociais ou, ainda, ao passamento de um antigo militar que ganhou as suas medalhas no campo da guerra colonial. A paixão extrema das posições assumidas por muitos mostra, uma vez mais, que ainda não conseguimos falar com serenidade do Portugal que virou a página há quase 50 anos. Ora, sem esquecer o acontecido, os muitos problemas que temos pela frente pedem que passemos ao capítulo seguinte. Caso contrário, andaremos em conflito com nós próprios, absortos aos tiros nos pés, para o proveito e gáudio de quem nos quer manter distraídos.»
Quase ao estilo do “Mais Platão, menos Prozac”, Wilhelm Reich, esse autor maldito, recomendava aos líderes das vanguardas populares que especulassem menos acerca do “processo histórico” e dos “processos subjectivos” e se preocupassem em saber — e, consequentemente, em cuidá-los — quais os concretos anseios e necessidades das “massas”.
Pois, 100 anos depois, continuamos de colher de pau na mão a mexer, mexer, mexer e remexer, o mesmo caldo histórico-ideológico, cheios de especulações vanguardistas, “para vosso bem”, para bem de todos.
Tenho insistido por aí que, quais cogumelos, são cada vez mais os que conhecem a árvore, a árvore singular, e, em razão da genuína crença de que a conhecem com cristalina clareza, são tomados de poderosas e inebriantes elações afectivas, se autoconvencem de que conhecem a floresta inteira. Da crença assim tão entusiasticamente sentida resultam comportamentos que fazem lembrar outro provérbio, o que diz que «Cadela apressada pare os filhos cegos».
Os números estão aí bem escancarados à vista de todos, tanto a nível do nosso País como a nível mundial: a diferença entre os poucos muito ricos e os muitos muito pobres tem-se acentuado; e a pandemia tem acelerado o crescimento dessa diferença.
Especificamente a propósito da pandemia, veja-se a ultrajante diferença na distribuição das vacinas contra o vírus da covid-19: uma imensa vergonha civilizacional.
Para o cidadão comum, o pão nosso de cada dia continua a ditar a sua consciência de classe, o vigor do seu entusiasmo ou protesto cívico.
No que diz respeito às questões directas e indirectas do texto de Victor Ângelo, temos por exemplo o caso de Mamadou Ba (figura circunstancialmente incontornável na generalidade dos meios de comunicação social) que há tempos afirmou, numa entrevista televisiva e radiofónica, que foi quando a bolsa de estudo, que lhe ia permitindo viver e estudar em Portugal acabou e que teve de ir trabalhar, que teve consciência dos problemas; digo eu, dos problemas dos que não têm bolsas, não têm trabalho, ou têm-no mas são muito mal pagos.
As crises são oportunidades, dizem os moderníssimos mentores sociais e empresariais — até são oportunidades para convencer “as massas populares” que têm de suportar as dificuldades laborais, os baixos salários e, não obstante, vencerem psicologicamente os seus sentimentos de frustração e de revolta, numa espécie de «Sou feliz. Sinto-me realizado, venci a minha revolta. Sou escravo, sou um escravo moderno, sou um escravo feliz, sou um escravo realizado.»
Os temas explícitos ou implícitos no texto de Victor Ângelo remetem-nos (é um verbo que os pensadores dos processos históricos gostam muito de usas, o verbo remeter) para os Descobrimentos, o Ultramar, a Colonização, a Descolonização, o Império, a Glória e a Tragédia Camoniana, o Destino Vieirino e Pessoano; o Racismo e o Antirracismo.
Tudo é o que é e é também o seu contrário, digo eu constantemente aos meus alunos de Psicologia.
O Racismo e o Antirracismo são o que são e são também o seu contrário. A História dos Povos está cheia de exemplos de racismos e lutas antirracistas, não apenas por causa da cor da pele, e também entre peles de igual cor.
Vivemos tempos em que o Antirracismo é, mais uma vez, luta legítima; mas é também oportunidade de promoção pessoal, social e económica, bem alinhada com os tradicionais mecanismos de destaque e promoção que a Comunicação Social e as Redes Sociais hoje em dia aceleram especialmente. Continuamos a ter necessidade de, seja no campo do Antirracismo, seja noutros campos, levar em boa atenção o bíblico aviso de sabermos separar o trigo do joio.
Bem, se continuo a escrever, acabo por me tornar no contrário do que quis ser, acabo por me tornar o tal autoproclamado líder vanguardista visionário que entende o processo histórico da coisa e, "para vosso bem", decide o destino das massas populares.
«Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão».
Senhores líderes das massas populares, tratem mas é de pôr o pão na mesa dos operários e camponeses que hão-de um dia arrebatar o poder à burguesia, como cantava a 'velha' canção festivaleira que veio com o 25 de Abril… Olhem, como um dia nos deixou o poeta António Aleixo, que nunca andou pelos televiseiros festivais: «Vós que lá do vosso império / prometeis um mundo novo, / calai-vos, que pode o povo / qu'rer um mundo novo a sério.»
E, senhores poderosos, não se esqueçam de abrir as livrarias!, a Natália Correia bem reclamou num intenso desabafo pessoal: «Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever / ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer.»
Livro também são pão — há por aí muita gente de dietas muitos esquisitas e muito pobres do pão e da cultura dos livros; mas pensando que sabem tudo.
Caro Victor Ângelo, gostei muito de ler o seu texto! Gostava agora de que considerasse este meu como consonante e não em oposição ao seu.
sábado, fevereiro 20, 2021
POLÍTICA E EDUCAÇÃO 8/52 - PIOR QUE A IGNORÂNCIA É A PRESUNÇÃO DO CONHECIMENTO
Com frequência idêntica, tenho participado neste mês de Fevereiro, em dois conjuntos de reuniões regulares, à distância, através da Internet.
No primeiro, que junta educadoras de infância e professores do ensino básico ao secundário, abordamos as temáticas do Género, da Igualdade e da Cidadania. As reuniões acontecem no âmbito das acções de formação profissional a que as educadoras e os professores estão obrigados a fazerem regularmente. O universo de participantes é o formado pelos profissionais da educação e do ensino sob a tutela do
Ministério da Educação.
No segundo, que junta profissionais “psi” e afins, distribuídos por todo o mundo, conversa-se à volta dos temas da Saúde Mental e da Educação para a Saúde. São encontros de participação livre, com gentes de todo o Mundo. Já consegui identificar colegas de Espanha, França, Itália, Dinamarca, Polónia, Suíça, Argélia, Cabo Verde, Brasil, Martinica, México; e, naturalmente, Portugal.
Neste segundo grupo abundam os cabelos brancos e as cabeças já sem cabelos. São pessoas com muita experiência profissional, em instituições públicas, em acções de rua, em consulta privada. Percebe-se que são pessoas com muita experiência, que lêem muito, que estudam muito; e que estão naturalmente motivados para observarem as realidades concretas, distintas das suas próprias realidades — estão naturalmente motivados para conhecerem mais e melhor, e para aprenderem; até para escaparem ao sempre iminente risco de se conformarem ao que já sabem e mais cedo ou mais tarde faz as pessoas tomarem a nuvem por Juno. Nestas reuniões, a dinâmica é mesmo a da conversa, a da partilha, a da reflexão entre todos. Escuta-se e fala-se. Há uma sede serena de procura da informação.
No primeiro grupo, entretanto, a sensação por que sou tomado é outra. Dispondo o grupo de um recurso digital de comunicação à distância poderoso (de provas dadas ao longo de muitos anos de experiência e aperfeiçoamentos sucessivos), em que se torna possível a dinâmica síncrona e assíncrona da comunicação entre formadora e formandos; e a constituição de bancos partilhados de dados, informações e documentos, a comunicação está reduzida ao mínimo possível, exclusivamente síncrona, com comunicação quase exclusivamente unidireccional, a fazer lembrar intenções de endoutrinamento.
É precisamente este grupo que me impõe à consciência a imagem da ignorância e da presunção sábia. A presunção de que conhecendo uma árvore, a árvore singular, se conhece a floresta toda. É o primado do pensamento sincrético, insuficientemente informado, por isso, produtor de comportamentos desajustados, ambíguos, errados. Ora, na esfera da Educação, do ensino pré-escolar ao ensino universitário, em que as crianças, os alunos, os estudantes vão progredindo, crédulos e cheios de boa-fé na capacitação e na competência de quem os educa ou ensina, isto é perigoso… muito perigoso!
Num notável artigo publicado n’ “O Referencial” (edição de Out-Dez 2020, n.º 139) o Procurador-geral Adjunto Jubilado Pena dos Reis escreve que “o que ameaça o êxito do pensamento científico na sociedade é a extraordinária persistência e generalização do pensamento mágico”, identificando neste 3 níveis. O segundo nível, diz ele, “é aquele que cria modelos susceptíveis de poderem ser confirmados ou infirmados pela observação, mas que desvaloriza o papel desta (da observação) no processo de consolidação do que se pode afirmar como verdade."
Por seu lado, o Professor José Mattoso, na entrevista que o semanário Expresso publicou ontem, quando lhe perguntam «Há uma boa e uma má maneira de fazer a História?» ele responde: «Sem dúvida. Uma maneira má é esquecer a relação entre os factos e as suas causas ou consequências. Os factos não acontecem por acaso. Temos sempre de os medir, situar, contextualizar, atribuir a um sujeito. Só assim podemos fazer deles uma narrativa. Só assim podemos fazer boa História. Além disso, temos de respeitar os factos sem pretender julgá-los. Também não podemos pôr os factos (ou seja, a sua narrativa) ao serviço de uma causa, por melhor que ela seja.»
Podemos praticamente transpor na íntegra estas palavras da História para a Educação e o Ensino.
Sim, o pensamento sincrético, mal informado, que confunde a nuvem com Juno e faz da singular árvore a floresta inteira, é um perigo real que espreita hoje em dia, a todo o momento, a Educação e o Ensino.
Na mesma entrevista ao Expresso, perguntam ao Professor José Mattoso: «A Idade Média é a Idade das Trevas?» Ele responde: «O conceito de Idade das Trevas aplicado à Idade Média resulta de um equívoco ou de ignorância pura e simples. É verdade que a cultura medieval muitas vezes confundia magia e superstição com religião autêntica, e que via milagres e intervenções divinas um pouco por toda a parte. Mas não podemos generalizar a toda a sociedade o que consideramos crendice. Também não podemos esquecer o incalculável valor da arte medieval expressa nas grandes catedrais, nem a genialidade do pensamento teológico demonstrada por um autor como São Tomás de Aquino. Não são produtos das trevas. A expressão Idade das Trevas apareceu primeiro no Renascimento, quando a cultura europeia redescobriu a estética greco-romana e, depois, no século XVIII, quando os intelectuais franceses atribuíram à filosofia iluminista o papel de fonte de toda a política civilizada. O pressuposto depreciativo da expressão só revela a ignorância de quem a usa.»
A mim próprio faço a pergunta: «A Idade dos Dias de Hoje é a Idade das Trevas?», e não me sinto nada bem com a resposta que me vem à cabeça.
sábado, janeiro 23, 2021
POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 3/52 - QUANTO VALEM AS OPINIÕES?

POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 3/52
QUANTO VALEM AS OPINIÕES?
1. O direito de opinião é consagrado na generalidade dos textos constitucionais dos países democráticos; e também das organizações políticas supra-nacionais. As limitações a este direito são habitualmente sinal de limitação das liberdades pessoais, regra geral, impostas à força por lideranças contrárias ao espírito e às práticas democráticas.2. As redes sociais na Internet vieram permitir que, para além das opiniões proferidas pelos governantes, os jornalistas e todos aqueles que em geral têm acesso aos órgãos de comunicação social, as opiniões de muitos cidadãos passassem a aparecer no espaço público, genérico e anónimo, para além de serem emitidas no círculo restrito da família, dos amigos, da empresa; e da escola.
3. Para além das questões que se costumam colocar acerca da ética, ou da responsabilidade, ou da honestidade, na expressão duma opinião, será interessante olhá-la do ponto de vista do fenómeno psicológico que é, nas suas dimensões cognitiva, comunicacional e inter-pessoal.
4. Passaram mais de 40 anos da aula de Psicologia Social Clínica em que, nas instalações provisórias da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Lisboa, na Rua Pinheiro Chagas, o Professor Pina Prata nos deu uma aula de que nunca mais me esqueci. O assunto central da aula foi o Processo Decisional.
5. Numa teorização que lhe era muito própria, ele apresentava-nos a Opinião como a segunda fase de um processo pessoal, consciente, no final do qual o sujeito (cada um de nós) toma uma Decisão, escolhe uma opção, profere uma sentença.
6. O Processo Decisional tem, esquematicamente 3 fases, sendo a Opinião (dimensão afectiva) a 2.ª fase e a Decisão (dimensão operativa) a 3.ª. Qual é a primeira? A 1.ª é a Informação (dimensão cognitiva).
7. É da nossa natureza humana formarmos opiniões, opiniões acerca de tudo com que contactamos. As opiniões podem ser sustentadas pelas crenças e pelas certezas; as opiniões podem ser bem informadas, intensamente intuídas, altamente ou levemente especulativas.
8. Na notável obra “O Livro da Consciência”, António Damásio, profundamente ciente da necessidade de distinguir o que se sabe com segurança do que se sabe mal e do que não se sabe praticamente nada, ao longo dos capítulos usa formulações que espelham os graus de certeza e de incerteza de que falo. Identifiquei-lhe uma vintena (falhei seguramente outras): “Tenho a certeza…”, “Sugiro…”, “Proponho…”, “Imagino…”, “Em minha opinião…”, “Com toda a probabilidade…”, “Acredito…”, “Suspeito…”, “À maneira de hipótese de trabalho…”, “Postulo…”, “Irei especular…”, “Julgo que…”, “Provavelmente…”, “Presumo…”, “É possível que…”, “Especular sobre…”, “Não se sabe ao certo…”, “Segundo me parece…”.
9. No mesmo livro, num pequeno capítulo com o nome “A sensação de vontade consciente”, António Damásio escreve assim: «Com que frequência somos guiados por um inconsciente cognitivo bem ensaiado, treinado sob a supervisão da reflexão consciente para cumprir os ideais, anseios e planos concebidos conscientemente? Com que frequência somos guiados por predisposições, apetites e desejos biologicamente antigos, enraizados bem fundo e inconscientes? Imagino que a maioria de nós, pecadores fracos mas bem-intencionados, se regule por ambos os registos, ora mais por um, ora mais por outro, dependendo da situação e da hora do dia. Seja qual for o registo em que funcionemos, mais virtuoso ou menos virtuoso, a actuação no «momento» é inevitavelmente acompanhada pela impressão, umas vezes falsa, outras vezes não, de que actuamos aí e naquele momento, com pleno controlo consciente».
10. Ora bem, as predisposições, os apetites e os desejos de que fala António Damásio, em hora de muitas verdades, não são informações. Por exemplo, quando temos de tomar decisões sobre os perigos de uma pandemia. Estamos predispostos a reagir aos ataques dos vírus, apetece-nos fazer coisas de que gostamos, desejamos estar livres dos perigos. Só que nada disto nos informa acerca dos perigos dum vírus causador de uma pandemia, e nada disto nos protege da virulência do vírus.
11. A cada indivíduo, numa pandemia, cabe informar-se, formar uma opinião e tomar uma decisão; a cada governo cabe exactamente o mesmo, só que a um nível de regulação do comportamento dos grupos humanos, das sociedades.
12. Perguntas diferentes confrontam-nos com quantidades diferentes de informação. Três exemplos: “Como é a vida depois da morte?”, "Como é que se fazem pastéis de Belém?" e “Qual é o grau de perigosidade do vírus da covid-19?” Não obstante as diferenças, não será que devemos sempre procurar toda a informação possível, reduzir o grau de incerteza e estar menos dependentes das nossas crenças e das nossas intuições – que, em geral, estão mais vezes erradas do que certas? No caso concreto do pastel de Belém, o que temos é precisamente a centenária sonegação absoluta da informação: a receita culinária. Nos outros 2 casos, a Vida está aí inteiramente aberta a que nós obtenhamos toda a informação.
13. As decisões que tomamos, com base nas informações que temos e nas crenças a que nos agarramos, nas situações importantes da vida, são marcadas pelo desejo de prudência ou pelo apetite (ou motivação) do risco. Quando é cada um a decidir acerca da sua própria vida, e na medida em que a decisão não afecte negativamente a vida de outros, é uma coisa; quando temos de tomar decisões que tenham consequência directa na vida dos outros é outra coisa — mas o dilema é o mesmo em ambas as situações: optamos pela prudência ou pelo risco?
14. Na minha opinião, cabe à Educação a essencial tarefa social de ajudar os mais novos a irem experimentando em si mesmos o vai-vém entre a prudência e o risco, e o alerta para a necessidade de sustentarem as suas opiniões com a melhor informação possível. Até para que um dia não venham a fazer parte de governos que não saibam precisamente isso: calcular adequadamente o balanço entre a prudência e o risco nas decisões que se reflectem na vida dos cidadãos que governam.
15. Há uma máxima (de tanto partilhada, tornou-se anónima — cá está: perdeu-se a informação de quem foi o seu autor —, ou foi apropriada por este ou aquele outro autor) que diz assim: “O barco está mais seguro no porto. Mas não foi para isso que os barcos foram construídos”. Esta máxima, de tão óbvia que é, torna-nos tentadores do risco. Só que também nos tornámos sábios a prever os mares encapelados e as tempestades, e a medir as nossas forças ao lado das forças dos mares e das tempestades — nestes casos manda a sabedoria e a prudência que nos recolhamos a um porto seguro.
domingo, janeiro 10, 2021
Qual é coisa, qual é ela, que nasce com a Pessoa, a Educação consolida, a Escola abala, a Economia esquece e a Política esmaga?
POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 2/52
3) Para começar esse cuidado de matização, a definição, circunstancial, de Tolerância: numa conversa com o filósofo Paul Ricoeur, Jean-Pierre Changeux, biólogo e professor de Neurobiologia, enumera-a ao lado da Boa Vontade e da Paciência, depois de a referir a propósito de tentar Compreender — no caso concreto da sua fala, a propósito das religiões.
domingo, maio 31, 2020
PARTILHAR É CONDIÇÃO NATURAL DO SER HUMANO
2) No inquérito, muito simples, é pedido aos estudantes que indiquem as características que associam ao bem, e as características que associam ao mal.
3) Acabei por também fazer o inquérito a alunos do ensino secundário, recolhendo 30 respostas válidas do básico e 32 do secundário.
4) No geral, as respostas dos meus alunos alinham genericamente com as respostas que conheço do inquérito original, com ligeiríssimas variações. A primeira característica má é mesmo completamente sobreponível nos 3 casos: egoísmo.
5) No meu inquérito, acrescentei duas perguntas: que os alunos indicassem exemplos de pessoas boas e más que encontrassem na comunicação social. Só uma escolha passou os 50% dos 62 alunos; e foi nas pessoas más: foi Donald Trump.
6) Coerente, na prática, com a sua bem explicitada concepção de governação de um dos países mais poderosos do Mundo, Donald Trump tem retirado os E.U.A. de todos os acordos de cooperação ou regulação internacional que pode, o Presidente norte-americano não pára. Precisamente nesta altura, chega-me a casa este 'cartoon' tão elucidativo.
7) As circunstâncias em que o Mundo vive no tempo presente, amplificadas pelo massivo, acelerado e muito agressivo comportamento da Comunicação Social, em geral, com fluxos e refluxos de informação e desinformação, são de molde a alimentar a dúvida, a insegurança e a incerteza dos cidadãos: vamos continuar com a nossa casa (leia-se: o nosso país) de portas abertas, deixando entrar e podendo sair; ou vamos, ao invés, fechar-nos em casa e aconselhar a que os outros façam o mesmo?
8) Penso que a questão não deve ser colocada na dicotomia "pessoas boas 'versus' pessoas más"; mas antes entre as características boas e as características más das pessoas. Um exemplo actual, flagrante, é a trágica e brutal morte da Beatriz às mãos do Rúben. Até à tremendamente infeliz situação, o rapaz era praticamente um modelo de jovem cidadão, ele encaixava perfeitamente na lista das características das pessoas boas, os seus comportamentos pessoais e sociais testemunhavam-nas todas. Até que...
9) Sou muito céptico na filosófica questão da luta entre o bem e mal. Veja-se o caso de Hitler, como ele dá testemunho da tão intrínseca fragilidade do seu humano: super-simplificando as coisas, podemos dizer que ele "tentou" ser bom, quando se candidatou à Escola de Belas-Artes de Viena. Não o tendo conseguido, o mal escancarou-se dentro dele, e toda a sua ascensão social e política mostra como um simples vírus, de uma única pessoa, pode disseminar-se, acordar parceiros adormecidos ou em estado latente noutras pessoas e dominar completamente um poderoso país, e quase o Mundo todo.
10) Estarão os grupos humanos condenados à vitória do mal sobre o bem? Não, creio convictamente que não estão. Com a mesma convicção, afirmo que resignarmo-nos a essa sorte, deitar a toalha ao chão, é negarmos a nossa própria natureza. E é essa consciência e essa pedagogia junto, não apenas dos mais novos, mas de todos os cidadãos do Mundo, que é a razão de ser deste apontamento.
11) Não vou invocar Konrad Lorenz, já o fiz bastas vezes. Vou onvocar António Damásio e David Sloam Wilson. Damásio leu Wilson, não sei de Wilson leu Damásio. No que aqui trago, Damásio fala de altruísmo e Wilson fala de partilha.
12) Diz António Damásio:
«A cooperação desenvolveu-se como irmã gémea da competição, o que ajudou a seleccionar os organismos que exibam as estratégias mais produtivas. Consequentemente, quando hoje nos comportamos de forma cooperativa, com uma certa dose de sacrifício pessoal, e quando designamos de altruísta esse comportamento, isso não quer dizer que os seres humanos tenham usado o seu bom coração para inventar a estratégia cooperativa. [...] A questão do altruísmo é um excelente ponto de partida para a distinção entre as primeiras "culturas" e a sua variedade madura. O altruísmo tem a sua origem na cooperação cega, mas pode ser analisado e ensinado no sei das famílias e nas escolas como estratégia humana deliberada. [...] Nada garante que resulte sempre, mas existe como recurso humano consciente, presente através da educação.» (1)13) E diz ainda o seguinte:
«A homeostasia básica tende a cumprir o seu dever relativamente a cada organismo cultural separável e nada mais. Deixados por sua conta, sem o efeito equilibrante de esforços civilizacionais determinados, visando algum grua de integração, e sem o benefício de circunstâncias favoráveis, os organismos culturais não tendem a coalescer.» [aglutinar, ligar, unir] (2)
13) Por seu lado, David Sloam Wilson afirma:
«Esta e outras experiências revelam que a mentalidade humana se baseia fundamentalmente na partilha. [Não serão o altruísmo e a partilha o oposto do egoísmo?] Se não partilhámos intenção e atenção, nem sequer podemos fazer uma coisa tão simples como apontar para um objecto de interesse mútuo e muito menos partilhar os nossos comportamentos e representações simbólicas. Felizmente, a partilha faz parte do nosso meio social externo há tempo suficiente para se ter incorporado geneticamente nas nossas mentes, tão profunda e subconscientemente que não a reconhecemos como partilha até a estudarmos por métodos científicos.» (3)14) As constatações científicas de Wilson devem ser muito do agrado dos defensores da completa separação ente o Homem e os outros animais: é que os nossos parentes evolutivos mais próximos não apresentam esta capacidade de partilhar; mas o bebé humano, espontaneamente, apresenta!
15) O que será uma contrariedade para os criacionistas é terem de admitir, simultaneamente, que a competição, essa sim, é parte intrínseca do património comportamental tanto de símios como do Homem. Em conclusão, o que nos eleva é o altruísmo, é a partilha.
16) Penso que acabamos por nos confrontar com as duas grandes tarefas dos grupos humanos: a transmissão cultural (a Educação), e a regulação da vida cívica (a Política).
17) E voltamos à ideia dos jovens sobre as pessoas más, voltamos a Donald Trump. O que tenho achado especialmente interessante e promissor é ver que, apesar da quase violenta assertividade dos presidentes Trump e Bolsonaro (a 2.ª escolha, também destacada dos meus alunos), os sistemas de distribuição democrática de poder, regulando, aplacando a intensidade do egoísmo, e do despotismo, funcionam: ao nível dos governos regionais, de estados, ou distritos, os todo-poderosos presidentes têm de aceitar e resignar-se ao limite do seu próprio poder presidencial. Logo, a Política é mesmo importante! A regulação formal da vida cívica, não pondo, como simbolicamente se diz, todos os ovos no mesmo cesto, é amiga da, está em sintonia com ela, condição básica, genética, do ser humano: a partilha, o altruísmo.
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(1) António Damásio, "A Estranha Ordem das Coisas", 2017, Lisboa, Círculo de Leitores - Temas e Debates, p. 322.
(2) António Damásio, "A Estranha Ordem das Coisas", 2017, Lisboa, Círculo de Leitores - Temas e Debates, p. 299
(3) David Sloan Wilson, "A Evolução para Todos", Lisboa, Gradiva, 2007, p. 244.








