MOVE-TE POR VALORES, NO DESPORTO E NA EDUCAÇÃO
Pensamento divergente, pensamento criativo. Pensamento cordial e grato que faz os professores sentirem-se bem e reconhecidos no seu devido valor. Neste futebol eu alinho!
De vez em quando, há coisas que parecem ter-se tornado muito claras para nós na nossa cabeça. E parece-nos também que terão algum interesse para as outras pessoas.
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POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 9/52 - O PÃO DA MESA E O PÃO DA CULTURA
Victor Ângelo, conselheiro em segurança internacional e ex-secretário-geral-adjunto da ONU, deu-nos ontem um artigo no Diário de Notícias que acaba assim:
«Ruídos recentes levaram-me a escrever este texto. Refiro-me à polémica sobre os brasões na Praça do Império frente ao Mosteiro dos Jerónimos, à ideia demolidora que trouxe o Padrão dos Descobrimentos para as redes sociais ou, ainda, ao passamento de um antigo militar que ganhou as suas medalhas no campo da guerra colonial. A paixão extrema das posições assumidas por muitos mostra, uma vez mais, que ainda não conseguimos falar com serenidade do Portugal que virou a página há quase 50 anos. Ora, sem esquecer o acontecido, os muitos problemas que temos pela frente pedem que passemos ao capítulo seguinte. Caso contrário, andaremos em conflito com nós próprios, absortos aos tiros nos pés, para o proveito e gáudio de quem nos quer manter distraídos.»
Quase ao estilo do “Mais Platão, menos Prozac”, Wilhelm Reich, esse autor maldito, recomendava aos líderes das vanguardas populares que especulassem menos acerca do “processo histórico” e dos “processos subjectivos” e se preocupassem em saber — e, consequentemente, em cuidá-los — quais os concretos anseios e necessidades das “massas”.
Pois, 100 anos depois, continuamos de colher de pau na mão a mexer, mexer, mexer e remexer, o mesmo caldo histórico-ideológico, cheios de especulações vanguardistas, “para vosso bem”, para bem de todos.
Tenho insistido por aí que, quais cogumelos, são cada vez mais os que conhecem a árvore, a árvore singular, e, em razão da genuína crença de que a conhecem com cristalina clareza, são tomados de poderosas e inebriantes elações afectivas, se autoconvencem de que conhecem a floresta inteira. Da crença assim tão entusiasticamente sentida resultam comportamentos que fazem lembrar outro provérbio, o que diz que «Cadela apressada pare os filhos cegos».
Os números estão aí bem escancarados à vista de todos, tanto a nível do nosso País como a nível mundial: a diferença entre os poucos muito ricos e os muitos muito pobres tem-se acentuado; e a pandemia tem acelerado o crescimento dessa diferença.
Especificamente a propósito da pandemia, veja-se a ultrajante diferença na distribuição das vacinas contra o vírus da covid-19: uma imensa vergonha civilizacional.
Para o cidadão comum, o pão nosso de cada dia continua a ditar a sua consciência de classe, o vigor do seu entusiasmo ou protesto cívico.
No que diz respeito às questões directas e indirectas do texto de Victor Ângelo, temos por exemplo o caso de Mamadou Ba (figura circunstancialmente incontornável na generalidade dos meios de comunicação social) que há tempos afirmou, numa entrevista televisiva e radiofónica, que foi quando a bolsa de estudo, que lhe ia permitindo viver e estudar em Portugal acabou e que teve de ir trabalhar, que teve consciência dos problemas; digo eu, dos problemas dos que não têm bolsas, não têm trabalho, ou têm-no mas são muito mal pagos.
As crises são oportunidades, dizem os moderníssimos mentores sociais e empresariais — até são oportunidades para convencer “as massas populares” que têm de suportar as dificuldades laborais, os baixos salários e, não obstante, vencerem psicologicamente os seus sentimentos de frustração e de revolta, numa espécie de «Sou feliz. Sinto-me realizado, venci a minha revolta. Sou escravo, sou um escravo moderno, sou um escravo feliz, sou um escravo realizado.»
Os temas explícitos ou implícitos no texto de Victor Ângelo remetem-nos (é um verbo que os pensadores dos processos históricos gostam muito de usas, o verbo remeter) para os Descobrimentos, o Ultramar, a Colonização, a Descolonização, o Império, a Glória e a Tragédia Camoniana, o Destino Vieirino e Pessoano; o Racismo e o Antirracismo.
Tudo é o que é e é também o seu contrário, digo eu constantemente aos meus alunos de Psicologia.
O Racismo e o Antirracismo são o que são e são também o seu contrário. A História dos Povos está cheia de exemplos de racismos e lutas antirracistas, não apenas por causa da cor da pele, e também entre peles de igual cor.
Vivemos tempos em que o Antirracismo é, mais uma vez, luta legítima; mas é também oportunidade de promoção pessoal, social e económica, bem alinhada com os tradicionais mecanismos de destaque e promoção que a Comunicação Social e as Redes Sociais hoje em dia aceleram especialmente. Continuamos a ter necessidade de, seja no campo do Antirracismo, seja noutros campos, levar em boa atenção o bíblico aviso de sabermos separar o trigo do joio.
Bem, se continuo a escrever, acabo por me tornar no contrário do que quis ser, acabo por me tornar o tal autoproclamado líder vanguardista visionário que entende o processo histórico da coisa e, "para vosso bem", decide o destino das massas populares.
«Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão».
Senhores líderes das massas populares, tratem mas é de pôr o pão na mesa dos operários e camponeses que hão-de um dia arrebatar o poder à burguesia, como cantava a 'velha' canção festivaleira que veio com o 25 de Abril… Olhem, como um dia nos deixou o poeta António Aleixo, que nunca andou pelos televiseiros festivais: «Vós que lá do vosso império / prometeis um mundo novo, / calai-vos, que pode o povo / qu'rer um mundo novo a sério.»
E, senhores poderosos, não se esqueçam de abrir as livrarias!, a Natália Correia bem reclamou num intenso desabafo pessoal: «Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever / ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer.»
Livro também são pão — há por aí muita gente de dietas muitos esquisitas e muito pobres do pão e da cultura dos livros; mas pensando que sabem tudo.
Caro Victor Ângelo, gostei muito de ler o seu texto! Gostava agora de que considerasse este meu como consonante e não em oposição ao seu.

POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 3/52
QUANTO VALEM AS OPINIÕES?
1. O direito de opinião é consagrado na generalidade dos textos constitucionais dos países democráticos; e também das organizações políticas supra-nacionais. As limitações a este direito são habitualmente sinal de limitação das liberdades pessoais, regra geral, impostas à força por lideranças contrárias ao espírito e às práticas democráticas.2. As redes sociais na Internet vieram permitir que, para além das opiniões proferidas pelos governantes, os jornalistas e todos aqueles que em geral têm acesso aos órgãos de comunicação social, as opiniões de muitos cidadãos passassem a aparecer no espaço público, genérico e anónimo, para além de serem emitidas no círculo restrito da família, dos amigos, da empresa; e da escola.
3. Para além das questões que se costumam colocar acerca da ética, ou da responsabilidade, ou da honestidade, na expressão duma opinião, será interessante olhá-la do ponto de vista do fenómeno psicológico que é, nas suas dimensões cognitiva, comunicacional e inter-pessoal.
4. Passaram mais de 40 anos da aula de Psicologia Social Clínica em que, nas instalações provisórias da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Lisboa, na Rua Pinheiro Chagas, o Professor Pina Prata nos deu uma aula de que nunca mais me esqueci. O assunto central da aula foi o Processo Decisional.
5. Numa teorização que lhe era muito própria, ele apresentava-nos a Opinião como a segunda fase de um processo pessoal, consciente, no final do qual o sujeito (cada um de nós) toma uma Decisão, escolhe uma opção, profere uma sentença.
6. O Processo Decisional tem, esquematicamente 3 fases, sendo a Opinião (dimensão afectiva) a 2.ª fase e a Decisão (dimensão operativa) a 3.ª. Qual é a primeira? A 1.ª é a Informação (dimensão cognitiva).
7. É da nossa natureza humana formarmos opiniões, opiniões acerca de tudo com que contactamos. As opiniões podem ser sustentadas pelas crenças e pelas certezas; as opiniões podem ser bem informadas, intensamente intuídas, altamente ou levemente especulativas.
8. Na notável obra “O Livro da Consciência”, António Damásio, profundamente ciente da necessidade de distinguir o que se sabe com segurança do que se sabe mal e do que não se sabe praticamente nada, ao longo dos capítulos usa formulações que espelham os graus de certeza e de incerteza de que falo. Identifiquei-lhe uma vintena (falhei seguramente outras): “Tenho a certeza…”, “Sugiro…”, “Proponho…”, “Imagino…”, “Em minha opinião…”, “Com toda a probabilidade…”, “Acredito…”, “Suspeito…”, “À maneira de hipótese de trabalho…”, “Postulo…”, “Irei especular…”, “Julgo que…”, “Provavelmente…”, “Presumo…”, “É possível que…”, “Especular sobre…”, “Não se sabe ao certo…”, “Segundo me parece…”.
9. No mesmo livro, num pequeno capítulo com o nome “A sensação de vontade consciente”, António Damásio escreve assim: «Com que frequência somos guiados por um inconsciente cognitivo bem ensaiado, treinado sob a supervisão da reflexão consciente para cumprir os ideais, anseios e planos concebidos conscientemente? Com que frequência somos guiados por predisposições, apetites e desejos biologicamente antigos, enraizados bem fundo e inconscientes? Imagino que a maioria de nós, pecadores fracos mas bem-intencionados, se regule por ambos os registos, ora mais por um, ora mais por outro, dependendo da situação e da hora do dia. Seja qual for o registo em que funcionemos, mais virtuoso ou menos virtuoso, a actuação no «momento» é inevitavelmente acompanhada pela impressão, umas vezes falsa, outras vezes não, de que actuamos aí e naquele momento, com pleno controlo consciente».
10. Ora bem, as predisposições, os apetites e os desejos de que fala António Damásio, em hora de muitas verdades, não são informações. Por exemplo, quando temos de tomar decisões sobre os perigos de uma pandemia. Estamos predispostos a reagir aos ataques dos vírus, apetece-nos fazer coisas de que gostamos, desejamos estar livres dos perigos. Só que nada disto nos informa acerca dos perigos dum vírus causador de uma pandemia, e nada disto nos protege da virulência do vírus.
11. A cada indivíduo, numa pandemia, cabe informar-se, formar uma opinião e tomar uma decisão; a cada governo cabe exactamente o mesmo, só que a um nível de regulação do comportamento dos grupos humanos, das sociedades.
12. Perguntas diferentes confrontam-nos com quantidades diferentes de informação. Três exemplos: “Como é a vida depois da morte?”, "Como é que se fazem pastéis de Belém?" e “Qual é o grau de perigosidade do vírus da covid-19?” Não obstante as diferenças, não será que devemos sempre procurar toda a informação possível, reduzir o grau de incerteza e estar menos dependentes das nossas crenças e das nossas intuições – que, em geral, estão mais vezes erradas do que certas? No caso concreto do pastel de Belém, o que temos é precisamente a centenária sonegação absoluta da informação: a receita culinária. Nos outros 2 casos, a Vida está aí inteiramente aberta a que nós obtenhamos toda a informação.
13. As decisões que tomamos, com base nas informações que temos e nas crenças a que nos agarramos, nas situações importantes da vida, são marcadas pelo desejo de prudência ou pelo apetite (ou motivação) do risco. Quando é cada um a decidir acerca da sua própria vida, e na medida em que a decisão não afecte negativamente a vida de outros, é uma coisa; quando temos de tomar decisões que tenham consequência directa na vida dos outros é outra coisa — mas o dilema é o mesmo em ambas as situações: optamos pela prudência ou pelo risco?
14. Na minha opinião, cabe à Educação a essencial tarefa social de ajudar os mais novos a irem experimentando em si mesmos o vai-vém entre a prudência e o risco, e o alerta para a necessidade de sustentarem as suas opiniões com a melhor informação possível. Até para que um dia não venham a fazer parte de governos que não saibam precisamente isso: calcular adequadamente o balanço entre a prudência e o risco nas decisões que se reflectem na vida dos cidadãos que governam.
15. Há uma máxima (de tanto partilhada, tornou-se anónima — cá está: perdeu-se a informação de quem foi o seu autor —, ou foi apropriada por este ou aquele outro autor) que diz assim: “O barco está mais seguro no porto. Mas não foi para isso que os barcos foram construídos”. Esta máxima, de tão óbvia que é, torna-nos tentadores do risco. Só que também nos tornámos sábios a prever os mares encapelados e as tempestades, e a medir as nossas forças ao lado das forças dos mares e das tempestades — nestes casos manda a sabedoria e a prudência que nos recolhamos a um porto seguro.
POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 2/52
«A cooperação desenvolveu-se como irmã gémea da competição, o que ajudou a seleccionar os organismos que exibam as estratégias mais produtivas. Consequentemente, quando hoje nos comportamos de forma cooperativa, com uma certa dose de sacrifício pessoal, e quando designamos de altruísta esse comportamento, isso não quer dizer que os seres humanos tenham usado o seu bom coração para inventar a estratégia cooperativa. [...] A questão do altruísmo é um excelente ponto de partida para a distinção entre as primeiras "culturas" e a sua variedade madura. O altruísmo tem a sua origem na cooperação cega, mas pode ser analisado e ensinado no sei das famílias e nas escolas como estratégia humana deliberada. [...] Nada garante que resulte sempre, mas existe como recurso humano consciente, presente através da educação.» (1)13) E diz ainda o seguinte:
«A homeostasia básica tende a cumprir o seu dever relativamente a cada organismo cultural separável e nada mais. Deixados por sua conta, sem o efeito equilibrante de esforços civilizacionais determinados, visando algum grua de integração, e sem o benefício de circunstâncias favoráveis, os organismos culturais não tendem a coalescer.» [aglutinar, ligar, unir] (2)
«Esta e outras experiências revelam que a mentalidade humana se baseia fundamentalmente na partilha. [Não serão o altruísmo e a partilha o oposto do egoísmo?] Se não partilhámos intenção e atenção, nem sequer podemos fazer uma coisa tão simples como apontar para um objecto de interesse mútuo e muito menos partilhar os nossos comportamentos e representações simbólicas. Felizmente, a partilha faz parte do nosso meio social externo há tempo suficiente para se ter incorporado geneticamente nas nossas mentes, tão profunda e subconscientemente que não a reconhecemos como partilha até a estudarmos por métodos científicos.» (3)14) As constatações científicas de Wilson devem ser muito do agrado dos defensores da completa separação ente o Homem e os outros animais: é que os nossos parentes evolutivos mais próximos não apresentam esta capacidade de partilhar; mas o bebé humano, espontaneamente, apresenta!
Passei então a olhar a menina. Ela caberia perfeitamente dentro da cesta, bastaria que se dobrasse sobre si mesma.«O tribalismo dos dias de hoje é outra coisa, é no seu cerne antidemocrático, destruindo, com o precioso incentivo das redes sociais, um espaço público mediado pela verdade, pelo saber, pelas instituições da democracia, partidos e sindicatos, mas também pela família, pela escola, e mesmo pela igreja. O terreno impante de ressentimentos, violência, anti-intelectual, completamente de costas voltadas para os factos e para a verdade, sedento, não de autoridade, mas de autoritarismo, profundamente solitário diante do Facebook e do Instagram, em que estão viciados, e incapaz de pertenças sociais a não ser a grupos agressivos contra tudo e contra todos. Vêm aí os bárbaros, como no poema de KavaÆs, mas não são os bárbaros que precisamos, aqueles que “talvez fossem uma solução”. Esses nunca chegaram e estes são outra coisa e não nos vão ensinar a ser outra coisa. Vão obrigar-nos a ser nós mesmos, mas pior.»Assim que li o artigo de José Pacheco Pereira fui revisitar os fascinantes vídeos dos "7 Mil Milhões de Outros". Temos cada vez mais medo de olhar os outros nos olhos, de os conhecer e de os reconhecer. Estes vídeos - uns muito pequenos, outros assim-assim, outros grandes, dão para todos os gostos - ajudam-nos na reaprendizagem do contacto com os outros, e na educação da consciência de que somos muito mais iguais a eles do que pensamos.
WALES "once upon a time in the greenest lands" from Ricardo de Sousa on Vimeo.
ESCOLHER ENTRE DUAS ALTERNATIVAS: alternativa 1: viajar por Gales, à aventura, à descoberta, sem agência de viagens, como fez esta malta; alternativa 2: chamar o Ricardo de Sousa para fazer das nossas aventuras (sejam elas onde sejam) reportagem - extraordinária! - igual à que fez da sua.