domingo, janeiro 12, 2014

As 8 coisas que aprendi com Eusébio

RESPEITAR EUSÉBIO E A SUA MEMÓRIA
É TORNAR NOSSO O TESTEMUNHO DE JOÃO VIEIRA PINTO
É a minha opinião, nada mais do que isso. Vou muito intencionalmente tomar para mim o testemunho do João Vieira Pinto.
De tudo o que me esforcei por ver, ler e ouvir na semana que decorreu desde que Eusébio morreu, este testemunho é o que, no meu entender, melhor sintetiza o exemplo e o legado de Eusébio, o que vale a pena tomarmos em linha de conta do exemplo de Eusébio no futuro das nossas vidas. Eu leio as palavras de JVP, transporto-as para a minha vida, para a minha condição de cidadão e para o meu magistério de professor, e tudo mantém pleno sentido!

  1. BEM RECEBER.  Quando cheguei ao Benfica, em 1992, vindo do Boavista, já o conhecia, da seleção, e estabelecemos logo uma boa relação. Senti-me sempre protegido por ele. Ele gostava muito de mim como jogador e acolheu-me muito bem, como aliás fazia com toda a gente que chegava ao Benfica.
  2. MELHORAR. Depois dos jogos, costumávamos falar sobre o que tinha acontecido, analisávamos os lances e as movimentações que tinham corrido menos bem, para que no domingo seguinte isso já saísse perfeito - ou pelo menos melhor.
  3. ELOGIAR. Quando um jogo me corria bem, ele era o primeiro a vir ter comigo a dizer "estavas endiabrado", "partisre aquilo tudo", "estás em grande forma".
  4. LUTAR. Ele dizia sempre que nunca podíamos desistir de um lance, tínhamos de lutar, dar tudo em campo. Ele contava histórias das lesões e realçava que queria jogar sempre.
  5. JOGAR AO ATAQUE.  O Eusébio era muito objetivo, tinha uma enorme velocidade e potência de remate. E por isso dizia que a finta era apenas um recurso, que o jogo se fazia a avançar no terreno.
  6. REMATAR SEMPRE.  O Eusébio, até na bancada, a ver os jogos, quando via um avançado perto da área gritava: "Chuta." Esse também era um dos conselhos recorrentes dele. Perto da área, não valia a pena estar com rodriguinhos, era arranjar espaço e chutar, porque se não se chutasse não se marcavam golos de certeza.
  7. APURAR A TÉCNICA. Falava muito comigo sobre a forma de rematar, de colocar o pé na bola, de inclinar o corpo. Nos livres, treinava comigo a melhor maneira de colocar a bola em arco no lado contrário. Costumava marcar cantos do lado de fora da linha de campo, já atrás da baliza, e a bola descrevia um arco e entrava. No fim dos treinos ele desafiava-me, a mim e aos outros, a fazer melhor do que ele. Eu às vezes conseguia, mas ele ganhava quase sempre esses concursos de cantos diretos. Era isso ou ver quem é que acertava mais vezes na barra. Ou quem colocava a bola no meio das pernas de um jogador num passe de 30 metros. Fazíamos exercícios de grande precisão e de grande execução técnica.
  8. AMIZADE. Tornei-me amigo dele. Íamos muitas vezes almoçar ou jantar e falar dos seus grandes tempos de jogador. Tinha uma ótima relação com ele. Muitas vezes, quando o Benfica jogava no estrangeiro, no regresso o autocarro levava-nos até ao Estádio da Luz e depois eu é que o ia levar a casa.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

JOSÉ TRAVASSOS E EUSÉBIO. AOS MEUS ALUNOS DO SPORTING.

Meus queridos alunos,

pelo menos alguns de vós não conhecereis estas palavras de Eusébio, escritas no hospital, em dezembro de 1960, e recolhidas no livro O que as almas são por dentro - 99 Testemunhos, da autoria do cónego António de Azevedo Pires, publicado em 1967 pela Editorial Pórtico. Antes de reproduzir na íntegra a carta, deixai-me destacar uma parte que tanto tem a ver com o que temos falado nas últimas aulas. E desta vez não quero dar relevo à humildade de Eusébio; isso sim, à nobreza de alma e à sabedoria humana do grande sportinguista José Travassos. As palavras são claras, não precisam de ser comentadas ou interpretadas por mim. O Eusébio dirige-se ao senhor padre autor do livro. Eu não conheço ainda o livro, admito que o senhor padre, boamente, tenha vertido para o livro uma versão especialmente bem compostinha das palavras originais de Eusébio. Na verdade, eu sei "do que é que a casa gasta..." Tenho experiência de muitos alunos da idade com que Eusébio escreveu esta carta (18 anos), sei qual é o rigor de expressão escrita, formal, de que, em geral, são capazes.

"Lembra-se da conversa que tivemos aqui, há pouco, neste quarto do Hospital, com o sr. José Travassos que veio também visitar-me? Estávamos só os três. Conversámos muito. O sr. Travassos, que foi grande jogador, foi muito largo nos elogios que me dirigiu. Ouviu aquilo que ele me disse e que eu não esperava?: «O Eusébio, se trabalhar e se tiver sempre juízo, pode ir longe no futebol. Já o vi jogar, e digo-lhe que tem qualidades para vir a ser o melhor jogador português de todos os tempos. Aproveite-as, trabalhe e nunca seja vaidoso.»
CARTA DE EUSÉBIO - VERSÃO INTEGRAL
Hospital da C. U. F.
Dezembro de 1960.
Aqui estou neste Hospital depois da operação que há dias me fizeram. Espero que hei-de ficar bom depressa. Deus há-de-me ajudar.
Desde que vim de Moçambique lembro-me muito de minha Mãe. Escrevo-lhe muitas vezes a dar notícias minhas, porque sei que ela gosta muito de as receber. Eu gosto de lhe dar alegria. No futuro, se as coisas me correrem bem, ela nunca será esquecida, Se eu triunfar no futebol e os jornais vierem a falar de mim e se eu ganhar dinheiro grande, não quero isso para vaidade minha. Quero para dar alegria à minha Mãe. Não gosto de ser vaidoso, mas quero que os meus triunfos vão dar gosto à minha Mãe. Ela merece. Fez muito pelos filhos, por mim e pelos meus irmãos. Não esqueço a formação que me deu, para ser um homem bom e honrado.
A formação cristã que minha Mãe me deu e a que recebi também dos padres missionários que estavam lá perto da minha terra hão-de ajudar-me muito na vida.
A minha Mãe Elisa é extraordinária, Também quero ajudá-la com o dinheiro que eu ganhar.
Lembra-se da conversa que tivemos aqui, há pouco, neste quarto do Hospital, com o sr. José Travassos que veio também visitar-me? Estávamos só os três. Conversámos muito. O sr. Travassos, que foi grande jogador, foi muito largo nos elogios que me dirigiu. Ouviu aquilo que ele me disse e que eu não esperava?:
«O Eusébio, se trabalhar e se tiver sempre juízo, pode ir longe no futebol. Já o vi jogar, e digo-lhe que tem qualidades para vir a ser o melhor jogador português de todos os tempos. Aproveite-as, trabalhe e nunca seja vaidoso.»
Isto foi o que disse o sr. José Travassos ao querer ser amável comigo, lembra-se? Como sou muito novo e estou a começar a minha carreira, naturalmente ele disse aquelas coisas só para me estimular. Mas vou aproveitar o estímulo e vou trabalhar a sério, para vir a ser alguém. Não quero vaidades. Quero ser um homem, e quero dar muitas alegrias à minha Mãe Elisa.
Eusébio da Silva Ferreira

"Homenagem a Eusébio" - Luís Filipe Borges - 5 Para a Meia Noite

Aos poucos, irei aqui enumerando as razões porque considero que este pequeno discurso tem uma miríade de potencialidades pedagógicas, que podem ser tranquilamente exploradas na educação, também tranquila, das crianças e dos jovens.

terça-feira, janeiro 07, 2014

Gandhi deixou 2 dólares de bens materiais quando morreu

Menos de dois dólares

Um texto notável de José Tolentino Mendonça


A "pegada ecológica" diz muito acerca de nós: quantos recursos (e que recursos) hipotecamos para construir o que é o nosso estilo de vida, quais as necessidades que consideramos vitais e como as priorizamos, que tráfico de bens e serviços temos de colocar em funcionamento para realizar o nosso sonho (ou a nossa ilusão) de bem-estar. Os indicadores coincidem no seguinte: as sociedades avançadas geram uma inflação permanente de necessidades, indiferentes aos desequilíbrios que causam, e que são, em grande medida, não só de sustentabilidade ambiental mas de sustentabilidade espiritual. [o destaque é meu]

A verdade é que cada um de nós traz vazios por preencher, carências e interrogações submersas, desejos calcados que procura compensar da forma mais imediata. Não é propriamente de coisas que precisamos, mas, à falta de melhor, condescendemos. À falta desse amor que nem sempre conseguimos, desse caminho mais aberto e solitário que evitamos percorrer, à falta dessa reconciliação connosco mesmo e com os outros que continuamente adiamos... O consumo desenfreado não é outra coisa que uma bolsa de compensações. As coisas que se adquirem são, obviamente, mais do que coisas: são promessas que nos acenam, são protestos impotentes por uma existência que não nos satisfaz, são ficções do nosso teatro interno. Os centros comerciais apresentam-se como pequenos paraísos, indolores e instantâneos. Infelizmente, de curtíssima duração também.

Li há dias, e impressionou-me muito, que, quando Gandhi morreu, os bens materiais que deixou valiam menos de dois dólares. Voltei a ler para verificar se me tinha enganado: menos de dois dólares. Os bens espirituais e civis que legou ao futuro tinham, porém, uma dimensão incalculável. O que nos enfraquece não é, de facto, a escassez, mas a sobreabundância; não é a indagação, mas o ruído de mil respostas fáceis que conflituam; não é a frugalidade, mas sim o desperdício. O que nos enfraquece é não termos escutado até ao fim o que está por detrás da fome e da sede, da nossa urgência e da nossa fadiga, do atordoamento, dos medos ou da abstenção.

Há aquela cena do filme de Steven Spielberg "A Lista de Schindler". O ator Liam Neeson representa o papel do industrial alemão que salvou a vida a mais de mil judeus. Na cena final, os resgatados oferecem-lhe, expressando a sua gratidão, uma aliança com uma frase do Talrnude. «Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro». E a resposta de Oskar Schindler é inesquecível: «Podia ter feito mais. Não sei, eu... Podia ter salvo mais. Desperdicei tanto dinheiro com futilidades. Não fazes ideia. Se soubesses... Não fiz o suficiente. Este carro... Porque fiquei eu com ele? Alguém o teria comprado. Teria salvo dez pessoas, mais dez pessoas. Este alfinete! Duas pessoas! É de ouro. Podia ter salvo mais duas pessoas. Por isto... eu poderia ter salvo mais pessoas... e não o fiz». Estamos condenados a uma dor assim?

Mas há finais felizes. Lembro-me dos meses que antecederam a partida do poeta Eugénio de Andrade. Ele ficou internado longo tempo no Hospital de Santo António, no Porto. Nessa altura, passei por lá algumas vezes a visitá-lo e só me recordo de ouvi-lo pedir uma coisa: que lhe trouxessem duas maçãs. Não para comer, obviamente, mas para ficar a olhá-las da cama, para sentir a cor, a textura, o perfume, para distinguir a sua forma no silêncio, para amá-las como se ama uma pintura de Cézanne. Acho que duas maçãs custam menos de dois dólares, não é verdade? (José Tolentino Mendonça, In Expresso, 4.1.2014)

domingo, janeiro 05, 2014

Ser bom professor com Ricardo Araújo Pereira

E, de repente, aparece Ricardo Araújo Pereira a trazer-me à consciência a pergunta:
http://problemasteoremas.wordpress.com/2008/07/22/
dois-comboios-e-duas-cidades/
- Será, na verdade, possível ser-se bom professor se não se entender isto e se não se lidar com prudência e sabedoria com estas diferenças?...
Vem na Visão, na edição de 2 de janeiro de 2014:
"O escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo percebeu que se interessava mais por letras do que por números quando, em criança, o professor de matemática lhe colocou aqueles problemas do costume. "Um comboio parte do ponto A às 8h00 e viaja a uma velocidade média de 100 km/h. Outro comboio parte do ponto B duas horas mais tarde e depois segue a 80 km/h. Determine a que horas vão os comboios encontrar-se no ponto C, sabendo que, etc." Em vez de calcular a resposta, Veríssimo punha-se a imaginar quem seriam os passageiros dos comboios, por que razão iriam do ponto C àquela hora da manhã, ou quem os esperaria lá."

domingo, dezembro 15, 2013

MANDELA - UBUNTU

MANDELA - UBUNTU

Que testemunho extraordinário! Catadupa de acontecimentos vitais notáveis que nos fazem pensar sobre as fascinantes raízes do espírito ubuntu. Esta palestra já aconteceu depois da morte de Mandela, no passado dia 5. Este testemunho tem tanto mais significado quanto - diz-nos António Mateus, agora, diretamente de Qunu - Nelson Mandela um dia confessou, entre amigos, que foi no meio da Natureza, onde ele brincava na sua infância com os seus companheiros, e onde foi mais feliz, em contacto com a vida selvagem, e através dos animais, que aprendeu que a integridade dos outros, o bem-estar dos outros é uma responsabilidade nossa.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Formidável!... Obriga-nos a pensar!...

FORMIDÁVEL!... HIPNOTIZANTE!... ASSUSTADOR!...
Arte digital espantosa, mas que deve pôr-nos a pensar com muita seriedade. É um extraordinário exemplo de como é possível, hoje em dia, alterar "rigorosamente" a experiência percetiva da Realidade objetiva.
A ver e rever; para pensar e discutir em conversa amena.
Do site da TVI24 transponho para aqui o seguinte texto:
André Boto foi eleito Fotógrafo Europeu do Ano em 2010, pela FEP (Federação Europeia de Fotógrafos). O trabalho na edição e montagem de imagens valeu-lhe o prémio. O fotógrafo português publicou recentemente um vídeo no YouTube onde revela alguns dos «segredos» para passar de uma fotografia normal a uma imagem extraordinária.
O vídeo de quase cinco minutos parte de uma fotografia normal captada em Segóvia, Espanha, e mostra o trabalho de edição e montagem, através do programa Photoshop, para conseguir uma imagem final que parece ilustrar um cenário tirado de um filme de fantasia.
Os poucos minutos do vídeo não mostram, no entanto, as cerca de seis a sete horas queAndré Boto demorou na execução da imagem e as «muito mais horas que isso a planear, pensar e projectar as dificuldades e a escolher as imagens correctas para se integrarem», explicou ao tvi24.pt.

segunda-feira, novembro 18, 2013

Dia do Homem, 19 de novembro

Ontem reli, por óbvias razões, o discurso do Nobel de Doris Lessing, no qual a escritora consagrada desafia os assentos cómodos de quem a ouve com história da africana sofrida pela tantas vezes repetente falta de água. Na escassez de tudo, a africana lê intensamente a Ana Karenina de Léon Tolstoi. E com a história do outro africano, a escritora faz eco do lamento que guarda os livros sem, aflitivamente, os ler. Não os lê porque não quer perder a oportunidade de lê-los, mas não o faz por causa medo de que, em os usando, eles se sujem e, por isso, se percam: e os livros são tesouros.
Qual aguilhão, fez-se-me à mente, ato contínuo, em absoluta consciência, o avô Celestiano de Mia Couto; mas não era "esse" o livro de Mia Couto que eu queria, era "aquele" outro que eu tinha na cabeça.
http://www.universodosleitores.com/2013/04/
escritores-mia-couto.html
Hoje (vá lá, não foi preciso passar muito tempo! E vindo - que bom! - ainda a tempo), algures na montanha eternamente kilimanjárica dos livros e papéis, confundidos e amontoados, na minha mesa de trabalho, encontrei "aquele" livro, o tal, de Mia Couto, o que fala de mistérios à volta de um morto e de velhos que passam numa varanda sobre a terra e sobre o mar.
O lema da celebração deste ano do Dia do Homem (que eu, sinceramente, não sei se já alguma vez eu me tinha dado conta de que existisse... Hoje em dia as Nações Unidas, a União Europeia, a Unicef e tantas outras super-entidades celebram tanta coisa!...) é Manter os homens e os rapazes em segurança (Keeping Men and Boys Safe). Seja. A segurança de uns e outros tem muito a ver com a sabedoria que recebem, por tradição dos outros homens, os velhos - os que percebem que os seus corpos se tornaram os espaços de estágio da morte.
Esses, os homens que sabem que vão morrer, entretanto, estão a morrer. Mais, estamos a matá-los. São esses a quem - ironia das ironias; absurdo dos absurdos - estamos a tirar toda a segurança! A segurança que na celebração das Nações Unidas deste ano reclamamos para os que não são ainda velhos. Quer dizer, aos homens e rapazes de hoje estamos a roubar, pelo que hoje roubamos aos homens mais velhos, a oportunidade de um dia serem eles mesmos também velhos. Velhos de idade, velhos seguros por causa da sabedoria que trazem consigo; e velhos sábios por causa da segurança que nós, em sociedades organizadas, soubermos trazer-lhes ao seu cansaço, às suas rugas, às suas experiências de vida.

«- Escute, senhor inspector: o crime que está sendo cometido aqui não é esse que o senhor anda à procura.
- O que quer dizer com isso?
- Olhe para estes velhos, inspector. Eles todos estão morrendo.
- Faz parte do destino de qualquer um de nós.
- Mas não assim, o senhor entende? Estes velhos não são apenas pessoas.
- São o quê, então?
- São guardiões do mundo. É todo esse mundo que está sendo morto.
- Desculpe, mas isso, para mim, é filosofia. Eu sou um simples polícia.
- O verdadeiro crime que está a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente.
- Continuo sem entender.
- Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor…
- Como eu?
- Sim, inspector. Gente sem história, gente que existe por imitação.
- Conversa. A verdade é que o tempo muda, esses velhos são uma geração do passado.
- Mas estes velhos estão morrendo dentro de nós.
E batendo no peito, a enfermeira sublinhou:
- É aqui dentro que eles estão morrendo.»

Mia Couto, A Varanda de Frangipani (2010). Ed. Caminho, pp. 59-60.

ATUALIZAÇÃO, em 21nov13

Um povo que não respeita os seus avós não tem memória nem futuro – o Papa na missa desta terça-feira



RealAudioMP3 

Um povo que não respeita os seus avós não tem memória e não terá futuro. Esta a mensagem principal do Papa Francisco na missa desta terça-feira na Casa de Santa Marta. No dia de hoje comentou os acontecimentos bíblicos do idoso Eleazar que escolheu o martírio por coerência com a sua fé em Deus e para dar testemunho de retidão aos jovens.
Este homem, Eleazar – disse o Santo Padre – escolheu a morte recusando a atitude de fingir, de fingir piedade, de fingir religiosidade. Eleazar um homem de fé e coerência:

“ A coerência deste homem, a coerência da sua fé, mas também a responsabilidade de deixar uma herança nobre, uma herança verdadeira. Nós vivemos um tempo no qual os idosos não contam. É triste dizê-lo, mas são descartados! Porque incomodam. Os idosos são aqueles que nos trazem a história, que nos trazem a doutrina, que nos trazem a fé como herança. São aqueles que, como o bom vinho envelhecido, têm esta força dentro de si para nos darem uma herança nobre.

Neste momento da homilia o Papa Francisco contou uma pequena história que aprendeu quando era menino. Os protagonistas são uma família: pai, mãe, tantos filhos e um avô que quando comia a sopa sujava a cara. O pai aborrecido com tal comportamento comprou uma mesinha à parte para o avô e explicou o facto aos filhos. Um dia mais tarde, regressando a casa, encontra um dos seus filhos a brincar com um pedaço de madeira e pergunta-lhe o que estava ele a fazer. A resposta não se fez esperar: Estou a fazer uma mesinha para ti, para quando fores velhinho como o avô!

“Esta história fez-me tão bem, toda a vida. Os avós são um tesouro. “
É verdade que a velhice, às vezes, é um pouco triste, pelas doenças que surgem, mas a sabedoria que têm os nossos avós é a herança que nós devemos receber. Um povo que não conserva os avós, um povo que não respeita os avós, não tem futuro, porque não tem memória, perdeu a memória.” (RS) RealAudioMP3 

Evolução, seres vivos. Era uma vez...

The amazing world of living things: a short story about Evolution
(subtitles in English)
Trabalho interessante, com animação clara sobre assuntos que nem sempre são fáceis de compreender. Ah! E é mesmo assim: ao contrário do que estamos habituados, a narração é em português e as legendas são em inglês!

This animation explores concepts of Evolution, and how the diversity of living beings arose from a common ancestor. The video focus on the Tree of Life, where all living beings are related, and how new species originate. In the end, the contribution that studies on evolution bring to other research areas and to the society is approached.


domingo, novembro 03, 2013

MEMÓRIA DE UM SABOROSO ALMOÇO

MEMÓRIA DE UM SABOROSO ALMOÇO
Em Lisboa, nos Olivais Sul, no dia 31 de outubro de 2013


Estávamos satisfeitos – muito satisfeitos mesmo! – quando nos sentámos à mesa do restaurante. Os trabalhos na escola, durante a manhã, tinham corrido muito bem!

Optámos por ficar na esplanada, à sombra. O tempo já não está muito convidativo para estas opções, mas na frescura húmida da hora havia ainda uma réstia do calor sul-europeu para saborear.
A escolha da comida foi fácil de fazer, apontámos no cardápio as tradicionais febras e o bacalhau à Gomes de Sá. A Marisa Matias, com a-propósito, trouxe a história da origem dos pastéis de bacalhau. Pegando as azeitonas, falámos doutras coisas, no fundo, aperitivos trocados entre gente que se sentia ali bem, naquela mesa, com a presença dos outros convivas.
O almoço aconteceu como todos queríamos que acontecesse: sem pressas e sem delongas demasiadas, com a conversa a fluir tranquilamente entre coisas mais sérias, outras mais pitorescas, outras ainda mais pessoais. “Ó Marisa, se continua assim, vou dar o dito por não dito e, afinal, vou deixar que algum dos meus alunos faça o trabalho monográfico consigo! Já disse agora tanta coisa que não está no trabalho da Daniela do ano passado que dá para fazer um trabalho novo inteirinho!...”
Repetiam-se risos entre garfadas; repunha-se o vinho nos copos, sem nunca os encher, assim controlando qualquer eventual excesso, que a boa disposição, quase disfórica, tornava tentador. Também, por vezes, como já o dei a entender, franziam-se os rostos, o presente e o futuro de Portugal e do Mundo não deixam ilusões de esperanças e entusiasmos. O único caminho é a solidariedade empenhada, o resto… O resto tem de trazer qualquer coisa de bom, não pode ser de outra maneira!
Sem que fosse intencionado ou antecipado, quando o almoço caminhava já para o desenlace que todos os almoços têm, emergiu um momento criado em efeito direto da ambiência afetiva que a Marisa, a Ana, o Flávio, o Acúrcio e eu mesmo alimentávamos. Numa carinhosa cumplicidade silenciosa, quase instintiva, entre os mais velhos, o Flávio recebeu, convergindo em uníssono, os olhares de todos os seus companheiros de mesa: ele nunca saiu de Portugal e naquele instante ele foi confrontado com a confirmada possibilidade de o fazer – a Bruxelas, no final de janeiro de 2014, com alguns parceiros da bela jornada da manhã. Foi um momento que nos deixou a todos profundamente contentes!
Até que chegou o momento das teimas de quem pagaria o almoço. O Acúrcio, o vizinho mais próximo destes lugares, com outra cumplicidade – neste caso, a do empregado do restaurante – levou, como de costume, a melhor.
http://www.idadecerta.com.br/blog/?tag=velhinha
Enquanto o momento das contas decorria, uma senhora – como nos habituámos, por tradição, dizer: uma velhinha – aproximou-se da mesa. A Marisa e a Ana, uma dum lado da mesa e a outra do outro lado, eram as que estavam do lado de fora, em mais imediato contacto com o espaço público para lá da esplanada. A senhora idosa chegou-se à cabeceira da mesa e exibiu numa pequena cesta de vime alguns produtos – uma ou duas embalagens de chá e outras tantas de folhas de louro, um frasco de mel, e mais uma ou outra coisa; no seu braço esquerdo, pendurados, alguns trabalhos, toscos, em lã – pegas de cozinha, quase todos.
A senhora agarrou no pequeno frasco de mel, exibiu-o-nos e perguntou se algum de nós queria comprar aquilo. A Ana perguntou quanto custava e a senhora respondeu-lhe que era um euro. A Marisa ficou logo igual à Ana: quer dizer, bem visivelmente, de coração tomado por imensa ternura pela frágil senhora, senhora idosa sem oportunidade de saborear o descanso que as imensas e bem cravadas rugas do rosto, a magreza de ossos de toda a sua figura, a curva irremediável das suas costas, as largas lentes dos óculos, e o sorriso que eu adivinhava perdido há muito, lhe outorgavam em bem profunda humana legitimidade.
Com gestos cuidados, prudentes, a Marisa e a Ana procuravam bondosamente “enganar” a senhora: os gestos, não obstante cuidadosos, mostravam alguma atrapalhação, que, esperávamos todos nós, a senhora não se apercebesse. As nossas companheiras de mesa queriam ajudar a senhora, mas queriam fazê-lo respeitando, com a dignidade que a senhora, fosse quem fosse, fossem quais fossem os pecados feitos durante uma vida visivelmente longa, merecia; não queriam – não queríamos - que a coisa parecesse uma esmola condoída dada a uma pobrezinha num ato de circunstancial e despachada piedade humana.
Entre pôr moeda e tirar moeda, ficaram duas moedas de 2 euros em cima da mesa para pagar o euro do frasco de mel. “Fica assim…”, diziam a Ana e a Marisa. A atrapalhação que as nossas companheiras de mesa não queriam denunciar tornou-se agora bem nítida nos gestos e na voz da frágil senhora: olhava o frasco de mel, as moedas postas em cima da mesa, abria e fechava a boca sem nada dizer e sem alguma vez mudar a expressão séria e triste do rosto. Nós parámos, suspensos, na expetativa do que iria dizer ou fazer. Quase gaguejou, a senhora, mostrando-nos o cansado indicador da mão direita: “Falta um…” . A todos nós pareceu que aquele preço era bem mais justo para aquele frasco de mel do que o euro pedido pela senhora. Respirámos todos aliviados!... Enquanto, claramente satisfeitas, a Ana e a Marisa respigavam mais moedas nas suas carteiras, a senhora perguntava se não queriam comprar mais alguma coisa. Exibiu a embalagem da folha de louro, a do chá de lúcia-lima, e ergueu o braço esquerdo para vermos bem as toscas pegas de lã.
Nesta altura, a toalha da mesa já mostrava pelo menos quatro moedas de 2 euros e uma moeda de 1 euro, só para, “discretamente”, pagar o frasco de mel. A Ana perguntou à senhora quanto custava o saquinho de folhas de louro. Era cinquenta cêntimos. A Ana puxa de mais uma moeda, penso que de um euro, e estende-a para a senhora: “Olhe, fica assim…” A senhora, sempre com os mesmos gestos lentos, sempre com o mesmo rosto que todos queríamos ver abrir um pouco mais, devolvendo-nos um sorriso, por pequenino que fosse, a dar-nos sinal de que estava a sentir-se bem – sorriso esse que nunca veio, a velha senhora sabe que a vida vai continuar a ser dura para ela e vai continuar a exigir-lhe esforço em vez de descanso -; a senhora, dizia eu, olhou as moedas que estavam em cima da mesa, olhou a seguir a Ana e, com a firmeza que a fragilidade da voz gasta da vida ainda lhe permitia, disse-lhe, abrindo a mão solta, a mão direita, como o fazem as mãos francas: “A senhora já pagou, já não é mais nada…” E apontou à Ana as moedas em cima da mesa.
Eu fiquei com um nó na garganta, e estou convencido de que ficámos todos. Levantámo-nos da mesa, a senhora recolheu as moedas, agradeceu e seguiu o seu caminho. Ela sabe onde o caminho a vai levar, não faltará muito tempo; e nós, que ali continuámos juntos, em saborosa partilha, também bem sabíamos onde os tão exaustos e tristes passos que se afastavam de nós naquele momento iriam chegar e finalmente deixar descansar as pernas que sempre os conduziram.
Quais serão as condições de vida desta idosa senhora?... O que é que a sociedade desenvolvida que ela ajudou a criar lhe dá agora, ou melhor, lhe tem tirado e lhe tem negado? Os poderosos, a gente sabe o que eles fazem quando é a hora deles darem ou tirarem às pessoas. Esta senhora, massacrada pela vida – já o disse: sejam quais sejam os pecados que tenha feito até hoje -, quando foi hora de ser ela a decidir, escolheu ser honesta com o seu próximo, ali mesmo, quando a oportunidade de juntar mais uma preciosa moeda para a sua sofrida sobrevivência era fácil, estava ali escancarada à sua frente com a bondade discreta das senhoras deputadas; bondade esforçadamente discreta mas traída pela abundância de moedas, que a própria senhora percebeu estarem em exagero perante o valor dos objetos da rudimentar troca comercial. Que sabem os senhores poderosos do Mundo desta senhora? Levaram-lhe, e continuam a levar-lhe, todos os dias, a paz e o sossego que os carregados anos de vida legitimam à senhora, a qualquer senhora desta idade; mas não conseguiram levar-lhe a dignidade! Que exemplo!... Que lição!...
Que manhã, esta!... Tão cheia de humanidade! Valeu o esforço que prepará-la? Valeu a viagem “louca” da Marisa e da Ana, de Aveiro a Tomar; e de Tomar a Lisboa? Valeu o esforço do Flávio, que juntou, com a sua disponibilidade, mais exigências às exigências que o seu dia a dia de estudante lhe coloca? Valeu, sim senhor! São estas coisas que na vida, nos encontros humanos, valem a pena!
Beijinho grande, de muita gratidão, Marisa! Outro para a Ana! Um abraço, ao mesmo tempo paternal e fraternal ao Flávio; à Daniela e ao Fábio! Ao mano Acúrcio, o abraço do costume!

Confesso que já imaginei a senhora descansando num leito quentinho e aconchegado; a fechar a olhos, esfregando mansamente a cabeça contra a almofada para a fazer ao jeito das curvas do seu rosto. Eu, debruçado sobre ela, ajeito-lhe o lençol e os cobertores, faço-lhe uma festa na cabeça, digo-lhe “Bom descanso… Até amanhã…”, apago a luz e fecho devagarinho a porta do quarto atrás de mim.