sábado, janeiro 05, 2013

De onde vem a consciência

Uma palestra muito interessante do neurocientista António Damásio, em que ele cristalinamente (não obstante a laringite) fala sobre a mente, a consciência, o Self; o que o ser humano partilha ou não com os outros animais. É um desafio muito interessante que nos lança! Por exemplo, se António Damásio levar o leitor (neste caso, o ouvinte) a pensar que o cão que se tem em casa se distingue essencialmente do seu dono porque não antecipa o futuro, como reage o leitor (ou o ouvinte)? Fala sobre a dinâmica do funcionamento cerebral e sobre a relação do Funcionamento Cerebral com a Cultura e a Educação. Grande responsabilidade deixa ele nas mãos de quem decide sobre os sistemas e os valores da Educação dos Povos!
A propósito de uma das suas apresentações de O Livro da Consciência.


Antonio Damasio is David Dornsife Professor of Neuroscience, Psychology, and Neurology, and director of the Brain and Creativity Institute at the University of Southern California. He is author several books including Descartes’ Error and, most recently, Self Comes to Mind: Constructing the Conscious Brain. Below, he takes our In The Green Room Q&A.
Q. What surprises you the most about your life right now?
A. Can I answer with a joke? I have this laryngitis and I’m still speaking.
Q. What is the last habit you tried to kick?
A. Not doing enough exercise.
Q. Who was your childhood hero?
A. Tin Tin.
Q. What do you consider to be the greatest simple pleasure?
A. Enjoying good weather by the seaside next to a forest of pines.
Q. Where would we find you at 10 a.m. Saturday morning?
A. Probably at home writing or reading.
Q. What do you wish you had the nerve to do?
A. Be an airplane pilot.
Q. Who is your favorite fictional character?
A. As a dramatic character, Gatsby. As a comedic character, Alvy Singer in “Annie Hall.”
Q. What is your most prized material possession?
A. Certain pieces of art.
Q. Who is the one person living or dead you would most like to meet for dinner?
A. Perhaps Goethe.
http://www.zocalopublicsquare.org/2010/12/10/antonio-damasio/personalities/in-the-green-room/

*Photo by Aaron Salcido. 
DECEMBER 10, 2010

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Mudar ou não mudar, eis a questão. Uma espécie de "brainstorming" para entrar em 2013

José Pedro Cobra vem dizer, como muitos outros também andam a dizer, que a mudança começa em nós.  Pois é, dr. José Pedro Cobra, isso a gente já sabe!... Agora que o senhor o diz de uma maneira muito engraçada, isso não há dúvida nenhuma!... Vale a pena ouvi-lo! Muitas citações, muitas metáforas, algumas anedotas, todas sempre com muito a-propósito. Sim senhor, espero que os meus alunos, sobretudo os mais velhos, o oiçam. Enfrentar a rotina, os preconceitos, os automatismos acumulados, o negativismo visceral, etc..
A do outro (tinha de ser um português, claro!) que diz mais ou menos assim "Ó Barbas, sai daqui que eu estou de baixa e tu lixas-me isto tudo!..." está fabulosa!!!

terça-feira, janeiro 01, 2013

1 DE JANEIRO, DIA MUNDIAL DA PAZ.

1 DE JANEIRO, DIA MUNDIAL DA PAZ.
Ontem, ao despedir-se oficialmente de 2012, o Papa Bento XVI pediu mais espaço para o silêncio e as boas notícias, o que encaixa bem com a minha opção de destacar nos meus "momentos marcantes" de 2012 apenas os momentos positivos.
Hoje, na mensagem do Dia Mundial da Paz, Bento XVI fala das "crescentes desigualdades entre ricos e pobres", no "predomínio duma mentalidade egoísta e individualista" e no "capitalismo financeiro desregrado". Sim, concordo. Penso que a solidariedade é o único caminho que vale a pena percorrer; mas temos de ser sempre firmes com quem todos os dias o contraria, como é o caso de tantos governantes, do mundo e do nosso País.
É, seguramente, um caminho duro, cheio de obstáculos e oposições; mas - repito - é o único que vale a pena.
Da minha janela, o nascer do sol trouxe-me uma invulgar neblina sobre o Tejo, que não me deixou ver o aparecimento do astro rei. Mas eu sabia que ele estava lá e que surgiria por detrás das nuvens das aparências que toldam a nossa visão. Não será isso que o caminho da solidariedade nos pede? A confiança no que está para além do que estamos a ver agora? Ou melhor, do que não nos deixam ver agora?

Curiosamente, a minha querida amiga Maria Céu Barrosa, acabou de me mandar este vídeo muito interessante. É ou não verdade que as coisas estão lá, para além da neblina que as esconde? Sobre as dinâmicas e os mecanismos psicológicos subjacentes e em jogo, falarei deles aos meus alunos em próxima aula. Bjnh, Maria do Céu!
David Garibaldi: Jesus Painting from Thriving Churches on Vimeo.

domingo, dezembro 30, 2012

Mensagem de Ano Novo 2013 (no fundo, dá para qualquer ano...)


Bem, depois desta receita, o que fica, realmente, de importante para dizer?...

RECEITA DE ANO NOVO, de Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 

Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

2013 - Ano Europeu dos Cidadãos

http://ec.europa.eu/portugal/comissao/destaques/20110817_2013_
ano_europeu_cidadaos_pt.htm
Celebrar na Europa ou no Mundo, ano após ano, tem - pode ter - o condão de alertar consciências, promover novas - ou renovadas - atitudes e congregar comportamentos de ajuda, solidariedade, numa palavra: humanidade.
2013, antecipado em 2012, quer trazer importância e valor à cidadania europeia - que bem precisados andamos, não obstante o recente Prémio Nobel da Paz.
Hoje fui adquirir o sempre muito interessante calendário "Celebração do Tempo", das Edições Paulinas, que recomendo vivamente.
Na capa, os editores condensam numa só duas afirmações de São Paulo, extraídas de duas das suas cartas, que agora aqui reproduzo integralmente, de acordo com a Bíblia de Jerusalém (Paulus, 2002):

  • (...) Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher;pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. (...) (Epístola aos Gálatas, 3, 28)
  • (...) Vós não vos desvestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu Criador. Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre mas Cristo é tudo em todos. (...) (Epístola aos Colossenses, 3, 10-11)
No espírito ecuménico que tem orientado as sucessivas edições deste calendário, parece-me uma proposta muito interessante. Vamos a isso!

NOTA: Ver aqui (http://www.paulinas.pt/livro_detail.asp?idlvr=1268) a apresentação do "Celebração do Tempo", que - repito - recomendo vivamente!

terça-feira, dezembro 25, 2012

O Pai Natal usa brincos!

Ontem à noite, na Consoada, entre outras histórias, contou-se esta, que se pode, com toda a propriedade, juntar-se aos argumentos que discutem se se deve, ou não, manter as crianças na ilusão da existência do Pai Natal.
Contou a minha comadre que uma das filhas, em pequenina, vivia intensamente a Noite de Natal, os Presentes e, claro, acima de tudo, o Pai Natal.
http://4.bp.blogspot.com/-VswD1QohWCg/UJw9nJbFMoI/
AAAAAAAAHYQ/kq8Z-OaQ9rY/s1600/Slide1.JPG
Num determinado ano, calhou à minha comadre a vez de aconchegar a chegada do Pai Natal, vestindo-se a rigor para esse efeito. Por isso, quando o Pai Natal dessa Noite de Natal chegou lá a casa, a mãe não estava ao pé da filha, que teve de o ficar a ver o hipnotizante senhor de barbas brancas, desamparada da segurança materna, de olhos espantados, fascinados, medrosos!... Assim que a menina, excitadíssima, voltou a ter a mãe por perto, foi contar-lhe tudo o que viu, tudo o que aconteceu, naquele breve momento da presença do Pai Natal.
A menina atropelava, com toda a pressa, pormenores da figura do Pai Natal, do que ele disse, do que ele fez. A determinada altura, na descrição do Velho de Barbas Brancas, a pequenita olhou a mãe, de um e do outro lado da face, e sem interromper o caudal do seu relato,  disse, olhando-a agora nos olhos: "... ele, mãe, tinha uns brincos iguais a esses que tu tens agora..." Depois, continuou a debitar pormenores, enquanto a mãe tentava recuperar, sem se dar por descoberta, do abalo que o delicioso pormenor do discurso da filha lhe causara.
Que coisa bonita!... Esta menina, certamente muito inteligente, arranjou uma maneira de proteger a fantasia excitante, saborosa, que ela gosta de experimentar - e que a mãe também gosta de viver! E, implicitamente, muito diplomaticamente, diz a si própria - e diz à mãe! - que a sua perceção da realidade é correta, se mantém íntegra e que, por sua livre decisão, opta por se deixar levar na "mentira" dos pais e avós porque lhe sabe muito bem a história e a fantasia, sobretudo naquela ambiência familiar em que todos se acarinham e aconchegam uns aos outros.
Por isso, e sem querer esgotar - ou sequer, discutir - o assunto, enquanto psicólogo, aconselharei a que, diga-se o que se diga sobre o Menino Jesus e o Pai Natal, ou diga-se o que se disser para os negar na celebração do Natal, o mais grave ou condenável é ofender a inteligência e o bom juízo percetivo das crianças. Negar rigidamente o que a criança consegue ver ou percecionar é deturpar-lhe a capacidade de observar e entender a realidade que a envolve; e fazer opções, de acordo com as suas motivações e valores. Se a criança quer brincar ao "frisson" da Noite do Pai Natal, porque não deixá-la?... Este tipo de fantasias não afastam as crianças para muitos fantásticos e irreais; pelo contrário, podem ser bons instrumentos para a ajudarem a envolver-se mais ativamente na sua cultura de pertença e a ser mais tolerante com culturas diferentes da sua.

O NATAL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

O PRIMEIRO NATAL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL.
Agradeço ao meu amigo Luís Bettencout Moniz
a partilha desta  fotografia espantosa
Agradeço à minha colega Sofia Barros
a partilha desta fotografia
A primeira guerra mundial começou a 28 de julho, com a declaração de guerra do Império Austro-húngaro à Sérvia. Por isso, o Natal de 1914 veio já com a guerra a fazer-se. Contudo, aconteceu esta coisa espantosa: ao longo da frente ocidental, na Véspera de Natal, soldados de ambos os lados trocaram entre si cânticos de Natal. Na manhã do dia 25, contrariando ordens do comando, soldados alemães saíram para fora das trincheiras e aproximaram-se das tropas aliadas adversárias, entoando o "Merry Christmas" em inglês. Soldados ingleses saíram também das suas posições, e trocaram-se saudações, abraços e cigarros. Este extraordinário acontecimento, que mostra a força da celebração natalícia e a força da do jeito humano que nos põe a reconhecer os outros como iguais a nós próprios ficou guardado na história das guerras como "A trégua do Natal". Ao que parece, as versões oficiais das Histórias da Primeira Guerra Mundial tentaram manter escondido, ignorado, este episódio extraordinário de humanidade, mas, felizmente, sem sucesso.


Este acontecimento é recordado numa das mais recentes edições da Times, que junta mais 9 ocorrências invulgares da época natalícia.
http://www.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,1868506_1868508_1868515,00.html

terça-feira, novembro 06, 2012

Cheira a chulé - realidade ou ficção?

1) Às 13h30, ou melhor, alguns minutos depois dessa hora, eu estou "refugiado" na sala do Departamento das Ciências Sociais e Humanas da minha escola. Estou lá "refugiado" porque acabei de dar as aulas da manhã, tenho a cabeça tensa de tanta coisa para fazer - a viagem a Estrasburgo, ao Parlamento Europeu está aí a rebentar, estamos a "safar" as coisas de última hora -, e a sala de professores fervilha de colegas professores que, como eu, procuram descomprimir do primeiro meio-dia de trabalho. Vou aqui sorver em um trago, como diria o patrono da escola, "um apressado almoço".
2) Sem que eu as veja e sem que elas me vejam, algumas jovens (são, na verdade, várias, pelas vozes que se sobrepõem umas às outras) protestam junto da funcionária do pavilhão por causa do cheiro a chulé da sala onde acabam de entrar para ter aula. Dizem que é impossível estar lá com aquele cheiro.
3) A funcionária, solícita e paciente, procura justificar-lhes a situação, e, ao mesmo tempo, percorre com o olhar a sala de professores - mais uma vez deduzo eu isto pelas vozes e sons de proximidade, eu não estou a olhar para elas - à procura da docente que pode ter estado a dar aula na sala malcheirosa no bloco de aulas que aconteceu imediatamente antes do deste grupo de alunas.
4) A minha colega vem à porta da sala de professores, toma conta da ocorrência, as alunas dizem-lhe o que tinham já dito à funcionária; eu oiço a minha colega justificar-se também às alunas, oiço-a, por exemplo, perguntar às alunas se será mesmo a chulé já que na aulas estavam todos calçados.
5) O som das vozes e dos passos afasta-se; discretamente levanto-me e vou espreitar a sala: ainda ninguém tinha aberto as janelas da sala, ainda ninguém pusera a sala a arejar.
6) Deixo-me ficar a pensar... Os alunos aprendem a reclamar os seus direitos (têm legitimamente direito a uma sala de aula que, no mínimo, esteja isenta de odores corporais desagradáveis); os professores reconhecem  respeitam e fazem a pedagogia dos direitos dos alunos; os funcionários procuram ajudar os alunos e facilitar a vida dos professores. Mas, verdadeiramente, ninguém tomou a iniciativa clara de resolver imediatamente o problema como era preciso ele ser resolvido.
7) Que educação é esta que está a acontecer? Será que é isto que tanto depois se critica ao chamado "Estado Providência"? Que temos o direito de esperar que alguém resolva seja o que seja  por nós?
8) Será que isto aconteceu mesmo? Ou isto é uma ficção que construí num momento de descompressão da exaustão ao final da manhã de aulas, numa sequências de dias a fio - fim de semana incluído - de trabalho intenso? Na verdade, apuro o ouvido: lá em baixo as coisas estão calmas, a porta da sala está fechada. Será que cheirava mesmo a chulé na sala de aula?

domingo, novembro 04, 2012

IDOSOS, ÉTICA E REFORMA


IDOSOS, ÉTICA E REFORMA
por Frei Bento Domingues, O.P.
(jornal Público, edição de 4nov12, caderno Opinião)

1 Vivemos numa sociedade paradoxal: por um lado, alegramo-nos com o aumento da esperança de vida; por outro, os idosos são acusados de levar muito tempo a morrer. Gastam, não produzem e ainda se sentem no direito a receber uma reforma ou uma pensão dignas. Mas os casais novos também não escapam à censura: são responsáveis por sermos um país de velhos. Tinham obrigação de ter mais filhos. Como são egoístas, não se importam. Diz-se que lá virá o dia em que também eles verão as consequências desta falta de previdência.
Mais do que paradoxal, é niilista: não aguenta nem os idosos nem os novos. Se há queixas contra os idosos, os novos estão a ser preparados para nada. Diz-se que Portugal perde 2,7 mil milhões por causa de jovens inactivos. A grande alternativa parece ser a emigração, que não é um crime, mas esses jovens foram educados em Portugal e vão-se embora, sem pensar em ajudar quem por eles se sacrificou. Quando uma sociedade deixa de ser sujeito do seu destino e passa a ser objecto de contabilidade, não se vê possibilidades de acerto. As pessoas queixam-se de serem exploradas pelo Estado e o Estado diz que elas estão a ficar muito caras. Sentem-se todos prejudicados.
A nossa sociedade talvez não seja nem paradoxal nem niilista. Parece irreflectida.
Pensar em termos simplistas, como os que acabei de evocar, é o modo mais habitual de funcionar com os estereótipos, muito facilitados com a redução de tudo a números. Levou-se muito tempo a pensar em termos de deveres e direitos humanos, deveres e direitos de pessoas, sujeitos de dignidade. Agora, a propósito de tudo e de nada, só se pergunta quanto se perde e quanto se ganha. É um jogo de abstracções. As abstracções não choram, não riem, nem protestam. Uma boa máquina de calcular tornou-se o supremo órgão do pensamento. Os cursos de filosofia, de literatura, de teatro, de cinema, de música são artes de empobrecer alegremente, salvo casos geniais, que se descobrem, sobretudo, depois de mortos.
2. Para I. Kant, o ser humano não tem preço, tem dignidade. Nunca deverá ser um meio. É sempre um fim. Nas sociedades pluralistas em que vivemos, se os imperativos éticos não forem incondicionais, se a moral não tiver uma justificação, uma fundamentação, estas não serão pluralistas, mas relativistas, pois não haverá distinção entre bem e mal, tudo será aceitável - "vale tudo" -, basta que corresponda às tendências actuais, aos desejos de cada um, à moda. A pura actualidade sem horizonte, dominada pelo corropio das notícias, sem referência a uma orientação de longo alcance, tende a considerar tudo provisório, com medo do império de falsos absolutos. Será uma época que tem cada vez mais recursos, mas também um tempo de "meios sem fins".
As propostas éticas - que não sejam a sua negação - estão todas inseridas numa tradição. Procuram interlocutores na história.
Paul Ricoeur, sem juramentos de fidelidade ortodoxa a nenhuma delas, situou-se na confluência das tradições aristotélica e kantiana. Apresentou, várias vezes, o seu programa, da forma mais sintética: "A ética tem como objectivo a vida boa, com e para os outros, em instituições justas."
Como diz A.-J. Festugière, a norma para o grego não é "tu deves" (como é para Kant), mas "tu podes" ser humano, podes ser feliz.
Onde está o fundamento ético da reforma? Encontra-se na historicidade da condição humana. Não somos, vamos sendo. Importa que em todas as idades da vida, possamos contar com previdências e providências pessoais, comunitárias e sociais, para quando já não tivermos condições para cuidar de nós e dos outros.
Numa civilização pragmatista, os idosos não valem, estorvam; estão fora de prazo de validade. Paradoxo: caímos numa sociedade de idosos sem saber o que fazer com eles. Mas os reformados não podem ser indesejados e arrumados a um canto, à espera da morte, com medo ou como alívio.
3. Na chamada 3.ª idade reproduzem-se todos os aspectos da vida. Os idosos podem ser acarinhados ou maltratados, considerar-se indispensáveis ou a mais. Com a reforma - cuja idade pode variar - cessa a vida profissional, mas não acaba uma competência desenvolvida ao longo da vida. Deverá ter oportunidade de servir a comunidade, de fazer voluntariado, onde puder e quiser. Os idosos têm muito para dar, mas precisam de quem mostre alegria em receber.
Diz-se que já não produzem, mas quem contabiliza o que eles representam na família e na sociedade? A vida humana só se conta em euros? Fundamental é a sabedoria, mas quem sabe o seu preço?
Os idosos foram, em todas as culturas, considerados a sua memória viva. Fazem falta aos gestores de hoje. Os bons conselheiros não são, apenas, as pessoas de grande competência técnica. Sem sabedoria deita-se a perder o que ilusoriamente se ganhou.
Como escreveu Catarina Nunes, "um dia o mundo será um grande lugar onde ninguém é visto como velho, mas como alguém mais adiantado na jornada da vida". A isto se poderá chamar solidariedade entre gerações.

sábado, novembro 03, 2012

O Acordo Ortográfico e a tradução para português

Arrogo para mim a boa fé de aceitar escrever em acordo com o tão polémico Acordo Ortográfico (1). A ver o que ele dá, até porque, enquanto psicólogo, sempre tenho defendido que a lógica da escrita se deve aproximar da lógica da fala e da lógica do pensamento. Está já experimentalmente demonstrada a importância dessa aproximação, por exemplo, com o estudo das línguas orientais e as facilidades que essas línguas naturalmente proporcionam nas aprendizagens escolares fundamentais.
Começamos a dispor de tempo de experiência para avaliar a lógica, a eficácia e valor do Acordo Ortográfico. Começo a pensar que o saldo é desfavorável às alterações oficiais na escrita do português
A este propósito, gostei muito de ler, no passado domingo, dia 28 de outubro, o artigo de Paula Blank, "O Acordo Ortográfico e a tradução para português", publicado, sob o signo do "Debate Língua Portuguesa", na edição do Público (pág. 56).
Tomo a liberdade de transcrever para aqui esse artigo:

O meu trabalho consiste, em suma, na revisão de traduções do Inglês para o Português de manuais de instruções e interfaces do utilizador de equipamento médico. Vai desde a simples maca de exames utilizada nos consultórios médicos ao ventilador de cuidados intensivos ou desfibrilador cardíaco, de cujo correcto funcionamento e utilização dependem as vidas de tantos doentes por este país fora. Dependendo de o fabricante ser europeu ou americano, as traduções são produzidas – em geral – para Português de Portugal ou do Brasil, respectivamente. Por conseguinte, quando importamos da Europa, geralmente, repito, não há problema de maior; contudo, ao comprar equipamento nos EUA e com a globalização, consequentes fusões de companhias e migração de quadros pelo mundo inteiro, a situação complicou-se.

O que me chega às mãos está 90% das vezes muito longe do nível de qualidade que seria de esperar para qualquer tradução, quanto mais para traduções nesta área. Os exemplos são infindáveis, mas escolhi um que servirá para demonstrar aquilo de que falo. Na tradução do manual de um ventilador, feita por um tradutor brasileiro, lê-se:

“Usar o ventilador de maneira diferente como foi instruída pode causar danos ao digitalizar de RM.”

Uma tradução correcta do original em Inglês poderia ser assim:

“A utilização do ventilador de maneira diferente da que foi indicada nas instruções, pode causar danos ao aparelho de RM (ressonância magnética).”

Em praticamente todos os manuais traduzidos para Português do Brasil, e também no deste exemplo, chama-se “vazamento” a fuga, “cabo de força” a cabo de alimentação, “tela” a ecrã, “plugue” a ficha (um “plugue” que se “pluga”, do verbo “plugar”), “jack” a tomada, “leiaute” a disposição, “acurácia” a precisão, diz-se que a impressora “está aquecendo”, que “você tem de acessar isso” (aceder) ou “você deve apertar aquilo” (pressionar), os verbos reflexivos são conjugados ao contrário (“isso se faz assim” em vez de “isso faz-se assim”), etc.

O manual de um dispositivo de suporte de vida chega a ter 300-400 páginas e o deste exemplo era uma tradução que estava autorizada, em utilização em Portugal, e que só foi corrigida (1) quando o fabricante passou a fazer parte da gama de comercialização de certa empresa e (2) porque, depois de muita argumentação, o fabricante acabou por concordar em produzir uma versão em Português de Portugal.

Peço-vos que voltem a ler os exemplos apresentados. Não verão uma só instância de diferença ortográfica, o que prova a futilidade do esforço (inútil porque não o consegue) de uniformização ortográfica. A maioria dos manuais traduzidos no Brasil que eu revi estão escritos assim e, provavelmente, no Brasil até são textos perfeitamente aceitáveis, não sei, nem discuto. Mas em Portugal não. As traduções utilizadas em Portugal têm forçosamente que ser feitas por tradutores portugueses, em Português de Portugal, para que se possam cumprir os critérios exigíveis. E isso não basta, é preciso que o tradutor preencha outros critérios técnicos específicos, cuja discussão ficará para outra altura.

Contudo, há uma batalha contínua para que os dispositivos comercializados sejam acompanhados de instruções adequadas. A realidade é que os fabricantes pressionam os distribuidores portugueses a utilizar as traduções brasileiras em Portugal. Os argumentos são sempre os mesmos: (1) só se produz uma versão em Português e, dado que o Brasil é um mercado maior, a versão a produzir será em Pt-Br ou (2) temos que reduzir custos, por isso há que anular uma das versões em Português; o Brasil é um mercado maior, portanto eliminamos a versão Pt-Pt. Ponto final. Contra-argumentar dizendo que a sintaxe e a terminologia não são aceitáveis para textos que se destinam a profissionais clínicos, que os erros podem provocar acidentes de proporções mais ou menos sérias, é por regra inútil. Algumas vezes, felizmente, o esforço de argumentação é recompensado, e os médicos e enfermeiros em Portugal podem usufruir do privilégio de ler as instruções do dispositivo médico, que adquiriram em Portugal, num Português de fácil e natural compreensão. Sim, aquilo que devia ser um direito, que está previsto numa directiva europeia, que, por sua vez, foi transferida para a lei portuguesa, é no fundo, um privilégio. Quase um favor.

É, portanto, com profunda consternação que vemos o Governo português, que devia defender os nossos interesses, assinar um Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que (defendem alguns) visa unificar a ortografia e resolver todas as diferenças entre ambos os registos do Português.

O Acordo Ortográfico, ao criar esta falsa noção de uniformidade, extremamente nefasta para o Português-padrão, tem um resultado terrível para a tradução, porque enche o mercado português de instruções que quanto mais técnicas, mais incompreensíveis são.

Mas ainda podemos inverter este erro colossal, assinando a Iniciativa Legislativa de Cidadãos. Para saber como assinar e ficar a saber mais pormenores, por favor, visite o portal http://ilcao.cedilha.net/.

(1) Além disso, sou professor do ensino secundário, condição que me obriga a escrever de acordo com o AO. Faço-o sempre desejando que os meus alunos desenvolvam a capacidade crítica para apreciarem as diferenças entre a escrita que faziam e a que fazem agora; e tomem depois a sua opção.