terça-feira, agosto 21, 2012

Kilimanjaro - 21 de Agosto de 2007, terça-feira (3.º dia)


21 de Agosto de 2007, terça-feira (3.º dia)


Programa proposto:
Day 3: Ngorongoro Crater Tour (Ngorongoro–Arusha - 190km about 3:30hrs)
Depart with packed breakfast drive to Ngorongoro Crater for a half day Crater Tour.
Drive back to Kiboko Tented Camp for late lunch, after lunch drive back to Arusha for dinner and overnight at SINKA COURT HOTEL

Acordamos às 05h30, ainda era escuro e, claro!, o gerador eléctrico não funcionava. Tivemos de usar os frontais dentro da “tenda” para conseguir alguma orientação no escuro de breu. A Isabel, corajosa, conseguiu sozinha e no escuro chegar primeiro que todos ao pequeno-almoço. Só depois começou a alvorecer.
Às 07h35 partimos para a visita à Cratera do Ngorongoro. A manhã apresentava-se cinzenta, o céu ameaçava chuva, e à medida que íamos subindo para a boca da cratera o nevoeiro cerrava e não nos deixava ver a beleza da paisagem.
[Contar episódio do Luís, na recepção do Parque, em que perdeu a carteira]
[Contar episódio do miúdo americano que foi muito solícito para tirar uma fotografia ao grupo; mas que não deixou que o fotografássemos]
Logo depois, às 07h48, passámos o Ngorongoro Gate.
[Contar episódio em que o Fernando tentou mijar atrás de um arbusto e foi logo avisado pelo Eliezer]
O Eliezer explica-nos que “ngorongoro” é o nome do badalo das vacas dos Maasai. Quando começámos a descida para a cratera o tempo abriu e possibilitou-nos termos a noção da enormidade do espectáculo. No interior, a imensidão de uma planície gigantesca, a perder da vista, rica de animais, os mais variados, tal como ontem. Já se tem considerado que este local encerra a maior concentração de vida selvagem do mundo: inúmeras espécies de aves, predadores (como os leões, e as hienas), animais de grande porte (elefantes, rinocerontes, hipopótamos, búfalo africano), necrófagos (exemplo: abutres), manadas de herbívoros (gnus, zebras…), delicadas e ágeis gazelas, pitorescas famílias de javalis; e os impagáveis diversos grupos de macacos: ora dolentes, ora determinados, quase sempre divertidos.
Não é fácil, na circunstância destes safaris feitos à medida de pequenos grupos de turistas, observarem-se as imagens dos documentários especializados da National Geographic, que nos mostram a violência da predação e das relações bióticas entre as diferentes espécies animais. Eventualmente o acaso da sorte traz um desses momentos de espectáculo, mesmo que sem grande dramatismo. Mas às vezes com o dramatismo todo! Foi o caso, por exemplo, do que, algures, também em África, um pequeno grupo semelhante ao nosso pode testemunhar, que envolveu na luta pela água e pela sobrevivência, uma cria de búfalo, um grupo de leoas (que avançavam para a cria em caça organizada), um crocodilo (que irrompeu da água num ataque invisível e explosivo à mesma cria de búfalo); e ainda a manada de búfalos a que a cria pertencia, na hora em que os animais se aproximam dos charcos para matar a sede.
A cria, apanhada por uma das leoas, reagiu, esperneou, lutou pela vida; e a certa altura conseguiu mesmo escapar-se dos caninos da leoa que a prendia. Mas, ali à borda da água, cai logo presa nas mandíbulas ainda mais mortíferas do crocodilo. Continua a lutar, o pobre animal. Entretanto, os búfalos, que tinham começado por pôr-se em fuga ao primeiro ataque das leoas, eis que voltam! A leoa e o crocodilo disputam o infeliz, mas esforçado, pedaço de carne juvenil, à beira de esgotar as forças. Os búfalos voltam numa imagem impressionante. Estão todos cerrados uns contra os outros. Formam uma massa larga de patas poderosas e cornos ameaçadores. Resfolegam e reclamam o pequeno ser que lhes pertence. Quando seguramente já resistia com as derradeiras energias, a pequena cria – Oh, milagre! - consegue soltar-se das mandíbulas que procuravam impor a lei do mais forte. E eis que escapa!... no instante, no único pedacinho de tempo viável, suficiente para que naqueles corpos enormes colados uns contra os outros, que desenhavam uma impressionante força colectiva em movimento uníssono, não se sabe como, se abrir um buraco, por onde a cria, esgotada de tanto esforço merecedor de vitória – Sim, aquela cria ali ganhou o direito de viver!... –, entrou e se perdeu (ou melhor, se ganhou), no meio de tantos corpos iguais ao seu, solidários com ela, como todos gostaríamos de sentir muitas vezes da parte dos da nossa própria espécie.
Esta ocorrência está já há vários meses no site do nosso projecto, que tivemos a felicidade de conhecer por indicação oportuna da nossa amiga João Cordeiro, que segue, nos Estados Unidos, o projecto do Kilimanjaro desde a primeira hora.
            Almoçámos, por volta das 13h00, uma pequena refeição volante, que nos tinha sido fornecida no Lodge. Parámos o jeep junto a um pequeno lago repleto de hipopótamos. Foi o momento e o local em que nos confrontámos com a maior concentração de pessoas, turistas, na sua maior parte; e um grupo de estudantes e professores, certamente em visita de estudo. Ou seja, aquele local era como se fosse a estação de serviço em que o motorista de longo curso estaciona para a pausa de descanso, a meio da grande viagem.
Sem qualquer esforço, quase que por atracção natural, instintiva, o nosso grupo encontrou-se junto do grupo escolar; pouco depois, o Fernando falava já com os professores, completamente rodeado de alunos, que observavam tudo em grande silêncio, provavelmente sem perceber qualquer palavra trocada entre os seus professores e os professores que eles não sabiam que o eram também. A certa altura, trocavam-se moradas, e prometiam-se contactos futuros.
Não quisemos perder a oportunidade de contactar directamente com os alunos que, fardados, todos por igual, com a farda que o anfitrião, que na véspera cantou para nós, não pode comprar para os seus irmãos, por isso se vendo obrigado a tirá-los da escola[1], continuavam a olhar-nos em silêncio, não ousando qualquer gesto ou passo que pudesse ser alvo de censura de algum dos professores. Avançámos, então, nós para eles.
O Fernando levava, pendurado ao pescoço, o seu pequeno par de binóculos e apercebeu-se da curiosidade que os rapazes, que fixavam os olhos nesse pequeno equipamento pessoal. Tirou os binóculos do pescoço e estendeu-o para as mãos dos rapazes que estavam mais próximo. Eles esperaram ainda por um sinal dos professores que lhes permitisse aceitar o convite que o Fernando lhes estendia. Pouco depois, como nos habituámos a dizer na gíria da formação dos professores, “quebrou-se o gelo”. Os professores também queriam espreitar pelos binóculos. Disponibilizámos-lhes outros binóculos e, pouco depois, ouvia-se já a voz de muitos dos alunos; o Man’el e a Cristina assumiram a sua condição de professores e distribuíam, como podiam, indicações para o uso adequado dos binóculos. Estávamos encantados com o encanto das crianças por aquele bocadinho tão cheio com tão pouco!
O tempo não dava para mais. Tiraram-se fotografias, renovaram-se promessas de contactos futuros, desejaram-se felicidades no futuro e fizeram-se despedidas[2].

Depois de almoço, afinal, sempre fomos presenteados - fomos deliciosamente surpreendidos!... - com a tal cena “à la National Geografic”. Inclusivamente, tivemos a felicidade de a registar num pequeno documento vídeo[3]! Não houve, até agora, dia que esse espírito mágico do Kilimanjaro não nos presenteasse com alguma coisa que nos fizesse sentir ali como desejados e bem-vindos! Outro momento a trazer-nos a pitada que acentua o sabor da vida selvagem, na sua pureza e na sua espontaneidade.
Quando estávamos parados, fosse por que razão fosse, olhando, de pé, à volta, apareceu, no meio do capim, um pequeno felino, que deduzimos tratar-se de uma fêmea porque trazia pendurada na boca uma ainda mais pequena cria. As passadas eram firmes, mas o animal parecia deslocar-se em movimentos ziguezagueantes, como se não soubesse bem para onde quisesse ir.
Não identificámos o animal logo ao princípio. Só pouco de pois o Luís pôs o grupo a pensar no animal, identificando-o claramente: tratava-se de uma fêmea cerval. Hipotetizámos que a mãe procurava um lugar para pousar a cria em segurança. Pouco tempo depois de o animal atravessar o caminho mesmo à nossa frente, continuando, do outro lado, com o mesmo tipo de comportamento, vimos uma hiena aproximando-se de nós pelo mesmo caminho do cerval. Vinha devagar, de focinho empinado, farejando o ar. E acabou por atravessar o caminho bem perto do sítio onde, momentos antes, a mãe passou o filhote, à procura de esconderijo.

 Já tínhamos perdido o cerval de vista. Agora já só víamos a hiena. Finalmente, deixámos de a ver também. O jeep arrancou. Que terá acontecido depois, fora da nossa vista? Será que o filhote se salvou? Será que a mãe cerval conseguiu ludibriar a hiena faminta? Em nós ficará para sempre a dúvida. E sempre que gigantescas paisagens de Ngorongoro guardadas na memória voltarem ao nosso pensamento, virá também a imagem do pequeno filhote na boca da mãe, coruja a seu modo, como o instinto animal manda que toda a mãe de filhote seja. E, se calhar ainda com uma pontinha de ansiedade, a pergunta: será que a mãe conseguiu salvar o seu bébé?...
O relógio marcava 15h26 quando saímos do parque. Nesta altura, o dia estava lindo, cheio de sol.
          De regresso a Arusha, constatámos que dispúnhamos de tempo.
Primeiramente, tempo para procurar numa casa de comércio à beira da estrada, souvenirs Maasai, de origem de confiança, segundo as palavras do guia e motorista Eliezer. A seguir, tempo para outra paragem para “negociar” a compra de mais do verdadeiro artesanato Maasai,
Depois, quisemos tomar contacto mais de perto com as gentes locais, mesmo que isso não estivesse previsto na programação de actividades contratada com a agência. Insistimos com o Eliezer para parar numa das aldeias por onde passássemos. Diga-se, em abono da verdade, que não foi preciso insistir muito. Ele era uma pessoa delicada e dócil; e nós éramos um grupo cordato, de trato fácil e amigável. Ele só queria encontrar um local que fosse absolutamente seguro para os seus passageiros e para o próprio veículo. Pouco depois estávamos numa “esplanada” a beber uma cerveja.

A conversa fez-nos saborear o tempo. A certa altura, “coscuvilhávamos” o que à nossa volta as pessoas bebiam e comiam. Não deixámos de ser premiados no nosso esforço: acabámos por tomar contacto – o primeiro - com uma das especialidades gastronómicas locais em gastronomia – o ungali –, que um grupo de homens, certamente habitantes locais, comia numa mesa ao lado. Tratava-se de uma farinha branca que eles enrolavam com molho e pedaços de carne e comiam com visível prazer. Ficámos curiosos e desejosos de experimentar. Por isso, quando chegamos ao hotel – o mesmo do primeiro dia – resolvemos experimentar a especialidade já nessa mesma noite. Provámos ungali com carne de porco, de galinha, com bife, com peixe, etc. Foi uma novidade; agradável para uns, sensaborona ou decepcionante para outros.
De qualquer maneira, o dia ficou ainda marcado por duas outras ocorrências merecedoras de relato.
A primeira, aconteceu por volta das 17h40. Já em estrada asfaltada, num longo pedaço de recta que subia lentamente, uma, depois outra; e finalmente uma terceira girafa, atravessaram, no seu passo característico, a estrada, lá quase no topo da lomba. Em contra-luz, os corpos esguios em passada lenta e cadenciada, desenhavam figuras negras que se moviam contra o alaranjado cada vez mais forte que vinha dos lados do monte Meru, deixando-nos presos do fascínio daquele quadro belo e inesperado.
A segunda ocorrência fez-nos registar no caderninho de apontamentos: 18h15. E conta-se em duas palavras: lá ao longe, a caminho de Arusha, surgia aos nossos olhos, magnífico, na silhueta que desenhava quase no horizonte pinceladas enérgicas de branco brilhante, o Kilimanjaro. Parecia que aparecia para nos perguntar: Então, que tal?... Gostaram das coisitas que vos preparei?... Sei onde vão amanhã. Força!... Vou ficar muito contente em ter-vos bem perto. Boa sorte! Que tudo vos corra bem!...


[1] Ver desenvolvimento deste tema em Modos de vida,
[2] Ver desenvolvimento deste tema em
[3] Ver anexo n.º x, ………………………………………

segunda-feira, agosto 20, 2012

Kilimanjaro - 20 de Agosto de 2007, segunda-feira (2.º dia)


20 de Agosto de 2007, segunda-feira (2.º dia)


Programa proposto:
Day 2: Arusha – Manyara (120km about 2:30hrs)
After breakfast drive to Kiboko Tented Lodge for lunch, after lunch have a game drive in Lake Manyara National Park. Dinner and overnight at Kiboko Tented Lodge.
Nota: A bagagem para Zanzibar entrega-se à Rose. Recebe-se em Moshi

05h00. Somos acordados pelos apelos à oração feito pela voz metalizada esforçada que saía do altifalante da mesquita que, verificávamos agora, ficava ali mesmo do outro lado da rua.
06h00. Alvorada. Antes já praticamente todos nós apercebêramos de um pequeno tremor de terra; duas vezes o chão se sacudiu. Mais um brinde de boas-vindas à nossa chegada à Tanzânia. Pelo menos, um acontecimento com algum impacto. Como que para que consciencializássemos a natureza telúrica do espaço mágico que agora pisávamos. Na costa oposta da imensa massa continental africana, há séculos, o Adamastor aparecera à frente dos portugueses, a atemorizá-los, a pô-los à prova. Para que não falhassem no respeito que naquelas regiões era devido.
Não foi assim que interpretámos os sinais que o Kilimanjaro nos mandava. Pelo contrário, a montanha parecia contente de nos ter nela. E esforçava-se para que a conhecêssemos em todas as suas dimensões, esforçava-se para lhe sentíssemos as mais ínfimas pulsações. Chovia. Era uma chuva miudinha, muito cinzentona, como que para acentuar a ambiência telúrica.
07h10. Pequeno-almoço: sumo de maracujá, ovos mexidos, pão de forma, doce de goiaba, papaia, bananas (muito pequeninas) e melancia.
Saímos finalmente do hotel, em direcção ao escritório da ML Tours, onde recebemos as boas-vindas oficiais, a cargo da já cada vez mais nossa amiga Rose Shaidi, nosso principal contacto até ao momento. A Rosa conduziu um pequeno briefing de apresentação geral do programa de toda a estada. Após o briefing fizemos entrega de algumas lembranças ao pessoal da ML Tours, cuidando especialmente de dar destaque ao galhardete da JFSMO (Junta de Freguesia de St.ª Maria dos Olivais), a entidade que fez questão de apoiar a dimensão cultural e educativa da expedição ao Kilimanjaro. Deixámos ainda à guarda da empresa a bagagem de que não teríamos necessidade nos dois dias seguintes, nos safaris do Lago Manyara e da cratera de Ngorongoro.
Ainda em Arusha fomos trocar dinheiro (dólares por moeda local, os xelins tanzanianos) e o Fernando foi comprar um cartão local para fazer chamadas e tentar activar a Internet, o “Tigô”.
Fizemo-nos à estrada e o percurso, ao longo da estrada, não se coibiu de nos mostrar aquilo que queríamos ver: os primeiros vestígios das aldeias de cubatas africanas características da tribo Maasai.

Passámos pelo Kiboko Tented Lodge, onde iríamos pernoitar. Aí almoçámos e escolhemos os quartos para o grupo.
Cada uma das tendas tinha à entrada a figura de um animal selvagem que o identificava. Coube-nos o Leão, o Búfalo e o Leopardo. Os quartos eram simples, mas muito agradáveis e as camas eram totalmente rodeadas por redes mosquiteiras. Os geradores de luz eléctrica só funcionavam entre as 19h00 e as 23h00. A partir dessa hora, a selva cobria-nos com o seu manto negro e os animais nocturnos rodeavam-nos... Para nos proteger o descanso, claro!, não para que ficássemos temerosos.
Após o almoço fomos visitar o Parque Nacional do Lago Manyara. A pitada de sal, a aguçar o paladar, continuava. Uma operação de auto-stop, que ao princípio tivemos dificuldade em identificar enquanto tal, mas que a demora na troca de palavras e a acentuação dos semblantes do nosso motorista e de um dos polícia acabaram por nos fazer perceber que o que se estava a passar era sério e obrigou ainda à apresentação do Eliezer na esquadra local. Pequeno momento de tensão, a trazer-nos à ideia algumas imagens de televisão de procedimentos policiais sumários de alguns países de África. Aguardámos. Ao longe, de dentro do jeep, observámos o Eliezer a falar com o que parecia ser o polícia-chefe. Depois de uma breve troca de palavras, o nosso motorista-guia voltou. Estava tudo resolvido e poderíamos continuar o nosso caminho. Não fizemos mais perguntas.
A chuva manteve-se praticamente toda a manhã, tal como tinha acontecido durante a noite. Mas quando chegámos ao Lago Manyara, as condições atmosférias estavam nitidamente melhores.

Tema de jornada n.º x – O Lago Manyara, parque nacional da Tanzâzia
            Parece que Ernest Hemingway, que eternizou num conto as neves do Kilimanjaro (“… grande como um mundo, muito alto e incrivelmente branco à luz do Sol…”[1]) terá dito sobre o parque nacional de Manyara, O mais bonito que alguma vez vi em África”.
            O parque tem uma superfície de 330km2, 200 dos quais ficam cobertos pela água do lago na época do ano mais húmida. É considerado o local ideal para se tomar contacto com a tremenda diversidade de aves africanas. Num dia especialmente feliz, consegue-se observar pelo menos uma das quatro centenas de aves já identificadas nesta região magnífica.
            Geologicamente assume a importância de se constituir como a região que se estende na base do Vale do Grande Rifte, uma escarpa de 600m que se prolonga por dezenas de quilómetros.


            Praticamente logo ao início da viagem Parque adentro, o motorista-guia Eliezer chamou-nos a atenção para a árvore sagrada ali e noutras regiões africanas: o embondeiro, a árvore “de cabeça para baixo”, designação imposta pela imagem das copas nuas hiper-ramificadas. A tradição oral africana diz que um dia, depois da criação do mundo, foi dada uma árvore a cada animal para a plantasse. O embondeiro foi entregue à hiena, que, com a representação que a mesma tradição africana faz deste animal (que não abona muito a favor da sua inteligência), plantou a sua árvore assim mesmo, de cabeça para baixo.
O Eliezer não tinha - não podia ter - a noção da nossa costela histórica e cultural africana, donde quase geneticamente resulta um certo tipo de familiaridade nostálgica desta espécie arbórea. O embondeiro aparece frequentemente na prosa e na poesia da nossa literatura; nos relatos das experiências de vida trabalhosa, anos a fio, no Ultramar; nas histórias das guerras forçadas contra os movimentos de libertação das ex-colónias africanas; nas canções que os nossos trovadores trouxeram inspiradas na ambiência das savanas iguais à que era agora a nossa vez de percorrer, sentir e respirar. Mas não deixámos de olhar respeitosamente, e em silêncio, o embondeiro para que o guia apontava. Também não deixámos de guardar uma, e mais outra, e ainda outra fotografia, embondeiro a embondeiro.

São plantas que podem atingir troncos gigantescos, de 10m de diâmetro. Guardam água, e tudo nelas se aproveita. O tronco para a madeira, a casca para a produção de fibras e substâncias medicinais; as folhas, as flores e as sementes, para além dos frutos, são comestíveis.


O nosso safari confirma a grande diversidade de animais anunciada. O parque é realmente muito rico em vida selvagem, sejam os animais de grande porte (elefantes e hipopótamos, por exemplo), sejam as tais centenas de espécies de aves.
Há uma imagem que quase se impõe na memória de todos: é a das margens do lago marcadas por grandes manchas de flamingos e pelicanos, pontuadas aqui e ali pelos hipopótamos, em que todos parecem cooperativamente partilhar o potencial alimentar daquelas bordas lamacentas.

Nas estruturas edificadas na entrada do parque, criadas para receberem os visitantes, pudemos ler num dos cartazes:
As quatro famílias linguísticas mais antigas do mundo são todas africanas. Khoisan, Bantu, Nilo-Saharan e Cushitic. Todas estas famílias linguísticas estão representadas nas línguas que hoje em dia se ouvem na região do Lago Manyara. Muito perto dos locais onde os fósseis humanos mais antigos do mundo foram encontrados.
Mto wa Mbu ou “Rio do Mosquito” é a aldeia da diversidade cultural desta região para onde várias tribos convergiram e formaram uma mistura linguística composta pela maior parte das línguas tribais faladas na Tanzânia.

 Sim, pareceu-nos importante guardar registo de mais estes factos da dinâmica de intercâmbio cultural entre os povos. Eu sou eu e a minha circunstância, disse um dia José Ortega e Gasset. Por analogia, a afirmação também parece aplicar-se com propriedade a cada uma das realidades culturais específicas. No fundo, são os encontros circunstanciais de grupos de homens, em contextos geográficos determinados que promovem e consolidam a riqueza da diversidade intercultural. Quer dizer, durante séculos e séculos, foi predominantemente assim, independentemente até da forma mais pacífica ou violenta com que os povos se foram encontrando uns com os outros.
A alma do Kilimanjaro continuava connosco. Não poderíamos sair do parque sem que um frisson dos fizesse sentir na espinha, de alto abaixo, a natureza selvagem de África. Não, não estávamos a fazer a visita a um jardim zoológico, nem observávamos o espectáculo de uma realização cinematográfica a três dimensões. Não!... O elefante que se pusera ali à nossa frente, preenchendo completamente o caminho de terra batida, expectante, de grandes orelhas a abanar lentamente, de olhos fixados no nosso veículo e tromba balouçando à frente e atrás, sim!... era mesmo de carne e osso!... Ele não estaria ali em jeito de receber-nos de braços abertos… Foi um momento de ambiência bem selvagem… O Eliezer, muito mais conhecedor do que nós do que por ali acontecia, redobrou imediatamente de prudência e aprestou-se logo a fazer recuar o jeep... Da ideia passou à acção. O elefante avançou pelo espaço que lhe libertávamos à frente. Parecia manter o que nos também parecia ser uma atitude ameaçadora. Tivemos de recuar mais. Um pouco mais ainda. A distância entre nós e o elefante aumentava. Aproximávamo-nos já de uma curva mais acentuada. Demos algum tempo. A certa altura, o elefante parou e acabou por deixar o caminho, desaparecendo pachorrentamente pelo seu lado direito. O Eliezer resolveu avançar, com muita prudência. Lá estava ele, à nossa esquerda. O elefante arrancava folhas às árvores e alimentava-se. Parámos, mantendo o jeep pronto a arrancar a qualquer instante. Se o elefante nos permitisse, ainda lhe tiraríamos algumas fotografias.  Falávamos baixinho uns com os outros, fascinados ainda por aquela massa enorme do paquiderme, e deixando que o batimento cardíaco retornasse a pancadinhas de maior repouso.
A temperatura do dia andara estavelmente à roda dos 28º C. Mas, naquele instante, parecia que tínhamos sido tomados por um súbito salto ainda mais para cima no termómetro!...


17h45. Saída do parque nacional do Lago Manyara.
Levámos para lá a expectativa de ver e fotografar os leões trepadores. Mas acabámos por não os ver, risco a que está sujeito quem se entrega a observação “quase” naturalista da vida selvagem. O nosso guia comentou que o parque está agora muito empobrecido. Se assim era, interrogaram-se alguns de nós, como seria antes, quando o parque fervilharia em toda a sua pujança animal?... De facto, pudemos observar ainda muita coisa.
Regressámos ao Kiboko Lodge e relaxámos no banho. Ainda dispúnhamos de algum tempo, aproveitámo-lo dar um pequeno passeio antes de jantar, para abrir o apetite. Sabíamos já que na cozinha se confeccionava um prato especial expressamente preparado para nós. Era um prato típico com banana de sabor a batata, arroz e carne. Uns apreciaram mais que outros o guisado. Depois de jantar o responsável pelo Lodge relaxou também, o atendimento principal tinha sido feito e tinha corrido bem. Sentou-se ao pé de nós, fez-nos companhia, falou dele, da família, da escola, e do investimento pessoal que fez naquelas instalações turísticas. Cantaram-se canções e contaram-se histórias[2], tendo-se feito mesmo um pequeno registo digital de uma pequena canção sobre o Kilimanjaro.
No pequeno espaço exterior coberto, à entrada da sala do restaurante, um indivíduo novo tinha exposto no chão um conjunto razoavelmente variado de souvenirs, a que o grupo não foi indiferente. Olhámos, apetitosos, os artigos expostos, com a convicção, naquela ambiência de amizade que se estabelecera, que se poderiam adquirir os “verdadeiros” panos Maasai, que assim, à primeira vista, se parecem com qualquer coisa entre os panos de toalhas de mesa e os tecidos escoceses.. E – coisa não insignificante - adquiri-los a preço justo!


[1] Hemingway, E. As neves do Kilimanjaro. Lisboa, Editora Livros do Brasil, 2005, pág. 38.
[2] Ver Modos de vida e Temas de educação em Temas do Projecto Kilimanjaro e Educação.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Parabéns a António Nobre, à beira do mar

http://www.gutenberg.org/files/27535/27535-h/27535-h.htm
Hoje seria o dia de aniversário de António Nobre.
Fernando Pessoa, a fazer fé nas suas notas autobiográficas, leu o "Só" aos 18 anos de idade. Num dia leu metade e no dia a seguir acabou.
Num texto que é publicado pela primeira vez em 1915 (tem, portanto, 26 ou 27 anos de idade), Pessoa diz que "De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. (...) ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. (...) Quando ele nasceu, nascemos todos nós." (http://arquivopessoa.net/textos/3119)
Filho da brisa que soprava do mar, fascinado pela lonjura prateada do horizonte que o poente lhe trazia, António Nobre, várias vezes cantou o mar, prendeu-se por ele, pelas suas fainas, e pela sua história:


Quisera ser um grande marinheiro, 
Um novo astro entre os milhões de sóis! 
Ser de Albuquerque um filho aventureiro, 
Pertencer à família dos Heróis! 
«Quisera ser um grande marinheiro», Leça, 1887


Um dia, ainda em 1887, António Nobre escreve assim a um amigo:


«Tens o mar, que é o melhor conselheiro depois de nossos Pais.»
«Ouve uma coisa que te digo: nunca te decidas sobre uma questão qualquer 
sem primeiro teres meditado nela à beira daquelas negras águas. Verás como 
aquele eterno runrum das ondas que se transformam a pouco e pouco numa voz 
deliciosa e amiga capaz de deitar a um canto a voz da Patti (…).» 

Todos nó somos produto das nossas circunstâncias, como falava Gasset das influências à volta das quais crescemos e nos fazemos. Também eu tenho fascínio pelo mar, também eu tenho memórias ainda vivas do seu cheiro intenso, húmido, na respiração da minha infância.
O que, todavia, me pergunto agora é qual é o mar do transmontano, do beirão ou do alentejano do interior? O mesmo conselho profundo, telúrico, a seguir ao dos Pais, estes buscarão também. A que "mar" vão eles buscá-lo?...
Muito bem, António, vinha eu apenas dar-te um abraço de parabéns e pus-me a divagar por estas coisas. Sabes que tenho um carinho especial por ti, sabes que, para mim, o Manoel e a Coimbra da tua carta é o Manuel e a Coimbra do meu pai.
Vá, um abraço de parabéns, António! Seguramente muitas mais vezes te procurarei em muitos mais aniversários - os teus, os meus, os do Manuel; e os do Mar.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Anima Sana in Corpore Sano

Tirada em 2006, a fotografia prova
 onde foi Usain Bolt buscar inspiração...
A publicação de uma notícia sobre uma investigação conduzida pela Faculdade de Motricidade Humana, que conclui que os estudantes que praticam mais atividade física têm melhores resultados escolares nas disciplinas de Português, Matemática, Inglês e Ciências, deve fazer sorrir os filósofos da Velha Grécia, da mesma maneira que Higgs faz sorrir Aristóteles, num diálogo muito bem concebido por Marcelo Gleiser, e que pode ser lido aqui. Éter de Arsitóteles, bosão de Higgs.
A verdade conhecida, mas que só pode ser certificada pela ditadura do método experimental.
Muito bem, que a gente sorria, mas que a gente não deixe de tomar devidamente em conta a verdade e o valor desta asserção clássica sobre o corpo e a mente, de que a ASICS soube tirar partido.
Só falta lembrar, a propósito da parte final deste artigo, o ditado popular que diz "Cedo deitar, cedo erguer, dá saúde e faz crescer."


Educação

Alunos que fazem mais exercício físico têm melhores resultados escolares

09.08.2012 - 21:15 Por Bárbara Wong, Catarina Gomes
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Diariamente, é recomendado fazer uma hora de actividade física moderada e vigorosaDiariamente, é recomendado fazer uma hora de actividade física moderada e vigorosa (Foto: Paulo Pimenta)
 Os alunos que fazem exercício físico têm melhores resultados escolares, conclui uma investigação junto de três mil alunos realizada, ao longo de cinco anos, por uma equipa de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade Técnica de Lisboa (FMH/UTL).
Os jovens com aptidão cardio-respiratória saudável tiveram um maior somatório das classificações a Português, Matemática, Ciências e Inglês.

Luís Sardinha, director do Laboratório Exercício e Saúde, da FMH, afirma que existe "a tendência para sobrevalorizar a parte biológica" dos benefícios do exercício físico. E este estudo também os comprova, evidenciando, por exemplo, que "os alunos insuficientemente activos", ou seja, que não cumprem as recomendações de actividade física diária (pelo menos 60 minutos por dia de actividade física moderada e vigorosa), têm maior probabilidade de serem pré-obesos ou obesos, que os miúdos cuja aptidão cardio-respiratória é saudável, decorrente do exercício, têm mais massa óssea, e os que não a têm tendem a ter uma saúde vascular pior.

Mas, para o coordenador do estudo, o resultado mais inovador desta investigação - feita em parceria com o Ministério da Educação e Ciência (MEC) e a autarquia de Oeiras - é o demonstrar que o aumento da actividade física tem reflexos "na parte psicológica, uma dimensão que tem sido menos estudada", nota. "Face à dimensão da amostra", o investigador admite que os resultados possam ser extrapolados para a população escolar.

O chamado Programa Pessoa, co-financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), estudou durante cinco anos (começou em 2007) três mil alunos de 13 escolas do concelho de Oeiras, usando desde acelerómetros, instrumentos que os alunos usavam na cintura para medir os seus tempos sedentários e activos; ecografias para medir a espessura das camadas da artéria carótida; cronómetros para medir a performance cardio-respiratória dentro de um determinado circuito com cadência progressiva.

O que se concluiu é que os alunos do 3.º ciclo com aptidão cardio-respiratória saudável têm melhores classificações a Matemática e a Língua Portuguesa e que, no geral, os alunos com aptidão cardio-respiratória saudável têm um maior somatório das classificações a Português, Matemática, Ciências e Inglês. Ou seja, o exercício físico tem efeito positivo no aproveitamento escolar, uma conclusão que estava sobretudo estudada em idades mais novas, nota.

"Esta linha de investigação vem demonstrar a importância do jogo e actividade física informal e organizada para todas as crianças em contexto escolar", defende Carlos Neto, presidente da FMH/UTL.

Mais auto-estima

A explicação para este efeito foi já estudada noutras investigações: "o exercício promove a formação de novos neurónios e uma maior interacção entre neurónios, que, por sua vez, promovem maior sensibilidade e desenvolvimento cognitivo".

Mas não só. É sabido que a adolescência é uma idade turbulenta, tendencialmente acompanhada pela diminuição de indicadores ligados à qualidade de vida, refere o investigador. O que este estudo também permitiu concluir é que, aumentando a actividade física, cerca de uma média de duas horas por semana, melhoraram indicadores como "a auto-estima, afectos positivos, competência, autonomia, relacionamentos positivos e boas motivações". Pelo contrário, constata-se que os rapazes e as raparigas que fizeram menos exercício desceram nestes indicadores.

Além da produção de resultados estatísticos, o Programa Pessoa esteve no terreno para tentar mudar comportamentos em termos de exercício físico e nutrição, dando acções de formação a professores das várias disciplinas, e produzindo quatro manuais. Nos alunos que revelam maior apetência para a prática desportiva, "um dos objectivos do programa foi criar uma porta de entrada à maior participação desportiva".

Luís Sardinha afirma que "nos jovens há uma luta muito grande entre comportamentos sedentários, associados às tecnologias, e exercício físico" e, defende Sardinha, nesta faixa etária, "temos que mudar o discurso". "Nos jovens, a mensagem assente nos benefícios que o exercício traz à saúde não é eficaz", diz, "estão numa idade em que pensam que são super-homens e não têm capacidade para se colocarem na linha de vida aos 40 anos". O investigador sabe que apelar a estes jovens não tem o efeito desejado.O investigador sublinha que o que é importante é que os jovens "identifiquem o retorno que o exercício lhes traz com situações do dia-a-dia: têm de perceber que [se fizerem exercício] dormem melhor, interagem com mais confiança com o namorado ou a namorada, podem ter melhores notas, relacionam-se mais positivamente com os colegas e os pais".

Se o exercício físico se revela tão importante para os alunos, como é que Carlos Neto comenta a redução da carga horária da Educação Física e a nota da disciplina no final do secundário deixar de contar para todos os alunos? "Um corpo sedentário a par de um currículo escolar apenas centrado nas aprendizagens socialmente úteis (corpos sentados) será um caminho problemático no aumento do "analfabetismo e iliteracia motora" dos cidadãos", responde, acrescentando que "as posições assumidas pelo MEC [são] paradoxais e incompreensíveis".

O ideal seria que, ao terminarem o 12.º ano, estes alunos fossem "consumidores educados do exercício físico", isto porque "está identificado que este é o período de maior abandono da actividade física, por ser uma altura que os jovens adultos adoptam novas rotinas, quer arranjando emprego ou indo para a universidade. Este é um período crítico para o reconhecimento do valor do exercício físico", conclui Sardinha.

O Ministério da Educação e Ciência rejeita que exista uma redução efectiva das horas da disciplina, lembrando que cabe às escolas tomar essa decisão. Quanto ao secundário, a nota contará apenas para os estudantes que queiram. Portanto, "não existe assim qualquer desvalorização da disciplina", informa. 

Dormir nove horas

Os alunos que dormem menos de oito horas por noite têm maior risco de serem pré-obesos ou obesos, conclui o estudo, confirmando assim uma relação já identificada em estudos anteriores. O tempo ideal de sono nas idades estudadas (dos 13 aos 15 anos) é de mais de nove horas, diz o coordenador do Programa Pessoa, Luís Sardinha. 

"Os miúdos que dormem menos têm um Índice de Massa Corporal superior. Dormir oito ou mais horas por noite reflecte-se também num maior aproveitamento académico", aponta. Os alunos que dormiam um mínimo de oito horas por noite tiveram melhores classificações a Matemática e Língua Portuguesa, revelam os resultados. (http://www.publico.pt/Sociedade/alunos-que-fazem-mais-exercicio-fisico-tem-melhores-resultados-escolares-1558459?all=1)

segunda-feira, agosto 13, 2012

De volta a Zanzibar, pela escrita de Fernando Pessoa

No próximo domingo faz 5 anos que parti, com um grupo de amigos, ao encontro das neves do Kilimanjaro e da cultura de Zanzibar.
Agora que já não tenho tanta quantidade de atenção dedicada aos Jogos Olímpicos, lembro-me de outras coisas. Nesta altura, é natural que esta aventura em África, que tão importante foi para mim, tome a frente de tudo. Num livro que remexi por acaso encontrei este poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa passou por Zanzibar). Penso que nunca o tinha lido antes. A primeira estrofe do poema é mesmo aquilo que a gente gosta de encontrar nos poetas. Só não subscrevo o último verso: eu agora já quero pouco, não sofro - nunca sofri - com a ansiosa avidez do desejo partir, descobrir e encontrar. Aliás, é essa a minha diferença em relação a Pessoa em todo o poema: eu saboreio o prazer e a consciência do apaziguamento; e estou muito contente de ter nascido. Mudarei outra vez, alguma vez?...

Tenho um destino guardado, um só, lá chegarei sem pressas. A não ser que uma surpresa, uma coisa inesperada, o impeça. E então?...


Álvaro de Campos

PASSAGEM DAS HORAS [b]
http://arquivopessoa.net/textos/827

PASSAGEM DAS HORAS
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô... Ghi — ...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagáscar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.
Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
E preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há-de ser de mim? Que há-de ser de mim?
Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?
Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...
Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos,
Só assim — ai de mim! —, só assim se pode viver
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco — não sei qual — e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse
Amei e odiei como toda a gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a excepção, o choque, a válvula, o espasmo.
Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa da Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das ideias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direcção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, ó mãe, a nossa perdida vida...
Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma coisa vinda directamente da natureza para mim.
Por isso se para mim materna, ó noite tranquila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, ó noite, sobre a minha fronte...
Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu castelã, tu, dona pálida, vem...
22-5-1916
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. 
 - 26c.
1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944.

domingo, agosto 12, 2012

Citius, altius, fortius - BALANÇO 2012. A próxima vez será no Rio de Janeiro, em 2016

Os Jogos Olímpicos, a edição de Londres, vão acabar hoje.
Dediquei-lhes tempo e atenção como há muito não fazia. E sinto-me contente do o ter feito.
Num balanço puramente pessoal, de alguém que pouco ou mesmo nada sabe da vida dos atletas e das teias desportivas, políticas, económicas, e sei lá que mais, que envolvem esta festa desportiva, faço o seguinte balanço:
MOMENTO MAIS ALTO
- Liu Xiang. O que fez depois da maldade com que o seu "calcanhar de Aquiles" (em sentido praticamente literal da expressão, para além, evidentemente, do sentido metafórico) o traiu foi notável. Já falei muito disto no Facebook. Penso que nunca mais me esquecerei do comportamento notável do atleta. Fez-me apetecer reclamar perante todo o mundo a minha costela chinesa: sou natural de Macau, na freguesia da Sé.
RESERVAS PARA TODOS OS MOMENTOS SEGUINTES
- Não conheço e nunca conhecerei as histórias pessoais, únicas, específicas de cada um dos atletas que participa nos Jogos Olímpicos. Se as conhecesse, certamente modularia as minhas impressões sobre estes Jogos e sobre os atletas da minha simpatia e os outros. O pouco que conheço fez-me acarinhar especialmente Tom Daley, Gladey Tejada e Lin Dan. Confesso que fiquei desapontado (esperançosamente  desapontado, ele é ainda muito novo) com Tom Daley, e temo que ele esteja a ficar refém da máquina de marketing que funciona poderosamente à volta dele; gostei muito que Gladey Tejada tivesse competido e terminado a Maratona feminina e tivesse batido o seu record pessoal; gostie que Lin Dan tivesse ganho a medalha de ouro na prova de Badminton, numa final tremenda!
AS VARIÁVEIS DO SUCESSO NOS JOGOS OLÍMPICOS:
- Parece que se confirma a importância de se ser um país grande (geograficamente falando, e populoso) e poderoso economicamente.
- Continua a dizer (quem tem obrigação de estar bem informado sobre isso, os jornalistas da especialidade) que é graças ao desporto que muitos atletas negros dos Estados Unidos vencem as dificuldades e a segregação sócio-económica que continuam a viver.
OS SINAIS, OS AVISOS, AS ESPERANÇAS
- Os sucessos dos países pequenos (por exemplo, a Holanda) e o sucesso dos países pobres (africanos, por exemplo) continuam a mostrar que a sabedoria e o valor humano básico está bem para além do poder dos dólares, dos euros, das moedas orientais e outras. E tudo isso é uma lição para a tacanhez intestina e interesseira, mais do que dos atletas portugueses - que sofrem e se esforçam tanto quanto os outros -, dos dirigentes desportivos e políticos do nosso país.
A DIMENSÃO HOMO PSICHOLOGICUS (de carne e osso; e coração apertadinho; cheio de fé e crenças)
- O choro convulsivo de Felix Sanchez, que correu a sua prova com a fotografia da sua avó e o nome da avó escrito nos sapatos. E que disse que se choveu no momento da entrega das medalhas foi porque, no céu, a avó chorou de alegria com ele.
VIVA O PRAZER DO DESPORTO!
- Provavelmente não é "apenas" assim, mas ver a bonomia de Usain Bolt, depois confirmada por um colega seu, que disse, numa entrevista, que o segredo é correr para se divertir, correr pelo prazer de correr, é, sinceramente, bonito de ouvir e muito mais bonito de ver! Qual aviso à navegação, vale bem a pena que a generalidade dos desportistas, sobretudo os de alta competição, pensem no que o atleta jamaicano disse. Por isso não posso estar de acordo com Rosa Mota que diz que quer que não seja Bolt a ganhar a prova dos 100 (ou dos 200?, já não sei bem...) por causa do jeito brincalhão dele. Com franqueza, Rosa Mota!...
APREENSÃO, A MINAR TUDO O QUE QUERO PENSAR SOBRE OS J.O.
- As notícias do continuado, reiterado e cada vez mais sofisticado doping, feito por gente que conehce as coisas por dentro.
O PODER DA CONDIÇÃO PSICOLÓGICA
- Várias vezes pude ver que a pequena diferença entre o grande vencedor olímpico e os outros competidores foi a força da convicção psicológica, da crença, da resistência e da recuperação psicológica; e do auto-domínio.  Neste campo, os atletas americanos, em geral, foram os melhores de todos! Fantástica, a preparação psicológica que os americanos trazem para as grandes competições! Mesmo para quem não morre de amores - bem pelo contrário, como é o meu caso - pela sociedade americana e a sua cultura dominante.
A VERDADE DESPORTIVA
- O recurso frequente ao registo vídeo, ao "olho de falcão", para que a verdade desportiva não fose adulterada e o erro humano fosse controlado.
A FALHA MONUMENTAL DA ORGANIZAÇÃO INGLESA
- Tem a ver com a chama olímpica. Lindíssima! Muito bela!... Mas fundamentalmente imperfeita e ao arrepio do ideal olímpico que manda que esteja sempre vigorosamente acesa e visível desde que os Jogos começam até que acabem: condicionada pelo espetáculo, foi acendida no centro do relvado; para ser posta no seu devido lugar teve de ser reduzida à dimensão de um facho (e mesmo esse, não sei...). Depois, ao invés de ficar altaneira para ser referência dentro e fora do estádio olímpico, qual farol sinalizador, foi colocada num espaço discreto dentro do estádio, irremediavelmente empobrecida.
AS PRÓXIMAS OLIMPÍADAS
- 2016. Seguramente, muita coisa estará diferente na minha vida. Para já, desejo poder vibrar como fiz com estas. O tempo o dirá. Talvez alguns dos "filhos queridos" de agora estejam também presentes no Rio de Janeiro. E certamente criarei outros.