quarta-feira, setembro 10, 2025

#TOLERÂNCIA255 - QUANTA AGRESSÃO O MUNDO TOLERA MAIS?

 #TOLERÂNCIA255 - QUANTA AGRESSÃO O MUNDO TOLERA MAIS?

Ouvi de manhã esta carta. Quando pude, fui procurá-la na Net. Traduzi-a depois no DeepSeek para português de Portugal.

O título do texto é mesmo este: "A Última Mensagem de Bertrand Russell: A Guerra Israel-Palestina"

Esta declaração sobre o Médio Oriente tem a data de 31 de Janeiro de 1970 e foi lida a 3 de Fevereiro, no dia seguinte à morte de Bertrand Russell, numa Conferência Internacional de Parlamentares, no Cairo:

«A última fase da guerra não declarada no Médio Oriente baseia-se num profundo erro de cálculo. Os bombardeamentos profundamente em território egípcio não vão persuadir a população civil a render-se, mas vão fortalecer a sua determinação para resistir. Esta é a lição de todos os bombardeamentos aéreos. Os vietnamitas, que suportaram anos de intensos bombardeamentos americanos, responderam não pela capitulação, mas por abater mais aeronaves inimigas. Em 1940, os meus próprios

compatriotas resistiram aos bombardeamentos de Hitler com uma unidade e determinação sem precedentes. Por esta razão, os actuais ataques israelitas irão falhar no seu propósito essencial, mas, ao mesmo tempo, devem ser vigorosamente condenados em todo o mundo. O desenvolvimento da crise no Médio Oriente é simultaneamente perigoso e instrutivo. Durante mais de 20 anos, Israel expandiu-se pela força das armas. Depois de cada etapa desta expansão, Israel apelou à "razão" e sugeriu "negociações". Este é o papel tradicional do poder imperial, porque deseja consolidar com o mínimo de dificuldade o que já tomou pela violência. Cada nova conquista torna-se a nova base da proposta de negociação a partir da força, que ignora a injustiça da agressão anterior.

»A agressão cometida por Israel deve ser condenada, não apenas porque nenhum estado tem o direito de anexar território estrangeiro, mas porque cada expansão é uma experiência para descobrir quanto mais agressão o mundo tolerará. Os refugiados que rodeiam a Palestina às centenas de milhar foram recentemente descritos pelo jornalista de Washington I.F. Stone como "a mó moral à volta do pescoço do judaísmo mundial". Muitos dos refugiados entram agora na sua terceira década de existência precária em assentamentos temporários.

»A tragédia do povo da Palestina é que o seu país foi "dado" por uma Potência estrangeira a outro povo para a criação de um novo Estado. O resultado foi que muitas centenas de milhares de pessoas inocentes foram permanentemente tornadas sem-abrigo. A cada novo conflito, o seu número aumentou. Por quanto tempo mais está o mundo disposto a suportar este espectáculo de crueldade gratuita? É abundantemente claro que os refugiados têm todo o direito à pátria de onde foram expulsos, e a negação deste direito está no cerne do conflito continuado. Nenhum povo em qualquer parte do mundo aceitaria ser expulso em massa do seu próprio país; como pode alguém exigir que o povo da Palestina aceite um castigo que mais ninguém toleraria? Um reassentamento justo e permanente dos refugiados na sua pátria é um ingrediente essencial de qualquer acordo genuíno no Médio Oriente.

»Dizem-nos frequentemente que devemos simpatizar com Israel devido ao sofrimento dos judeus na Europa às mãos dos Nazis. Não vejo nesta sugestão qualquer razão para perpetuar sofrimento algum. O que Israel está a fazer hoje não pode ser desculpado, e invocar os horrores do passado para justificar os do presente é uma hipocrisia grosseira. Israel não só condena um vasto número de refugiados à miséria, não só muitos árabes sob ocupação são condenados ao governo militar; mas Israel também condena as nações árabes, que apenas recentemente emergiram do estatuto colonial, a uma contínua empobrecimento, uma vez que as exigências militares têm precedência sobre o desenvolvimento nacional.

»Todos os que querem ver um fim ao derramamento de sangue no Médio Oriente devem garantir que qualquer acordo não contenha as sementes de um conflito futuro. A justiça exige que o primeiro passo para um acordo seja uma retirada israelita de todos os territórios ocupados em junho de 1967. É necessária uma nova campanha mundial para ajudar a trazer justiça ao tão sofrido povo do Médio Oriente.»(1)

Esta carta tem mais de 55 anos, quase 56.

Repito: "A tragédia do povo da Palestina é que o seu país foi "dado" por uma Potência estrangeira a outro povo para a criação de um novo Estado." A conivência dos poderosos continua a prevalecer sobre o concerto das nações e o desejo da Paz e Justiça mundial. Quanta agressão, imperial e colonialista, o Mundo aguenta mais?

(1) https://abdelmoumenchouichi.medium.com/bertrand-russells-last-message-israel-palestine-war-694eb7a7a99e

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terça-feira, setembro 09, 2025

#TOLERÂNCIA254 - AFECTOS: BARALHAR E VOLTAR A DAR

 #TOLERÂNCIA254 - AFECTOS: BARALHAR E VOLTAR A DAR

Estou a falar de afectos, de emoções e sentimentos. Penso que é salutar a gente, de vez em quando, fazer um 'check up' ao que sentimos, ao que pensamos, ao que dizemos deles; e ao que fazemos com eles. Não deixar a coisa assentar em registos e concepções que, aos poucos, com o tempo, se vão viciando, perdendo clareza e saúde.

É por isso que o texto que o Miguel Esteves Cardoso assina hoje no Público, na coluna "Ainda Ontem", com o título "Tratemos-nos como elefantes" me parece um texto especialmente feliz porque leva-nos ao remanuseamento das concepções dos afectos, ao tal 'check up' que considero útil, muito saudável. p MEC que não me leve a mal transcrever o texto na íntegra.

Imaginem a conversa que o texto não dará numa das nossas sessões de reflexão e troca de ideias acerca da Tolerância e dos afectos, valores e atitudes a que habitualmente a Tolerância se associa.

«Dizem que amar faz bem e odiar faz mal, mas amar também faz mal. Todas as emoções extremas fazem mal. Separá-las artificialmente não engana ninguém.

»Veja-se o amor. Esquecemo-nos de dormir, de comer, dos amigos, da família, e dos nossos próprios interesses enquanto seres independentes e humanos. Odiar faz muito mal. Adoece e mata. Envenena e entristece. É um triunfo não odiar. Custa, mas vale a pena. O coração é pequeno e não cabe lá nada: para quê enchê-lo do que não presta?

»O que faz bem não é amar. Mas também não é a indiferença. A indiferença é o contrário da vida. O que faz bem é uma indiferença que se enternece. É um encanto passageiro, uma compreensão dos

outros, um não ligar e deixar viver: um não querer impingir a ninguém o que pensamos.

»O objectivo é tentar pensar nos outros seres humanos como pensamos nos elefantes. Temos pelos elefantes um misto de respeito, ternura e de tolerância. Deixamo-los ser como são, mesmo quando são maus, por sabermos que dali por pouco serão espantosamente bons.

»Já fomos maus com os elefantes — e muitos de nós ainda somos. Mas estamos a melhorar, a sentirmo-nos cada vez mais abençoados por vivermos no mesmo mundo que eles.

»Amamos os elefantes? Não, quase nunca pensamos neles. Só quando os vemos é que nos lembramos do muito que gostamos deles. Mas gostar também dá para o torto. As pessoas de quem gostamos desiludem-nos.

»É muito melhor a indiferença fascinada, a curiosidade que consente, a aceitacão fácil, o sentirmos que andamos todos ao mesmo, e que estamos todos no mesmo barco. Ninguém tem o direito de se achar melhor do que os outros — ou, então, toda a gente tem.

»Se um elefante aparecer no cimo da rua, deambulando em direcção a nós — digamos, uma manifestação de extremistas, gritando em favor de uma coisa que abominamos — arranjamos sempre maneira de deixar que o elefante passe.

»Fazemos bem. Temos um bocadinho de medo, mas também um bocadinho de respeito e de compreensão.»

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segunda-feira, setembro 08, 2025

#TOLERÂNCIA253 - SÃO TODAS AS RELIGIÕES INTOLERANTES?

 #TOLERÂNCIA253 - SÃO TODAS AS RELIGIÕES INTOLERANTES?

O Instagram trouxe-me hoje de volta este pensamento cuja autoria é comummente atribuída ao famoso Arthur Clarke (1917-2008), autor e inventor britânico: «Uma das grandes tragédias da humanidade é que a moralidade foi sequestrada pela religião. Por isso, as pessoas agora assumem que a religião e a moralidade têm uma ligação necessária. Mas a base da moralidade é, na verdade, muito simples e não requer de todo uma religião.»

Seja qual seja o autor, sim, penso que é preciso fazer pedagogia que separe o que tanto está incrustado nas mentes culturais dos Povos, sobretudo, arrisco-me a dizê-lo, de credos religiosos essencialmente monoteístas, como é o caso do nosso País.

Ao princípio da tarde, li uma notícia no The Times (edição de hoje, sendo autor Kaya Burgess), com o título "Pessoas não-religiosas mantêm a fé em Deus e na vida após a morte — algumas até rezam.", que diz o seguinte:

«Um estudo concluiu que nem todos os britânicos que afirmam não seguir qualquer fé religiosa podem ser classificados como não-crentes totais, constatando que um terço acredita numa vida após a morte e um quarto acredita num deus. Quase metade da população, 46%, pode ser classificada como 'não

afiliada religiosamente', mas menos de metade deste número não possui crenças espirituais, de acordo com um relatório que analisa especificamente as opiniões daqueles que não pertencem a qualquer fé, descritos como 'religious nones' (não-religiosos). [...]

»[...] O Reino Unido tem a quarta proporção mais alta de ateus entre os países estudados, atrás da França, Suécia e Austrália. Tem a sexta maior proporção de pessoas não-religiosas, atrás do Japão, Países Baixos, Suécia, Austrália e Coreia do Sul. As pessoas não-religiosas no Reino Unido estão entre as mais propensas no mundo a afirmar que a religião 'encoraja a intolerância', ocupando o quinto lugar globalmente, em conjunto com os Países Baixos e a Grécia.

»No censo de 2001, 15% da população afirmou não ter religião. Em 2011, este número aumentou para 25%. Em 2021, atingiu 37,2%. Foi predominantemente o aumento de pessoas não-religiosas durante este período que fez com que a proporção de cristãos caísse abaixo de metade pela primeira vez.

»Os investigadores afirmaram: 'Apesar de o ateísmo ser comummente entendido como não acreditar em Deus, pequenas percentagens de inquiridos em muitos locais dizem ser ateus em resposta a uma questão de identificação religiosa, mas afirmam acreditar em Deus ou outras crenças religiosas ou espirituais noutras questões. Alguns académicos da religião argumentam que a inconsistência ou "incongruência" é na verdade a norma, e não a excepção, quando se analisa a fundo as identidades, crenças e práticas religiosas das pessoas em todo o mundo.'» [...]

Como tenho provavelmente um preconceito contra as religiões monoteístas, já que as considero as mais intolerantes de todas (as que têm na Bíblia e na Torá os textos sagrados fundamentais), fui fazer uma pesquisa rápida na Net, que me falou de intolerância religiosa na China e no Japão contra... os católicos. Imediatamente imaginei os missionários cristãos a tentarem a conversão dos gentios, de todos os gentios e de todos os poderosos, à fé monoteísta.

Independentemente de eu estar certo ou não, o que parece que é certo é, como mostra o estudo, a ideia de que a religião encoraja a intolerância afasta as pessoas dos credos e dos templos. Curiosamente, pessoas que querem acreditar em Deus e na vida depois da morte, só que querem viver a sua crença numa ambiência de tolerância que não encontram nas igrejas e templos tradicionais.

Entre as igrejas monoteístas, há alguma que não mantenha permanentemente o fito da conversão dos "infiéis"? Há alguma que não mantenha permanentemente o fito da obediência total? Obediência, mais do que a Deus, aos chefes religiosos bem terrenos? Para mim, um dos reptos mais desafiantes para os que creem em Deus é o dito que encontrei logo na primeira página dos "Ditos e Feitos dos Padres do Deserto": "Dizia o abade Mios: «Obediência por obediência. Se alguém obedece a Deus, Deus obedece-lhe.» Uau!... O dito reflecte uma relação pessoal, individual, entre Deus e o crente: «Deus obedece-lhe», o que é isto?

Seja o que seja, o que ressalta é a necessidade da Educação: informar, ajudar a pensar, a conversar, a trocar ideias e pontos de vista; a tomar decisões, a fazer opções; a aceitar a naturalidade dos erros e das inflexões que eles sugiram ou determinem.

Num tom de brincadeira, a chamar a atenção para a importância da "catequização" (mais educação, menos catequização, esta aqui entendida como inculcação ideológica), hoje também vi no Instagram um pequeno vídeo em que o autor explicava como os japoneses se tornaram profundos apreciadores de café. Muito arreigados à tradição do chá, os japoneses resistiram a todas as estratégias de introdução do café nos hábitos de consumo na sociedade japonesa. Resistiram a todas menos a uma: a da Nestlé. Que fez a Nestlé? Diz o senhor (Atenção! Não fui ainda verificar se é verdade ou não, talvez um dia, quando for ao Japão, confirme a tese do senhor do Instagram) que a Nestlé apostou na distribuição de gomas, rebuçados, caramelos e quejandos com sabor a café entre as crianças. Estas, quando cresceram, estavam "viciadas" no café. Verdade ou mentira, o que este caso anedótico mostra, mais uma vez, é o valor da Educação. De pequenino é que se torce o pepino, não é?

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domingo, setembro 07, 2025

#TOLERÂNCIA252 - TOLERAR O DESAFIO DA MODERAÇÃO

 #TOLERÂNCIA252 - TOLERAR O DESAFIO DA MODERAÇÃO

Em declarações recolhidas por Cécile Cazenave et Nabil Wakim, publicadas na edição de hoje do "Le Monde", François Sarano, antigo membro da tripulação do comandante Cousteau, é presentemente um cientista e mergulhador que defende a multiplicação de reservas marinhas, numa conversa centrada no presente e no futuro do Mediterrâneo.

A última frase da publicação do Le Monde é a seguinte: «Podemos viver felizes neste planeta se renunciarmos a um consumismo extractivista que não tem limites.» A que abre a entrevista, em jeito de subtítulo diz assim: «O Mediterrâneo pode voltar a ser rico, é preciso dar-lhe tempo.»

No caderno de apontamentos, para memória futura, escrevo: "#PEDAGOGIA252, como fazer a pedagogia da renúncia".

A certa altura da entrevista, os jornalistas perguntam a Sarano: «Quais são as consequências das alterações climáticas no Mediterrâneo?»

Ele responde: «Uma atmosfera muito quente provoca uma grande evaporação. A água torna-se muito

mais salgada e muito mais pesada. Vai afundar-se e circular por todo o Mediterrâneo a 400 ou 500 metros de profundidade, para depois sair pelo estreito de Gibraltar. É, portanto, todo o sistema de circulação oceânica que é modificado devido ao aumento da temperatura atmosférica.

»A vida marinha, por outro lado, é diretamente afectada pelo aumento das temperaturas oceânicas. Todos os organismos marinhos – baleias, tartarugas, tubarões, holotúrias, estrelas-do-mar, ouriços-do-mar, atuns-rabilhos, sardinhas – passam, de facto, durante a sua vida, por um curto período nas águas superficiais, na forma de ovos e larvas que não toleram a mais pequena variação de temperatura ou salinidade.

»Nos últimos dois anos, as águas superficiais do Mediterrâneo, até aos 70 metros de profundidade, sofreram episódios de calor extremo terríveis. Não são apenas os animais fixos – corais, gorgónias, esponjas – que sofrem o impacto deste aquecimento, mas todos os organismos planctónicos. Estamos a redefinir por completo o mapa dos ecossistemas.»

O Deus de Einstein não brincava aos dados, mas parece que o Ser Humano está constantemente a fazê-lo. Penso que conscientemente ou inconscientemente muitos de nós — incluindo os que se assumem como estando alertados e pensam-se como praticando comportamentos amigos dos ecossistemas e do Planeta — se deixam levar pelo «É só mais esta vez...», pelo «No meio de tantos milhões, que diferença faz mais um ou menos um...», ou por outras desculpas que denunciam que, na verdade, não estamos mesmo dispostos a renunciar ao excesso e a optar pela moderação.

Tolerar ou aceitar que não podemos querer tudo, que temos mesmo de moderar os consumos, não é fácil. Cá está: pede renúncia. Verdadeiramente, nunca abandonámos o mito da abundância. Nem a terrível máquina da publicidade e propaganda empresarial e económica nos deixa reduzi-lo um pouquinho que seja.

Uma conjugação, por muito difícil que seja, entre as acções da Educação e da Política é necessária. Passa-me pela cabeça chamar ao esforço a Teoria dos Jogos, que ela aprofunde a consciência, a sensibilidade, a habituação a que quem ganha é quem renuncia ou que quem renuncia é quem ganha.

Fui "falar" com um dos 'chatbots' habituais e pedi-lhe que inventasse um jogo de renúncia para ser jogado em sala de aula. Esta primeira abordagem deixou-me satisfeito, bastante satisfeito! Tão satisfeito (espremi-o bem!) que a seguir "falei" com os outros. Tenho agora 4 jogos de sensibilização pedagógica ao valor da renúncia individual num ambiente em que não se conhecem as atitudes dos outros (competitiva ou cooperativa) e em que todos correm o risco de perder se não cooperarem satisfatoriamente.

Inspirei-me na ideia que tenho do que era a tradição cooperativa dos produtores de conhaque ao tempo do pai de Jean Monnet, e que tanto inspirou este obreiro central do Ideal da União Europeia. Não será fácil aos jovens, sobretudo em experiências pontuais, saberem onde começam e acabam a Tolerância, a Aceitação e a Renúncia para um bem comum quando é indispensável o uso de recursos (naturais ou outros; finitos, embora renováveis) necessários a todos, mas que precisam ser geridos com moderação também por todos, inibindo as tentações de "Salve-se quem puder", ou as de uso tão intenso que mata, as galinhas de ovos de ouro.

Depois de testar os jogos, arranjarei maneira de os partilhar publicamente.

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sábado, setembro 06, 2025

#TOLERÂNCIA251 - TOMA LÁ, DÁ CÁ. O ATLÂNTICO PELO MEIO

 #TOLERÂNCIA251 - TOMA LÁ, DÁ CÁ. O ATLÂNTICO PELO MEIO

Hoje foi um daqueles dias em que a oportunidade para a escrita se ficou pelo mínimo dos mínimos. À pressa, dei uma olhadela pelos jornais, os nacionais e os estrangeiros.

Chamou-me a atenção a ocorrência de um jornal francês (Le Monde) ter duas notícias acerca das turbulências ligadas à intolerância da liderança de Donald Trump, e um jornal norte-americano (edição norte-americana do FTWeekend) ter uma notícia sobre o radicalismo político, intolerante, que aumenta

na Assembleia Nacional Francesa.

Como não tenho tempo de aprofundar, hoje, estas leituras, vou guardar os jornais para ler calmamente, mais tarde, quando tiver tempo.

Mas fica o pensamento acerca da maneira como cidadãos, Povos e países se vêem ao espelho e como vêem os outros. Mais uma vez tomo contacto com a necessidade de produzir materiais que ajudem a tomarmos consciência dos estereótipos e preconceitos duns em relação aos outros.

Também tomo consciência de que é importante cada um saber mais acerca da organização política dos outros países e como funcionam as instituições oficiais ligadas aos poderes legislativo, executivo e judiciário do nosso e dos outros países. E a cultura de cidadania, mais activa aqui, mais passiva ali.

Pronto, fica este registo guardado no bloco-notas.

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sexta-feira, setembro 05, 2025

#TOLERÂNCIA250 - OS RECURSOS DA IA AO SERVIÇO DA PEDAGOGIA DA TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA250 - OS RECURSOS DA I.A. AO SERVIÇO DA PEDAGOGIA DA TOLERÂNCIA

Hoje, na escola, aprendi coisas muito interessantes com o meu querido colega Miguel Simões acerca dos recursos da Inteligência Artificial nas escolas, no ensino.

Cheguei a casa e fui logo experimentar duas delas, ambas com muito sucesso. Criei 3 canções de embalar para o elemento mais novo da família, o Henrique, que está à beira de fazer 6 meses.

A outra foi o NotebookLM. Peguei nos textos que escrevi sobre a Tolerância até ao dia 24 de Junho (ou seja, 177 textos. Serão 366) e pedi-lhe que os analisasse e fizesse um resumo em vídeo. Aqui está o que ele produziu.

Fico satisfeito, muito satisfeito! Se um dos meus grandes objectivos é partilhar pensamentos, perspectivas, opiniões, práticas, tentativas-e-erros, tudo isto à volta da Pedagogia e Educação da Tolerância, sim, acho que estou a consegui-lo — o que me dá um alento muito grande para o terço que falta da viagem.

O 'link' do meu vídeo: https://studio.youtube.com/video/EDVyAaXpm6c/edit

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quinta-feira, setembro 04, 2025

#TOLERÂNCIA249 - DO ÉDITO DE MILÃO AO ÉDITO DE VERSALHES

 #TOLERÂNCIA249 - DO ÉDITO DE MILÃO AO ÉDITO DE VERSALHES

"Tropecei" hoje numa obra sobre a Revolução Francesa. Pus-me uma pergunta, pesquisei na Net, cheguei ao Édito de Milão.

O Édito de Milão é de 313, o Édito de Versalhes é de 1787. O Édito de Milão concede liberdade de culto religioso aos cristãos. O Édito de Versalhes concede o acesso aos direitos cívicos aos não-católicos. O Édito de Milão refere-se ao Império Romano. O Édito de Versalhes refere-se ao Reino de França e de Navarra. O Édito de Milão foi proclamado pelos imperadores Constantino (Ocidente) e Licínio (Oriente). O Édito de Versalhes foi determinado por Luís XVI.

Postas assim as coisas, apetece dizer: «As voltas que o mundo dá...»

O Édito de Milão não tornou o Cristianismo a religião oficial do Império e o Édito de Versalhes não deixou de manter o Catolicismo como credo religioso oficial do Estado e não abriu a liberdade de culto aos não-católicos.

Nenhum dos documentos contém a palavra "tolerância", mas o Édito de Milão está historicamente consagrado como o primeiro grande marco de expressão oficial da Tolerância; e o Édito de Versalhes, a História também o consagrou como "Édito da Tolerância".

Um e outro documento dão testemunho das imperfeições, das insuficiências, das limitações que vão da intenção à acção; e também da amplitude da acção.

Só sob o reinado de Teodósio I (Édito de Tessalónica, 380 d.C.), o Cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano. O Édito de Milão declarou neutralidade religiosa e liberdade de culto para

todas as religiões, terminando oficialmente com as perseguições.

Quanto à liberdade liberdade religiosa dos reinos de França e Navarra, só seria finalmente estabelecida com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, no início da Revolução Francesa.

Não são simples, nem directas, nem automáticas, as mudanças e as transformações que acontecem por decretos. Aliás, os próprios decretos, o mais das vezes, são resultados de dinâmicas de mudança social ou cultural (ou económica, ligada ao poder do dinheiro e de quem o tem) que já estão a acontecer, e os decretos reflectem-nas. Reflectem uma nova ambiência, um novo olhar: ambiência e olhar de Tolerância que já anda no ar...

São assim os difíceis e complexos processos da Tolerância ao nível dos grandes grupos humanos. Vem-me à cabeça a impressionante história da cidade de Lviv...

João Ribeiro-Bidaoui, adivinho que terá na cabeça a monumental obra "Estrada Leste Oeste", de Philippe Sands, quando escreve assim no Diário de Notícias em 14 de Março de 2022:

«Lviv, ou Leópolis, já foi polaca, austríaca, austro-húngara, novamente polaca, russa, ucraniana ocidental, alemã, soviética e, desde a queda do muro de Berlim, ucraniana. Quis o destino que nessa cidade, quase tão velha como Portugal, dois jovens, o austro-húngaro Lauterpacht e o bielorrusso Lemkin, frequentassem, em momentos diferentes, a mesma universidade.

»Foram ambos pupilos de um professor de Direito chamado Makarewicz, durante a Grande Guerra e nos anos que se lhe seguiram. Tal facto é absolutamente extraordinário porque Lauterpacht, cujo nome baptiza o Centro para o Direito Internacional da Universidade de Cambridge, é o pai da formulação "crimes contra a humanidade". E Lemkin é o criador do neologismo "genocídio". Para tal coincidência cósmica não terá sido alheio tudo o que consabidamente ouviram de Makarewicz sobre os massacres dos arménios pelo império otomano, um dos crimes mais hediondos e menos conhecidos da história.»(1)

Já várias vezes aqui constatei que vivemos tempos de, isso mesmo, hediondas intolerâncias e muita desumanidade. É verdade, os valores do respeito, da justiça e da equidade nunca estão completamente adquiridos.

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(1) https://www.dn.pt/arquivo/diario-de-noticias/todos-os-caminhos-da-justica-vao-dar-a-lviv-14677654.html

quarta-feira, setembro 03, 2025

#TOLERÂNCIA248 - SER TOLERANTE REDUZ A VIOLÊNCIA

 #TOLERÂNCIA248 - SER TOLERANTE REDUZ A VIOLÊNCIA

Há muito que mantenho o interesse por encontrar na Comunicação Social doutros países escritos que falem da Tolerância. Hoje encontrei qualquer coisa no New York Times: o comentário dum leitor a um texto de opinião no jornal, na edição do dia 21 de Agosto.

Num texto de opinião, a que deu o título "A Ascensão do Niilismo de Direita", o autor, David Brooks, diz, resumidamente, que a hegemonia progressista [Penso que ele quer dizer democrática, nos EUA, e de Esquerda na Europa] na cultura, educação e 'media' nas sociedades ocidentais está a gerar uma reacção violenta por parte de cidadãos e partidos mais conservadores, quer dizer, de Direita. Perante um ambiente que consideram asfixiante, muitos adoptam uma postura de conformidade silenciosa, enquanto outros se revoltam.

Diz David Brooks que a revolta assume duas formas principais: uma de 'desmantelamento' de instituições progressistas e outra, mais radical, de 'nihilismo'. O nihilismo rejeita não apenas as ideias progressistas, mas a própria noção de verdade e valor, defendendo a destruição pura do 'status quo', sem propor alternativas. [O jornalista italiano de há poucos dias também falava disto, não era?]

O autor alerta ainda para que este nihilismo, alimentado pelo declínio da fé nas instituições e pela perda de referências culturais, é uma força cultural destrutiva que pode levar ao caos, traçando um paralelo histórico com períodos turbulentos na Rússia e na Alemanha. A única nota positiva apontada é um renovado interesse de jovens por igrejas tradicionais, numa busca de significado e fé num mundo percepcionado como vazio.

A resposta que hoje o o NYT publica, o tal comentário que me chamou a atenção, contrapõe o seguinte:

«O Sr. Brooks escreve que não compreende bem por que razão as pessoas instruídas são mais progressistas a nível social, ignorando o que acontece à medida que nos tornamos mais instruídos. Primeiro, nós lemos, expondo-nos a pontos de vista mais diversificados. Segundo, vamos para a universidade, geralmente para longe das comunidades onde crescemos. E terceiro, somos ensinados a

pensar de forma crítica, o que leva a sermos cépticos em relação à autoridade.

»Estas experiências ensinam-nos a ser mais empáticos. Também percebemos que a violência não resolve problemas. Suprimir a diversidade exige violência. Ser tolerante reduz a violência.

»É por isso que os autocratas detestam a educação. Os autocratas querem ovelhas, e não pensadores independentes.» (Richard McCann, Davis, Califórnia)

O sr. Richard McCann, não sei se é especialista de alguma coisa... A resposta parece-me dum cidadão ponderado, com uma mundividência interessante; e escrita com clareza, cordialidade e respeito. Gostei muito de ler o que ele escreve (em tão pouco!) sobre Educação, Diversidade, Empatia, Violência e Tolerância.

Vou guardar numa pequenina pasta o texto de David Brooks, a apreciação de Richard McCann; e, já agora, as apreciações de outros leitores ao mesmo texto que a edição de hoje do NYT também traz. Vão dar, de certeza, uma sessão de discussão e reflexão sobre a Tolerância muito interessante.

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terça-feira, setembro 02, 2025

#TOLERÂNCIA247 - A PSICOLOGIA GENÉTICA DA TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA247 - A PSICOLOGIA GENÉTICA DA TOLERÂNCIA

Psicologia Genética eu sei o que é: é o ramo da Psicologia que se ocupa com o estudo do surgimento, expansão e desenvolvimento das funções psicológicas e do seu declínio desde o nascimento até à velhice. Sim, basicamente é isto

Sobre a Psicologia Genética da Tolerância, pois, não sei nada... Mas gostava muito de saber.

O olhar e o pensamento que se tem sobre um bebé que observamos longamente tem sempre um lado adultomórfico. Ainda bem! Esse lado ajuda-nos a entender os bebés, e só é negativo quando é único e ocupa todo o espaço mental do adulto que observa o bebé e se ocupa com ele.

A maneira como, em geral, os bebés aceitam o manuseamento que os adultos fazem deles devia-nos fazer pensar... Os bebés toleram tudo. Bem, provavelmente, eu não deveria usar aqui o verbo tolerar, mas sim o verbo aceitar. Se tolerar tem a ver com a diferença e o reconhecimento da diferença, então aceitar, sim, estará melhor: os bebés aceitam.

Quando o bebé faz um esgar de desagrado por um alimento novo está a reconhecer a diferença do alimento ou não? Quando o bebé começa a expressar a "angústia do estranho" está a mostrar que reconhece a diferença daquele rosto ou apenas a tomar consciência (ui!, outra concepção adultomórfica) do não-familiar?

O bebé desde que nasce tem contacto com pessoas que são todas diferentes, mas quando é que a criança percebe que uma pessoas são mais diferentes do que outras? Que quota-parte de responsabilidade cabe ao simples desenvolvimento das funções cognitivas e que quota-parte cabe à educação familiar e à influência cultural?

A aprendizagem por discriminação é uma das principais formas de aprendizagem. Discrimina-se o que não é igual, o que é diferente.

Em que momento é que o bebé (e depois a criança) passa a não aceitar o que reconhece como diferente? É quando os seus processos cognitivos se desenvolvem suficientemente para ter bem claras as diferenças ou quando elas simplesmente lhe provocam desagradáveis experiências de dissonância cognitiva? É quando a influência familiar e cultural se impregna de forma consistente por imitação ou inculcação? É quando as próprias experiências pessoais se acumulam como aprendizagens sociais negativas?

Todas estas interrogações e muitas maus que certamente por preguiça de esforço mental (talvez esteja a ser demasiadamente duro comigo próprio: não será por preguiça, mas não estarem ainda suficientemente clarificadas na minha cabeça), talvez não as devesse trazer a público, mas parece-me, neste momento da viagem, que é um campo por explorar, quem sabe, talvez desperte nalgum leitor a motivação para fazer uma investigação deste assunto e depois produza uma tese ou um relatório interessante.

Aprendemos com Jean Piaget a determinar o surgimento de aquisições cognitivas, por exemplo, a permanência do objecto, a conservação e a reversibilidade, o raciocínio abstracto, etc. Poderemos alguma vez determinar a aquisição da capacidade, ou competência, ou esquema, ou matriz, ou..., ou..., ou..., da tolerância no desenvolvimento do bebé ou da criança?

Alguns colegas meus devem estar a arrepiar-se com algumas coisas ou mesmo tudo que estou a dizer, mas eu estou só a falar para dentro... Não estou comprometido com nenhum contrato de investigação ou tese. Estou em viagem exploratória, alguma vez tinha de vir a esta estação, alguma vez tinha de pensar nisto? A razão derradeira para ser hoje? Se calhar porque andei na rua um bom par de minutos com um bebé de menos de 6 meses ao colo e fui observado o que ele fazia, o que ele olhava — e tanta gente ele olhou! —, até a sombra que ele e eu projectávamos no chão e seguia à nossa frente. Ele, curioso, até se distraiu dos dentes a romper, largou o cordão da chupeta que durante algum tempo foi mantendo na boca, direi que tolerando, ou pacientemente aceitando, o incómodo que se vai espalhando por toda a boca. (Já agora, o "pacientemente" não é também um adultomorfismo?)

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segunda-feira, setembro 01, 2025

#TOLERÂNCIA246 - É PARA SEMPRE: O MEU ÚLTIMO DIA DE FÉRIAS OFICIAL É HOJE

 #TOLERÂNCIA246 - É PARA SEMPRE: O MEU ÚLTIMO DIA DE FÉRIAS OFICIAL É HOJE

Acordei e levantei-me à hora do costume. Preparei-me o desjejum do costume. Como de costume, fui olhando pela janela o nascer do dia e o aparecimento do Sol. Publiquei no Facebook a fotografia do costume.

«Ah, hoje tenho de desfrutar de qualquer coisa... Já sei! Vou à Baixa, há muito tempo que não vou à Baixa.» Assim pensei, assim fiz.

À entrada do Metro, em Chelas, recebi uma chamada dum colega de escola. Ri-me porque já estava à espera de que ele me ligasse. Com muitas risadas à mistura, pusemos a conversa em dia.

Saí na estação do Rossio, tinha duas fisgadas: comer um pastel de bacalhau e tomar um cafezinho e fazer uma visita à Igreja de São Domingos. A tasca que tinha em mente, que pena!, já foi na voragem nas transformações para turistas endinheirados.

Entrei na igreja, o pastel de bacalhau comê-lo-ia do outro lado da Praça do Rossio. Todo o espaço de culto da igreja estava vedado logo ali à entrada, deduzi que ia começar a missa, era para proteger os fiéis das deambulações dos turistas. Nos bancos da igreja, duas pessoas, três, no máximo. Preparo-me para tirar uma fotografia, nessa altura oiço a tradicional saudação do fim da missa: «Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!» Afinal, a missa, vazia de fiéis, estava a acabar.

A igreja de São Domingos é, para mim, um dos lugares, ao mesmo tempo real e simbólico, da Intolerância. Por isso quis ir lá hoje. Foi com um muito nítido sentimento de satisfação que trouxe à consciência as vezes que levei lá os alunos. Sim, por aqui cumpri-me nas minhas funções de professor e

educador. À saída, quis que voltasse a ecoar na minha mente a saudação do padre celebrante da missa: «Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!»

Atravessei o Rossio, com rumo à tasquinha do primeiro troço da Calçada do Carmo. Olhei a montra, lá estavam os desejados. Entrei, pedi um pastel de bacalhau, mais nada. Só antes da última dentada pedi um café cheio. Que bem me soube! Há muito que eu também não saboreava esta combinação. Com o tempo, tinha-se tornado quase exclusiva da reentrada em Portugal quando saio de carro, logo na primeira oportunidade passada a fronteira para o lado de cá. Mas, que diacho!, hoje era dia especial! Muito especial! Na tasquinha, nenhum dos sujeitos do lado de dentro do balcão tem ar de lisboeta, ou sequer de português continental. 3 sujeitos indianos ou paquistaneses. Mas todos os fritos e sandes tinham o aspecto tradicional, que a gente gosta. Ai, aquelas pataniscas de bacalhau que passaram ali à minha frente, quentinhas!... Ainda pus a hipótese de trazer algumas para o almoço.

Paguei, saí, pus-me a subir. O meu fito era a Bizantina, a livraria alfarrabista que é a minha preferida. Ainda no segundo troço da Calçada do Carmo, chego-me ao passeio, uma grande carrinha de entrega de produtos ocupava metade do passeio. Avanço, já quase a encolher-me. Estou a já a meio da carrinha, e ainda antes de se chegar a ela pelo lado da frente, aparece um jovem turista, quase de certeza estrangeiro. Eu estugo o passo, para não o fazer esperar, mas ele não me quis dar a deferência de que eu passasse. Levantou altivamente o queixo e avançou decididamente no pedaço de passeio em que eu já mal cabia. É claro, tive de me encostar à parede. Perante aquela manifesta falta de civismo, olhei-o sempre de frente, nos olhos, e sorri-lhe. Mentalmente, e rindo-me da sobranceria imperial do rapaz, fiquei a desejar que ele fosse dali direitinho à igreja de São Domingos, a levar um oportuno e proveitoso baptismo de Tolerância.

Reparem o que comprei na Bizantina: a lembrar-me de tanta faiança regional de Coimbra que vendi no estabelecimento, ali nas Escadas de São Tiago, do meu avô Pinto, com o estudante de capa e batina no lado esquerdo da fonte, de guitarra na mão, e a tricana, de cântaro ao colo, do lado direito da fonte, comprei "A Tricana no Folclore Coimbrão", de Octávio Sá, numa edição da Comissão de Turismo, de 1942.

A seguir, a lembra-me da Pintalhada, a canção da família que vem dos anos 40 do século passado, comprei o "Cancioneiro" edição do significativo ano, na minha família, de 1962 (ano de nascimento da minha irmã), uma edição do Gabinete de Etnografia da FNAT (que é falada em versos da Pintalhada!), com selecção e prefácio de Fernando de Castro Pires de Lima. São muitas quadras ao jeito das quadras da Pintalhada.

Depois comprei um pequeno opúsculo de título "Primeiro Congresso (Apontamento)", de 1964, da União das Comunidades de Cultura Portuguesa, sobre o 1.º Congresso das Comunidades Portuguesas. Foi mentor e Presidente o Professor Adriano Moreira, que na altura foi apresentado como "Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa; Director do Instituto Superior de Ciências Socias e Política Ultramarina; antigo Ministro do Ultramar". Fiquei impressionado com a imensa diversidade geográfica dos participantes, espalhados por todo o mundo. Vou ler tudo com muita atenção. Outra data familiar: a 1.ª Sessão do Plenário aconteceu no dia 8 de Dezembro de 1964. A minha irmã celebrava 2 anitos, eu estava há 2 meses na escola dos Quinchosos, em Abrantes; e o nosso pai fazia a sua primeira comissão militar em Angola, na Guerra do Ultramar.

Finalmente, comprei, numa edição de 1957, um livro de contos do autor surrealista suíço Maurice Sandoz, "O Limite". A edição original do livro é de 1952 e ele suicidou-se em 1958. Terá sofrido muito, física e psicologicamente, ao longo da vida e a grande fortuna que tinha não conseguia trazer-lhe qualquer alívio.

Finalmente, desci ao Largo Barão de Quintela, a meio da Rua do Alecrim, para dar um abraço ao meu querido aluno de há muitos anos, o Vasco Lopes, lá mesmo do começo do meu magistério de professor do secundário, era uma espécie de abraço simbólico de envolvimento de todos os meus alunos ao longo destes 35 anos na Eça de Queirós, agraço de muita amizade e de muita gratidão. O rapaz não estava, está de férias, mas ainda hoje vai conhecer este texto no Facebook. Noutro dia lhe darei o abraço, que fica, para já, adiado. Talvez para o dia em que me chegue a carta de alforria.

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