segunda-feira, junho 23, 2014

Cristiano Ronaldo, el-rei D. Sebastião e a espada de D. Afonso Henriques

Cristiano Ronaldo, o “CR7” da“Estou com esperança que este ano vai ser o ano da selecção de Portugal”[1]. Em frente aos ávidos jornalistas da protocolar conferência de imprensa da véspera do jogo oficial, o Cristiano Ronaldo respirava serenidade, lucidez e confiança que apaziguava quem pressurosamente escrevia ou gravava, por todos os meios possíveis, o que ele dizia. Na verdade, os jornalistas desportivos e os repórteres das imensas cadeias de televisão vinham gemendo, já nas semanas anteriores, com intensidade quase catártica, ansiedades e angústias acerca do joelho do “melhor jogador do Mundo”; e contagiavam leitores e espectadores com ansiedades e angústias iguais. A preocupação dos profissionais da Comunicação Social adquiriu níveis de legitimidade jornalística quando, no dia 24 de Maio, CR7 reconheceu, finalmente, após ganhar a Liga dos Campeões Europeus, que alguma coisa não ia bem com o seu joelho e que, sim senhor, no jogo que acabara de disputar minutos antes, tinha forçado o joelho.
            O jeito seguro, convicto, de CR7, na esperançosa conferência de imprensa, já tinha sido especialmente marcante no jogo do “play off” de Portugal com a Suécia, que lhe deu a oportunidade tripla – tantas quantos os golos que ele marcou nesse jogo -, de trazer os dedos indicadores à frente do peito, apontá-los com determinação poderosa e absoluta ao chão que os seus pés pisavam e até o mais surdo dos adeptos ouviu e o mais cego dos fanáticos pode ver o que imperialmente ele dizia: “Eu estou aqui!...”. E se ele estava ali, como poderia alguém duvidar da vitória da equipa portuguesa? Se foi assim coma Suécia, por maioria de razão seria agora no Mundial.
            Quantas vezes os portugueses – não apenas o Cristiano Ronaldo – se viram já nesta vertigem que nos leva do sonho à decepção, do céu ao inferno, da glória à derrota, da euforia à depressão?...
            Até os grandes filósofos portugueses (quero puxar da ironia insinuante, mas não sei se ponha as aspas nos “grandes” ou nos “filósofos”) pensam e ensaiam sobre esta proverbial característica do homem português: é fado?... é destino?... é temperamento genético?... é do mar?... é do sol?... é do jardim à beira mar plantado?...
Não me quero meter por aqui… Eu não sou grande, nem filósofo. O que sei é que depois da prova real dos factos e dos acontecimentos, quer queiramos ou não, ficamos – que remédio! - de pés no chão e reconhecemos que tudo não passou de uma ilusão; que sim, que estávamos a sonhar demasiadamente alto. Não digo que estávamos a construir castelos na areia porque eles desfazem-se habitualmente com muita suavidade; usar a imagem do sonho é pôr-nos a cair que nem Ícaros, brutalmente, a levarmos um grande safanão! E é isso que nos acontece sempre.
            Casualmente, calhou que – como tantas vezes a gente diz, “nem de propósito!” - cruzasse hoje o CR7 com o nosso rei D. Sebastião e a espada do mais mítico de todos os nossos reis, o primeiro, D. Afonso Henriques.
            Estou a ler o volumoso trabalho de José Mattoso sobre D. Afonso Henriques. Hoje cheguei à página 169. É dessa página que retiro o seguinte excerto:
“(…) O marquês de Abrantes referia-se ainda ao facto de o pavês de Afonso Henriques ter sido guardado sobre o seu túmulo em Santa Cruz de Coimbra, juntamente com a sua espada, pelo menos até ao século XVI. Quando D. Sebastião partiu para Alcácer-Quibir, pediu aos cónegos regrantes para levar consigo a espada como penhor da vitória que esperava alcançar. (…)”[2]
Ora cá está ela! A tal proverbial ilusão: aquilo lá contra os Mouros eram favas contadas! Alguém duvidava que a os portugueses lá chegariam e venceriam os infiéis? Dizem os miúdos de hoje “depois viraste-te para o lado, caíste da cama e acordaste, nessa altura é que percebeste que estavas a sonhar, não foi?...” Pois, D. Sebastião não caiu da cama, caiu do cavalo; e a malta que estava à volta dele caiu toda também. E lá ficámos nós sem a espada do D. Afonso Henriques![3] O “Agora é que é!...” dos portugueses tem remédio?... Não sei… Tanto quanto a gente sabe – e por mais embrulhados que andem factos, mitos , mentiras e fantasias -, sem essa ilusão a designada “empresa” dos Descobrimentos também não teria acontecido…
            Ora bem, cá p’ra mim, o que faltou neste Mundial à equipa portuguesa foi trabalho, concentração e foco; e há sempre interesses parasitas. Mas é melhor calar-me, disto não sei nada…




[1] Ver, por exemplo: http://vmais.rr.sapo.pt/default.aspx?fil=701518
[2] Mattoso, J. (2007). D. Afonso Henriques. Temas e Debates, p. 169.
[3] Lá teve João Pedro Rodrigues – que certamente bem gostava de ter podido contar com a original espada – que se desenrascar com uma réplica para a vencedora, em terras brasileiras, curta-metragem “O Corpo de Afonso”. “O Corpo de Afonso é uma muito interessante ficção que o jovem cineasta português realizou precisamente sobre a pessoa de carne e osso que teria sido o primeiro rei de Portugal, com a personalidade e das façanhas que [julgamos que] conhecemos… São mesmo conhecimentos cheios de dúvidas, mitos, polémicas; na linguagem que conhecemos a propósito de D. Sebastião, são nevoeiros… muitos e intensos.

terça-feira, junho 17, 2014

Papa Francisco: - Sabe a diferença que existe entre Terrorismo e Protocolo?

Quando (entrevista em 11 de junho) o jornalista Henrique Cymerman questionou o Papa Francisco sobre a sua relação difícil com o "protocolo", o Papa deu-lhe uma resposta magistral! Assim:
Papa Francisco: - Sabe a diferença que existe entre Terrorismo e Protocolo?
Cymerman: - Não...
Papa Francisco: - É que com o Terrorismo pode-se negociar...
Ui!... Que aviso!... Como costumamos dizer, que chapada de luva branca!... As escolas estão cheias de protocolos; a política está cheia de protocolos; as relações institucionais, em geral, estão cheias de protocolos... É evidente que alguns são necessários. Em certa medida, os rituais sociais e culturais são protocolos. Como dizia Konrad Lorenz, servem o objectivo de controlar a agressividade. Mas há rituais, há protocolos; e há muitos exageros de protocolos.
Veja-se hoje como um homem que, como ele próprio um dia disse, "não foi tocado pelo dom da fé - estou a falar de Mário Soares - fala hoje do Papa Francisco num artigo que faz publicar no Diário de Notícias.

quinta-feira, junho 05, 2014

Lhéngua Mirandesa - MANIFESTO an modo de hino

LHÉNGUA MIRANDESA - MANIFESTO AN MODO DE HINO
Momento de especial intensidade emocional, ontem, dia 4 de junho,
na Escola Secundária Eça de Queirós, em Lisboa.

terça-feira, maio 20, 2014

PSICOLOGIA - TRABALHOS MONOGRÁFICOS, EDIÇÃO 2013/14 - 02

Iniciámos ontem a apresentação dos trabalhos monográficos dos estudantes de Psicologia lá da escola.
Hoje seguimos viagem do Reino Unido para a Coreia do Sul: fomos conhecer um caso notável de ir ao chão e levantar-se outra vez; e, inesperadamente, de vitória da vida sobre o espetro da morte.
O segundo registo:
O sujeito do trabalho: Yoon-Sung Young 
O autor: Nuno Rema

sábado, maio 17, 2014

PSICOLOGIA - TRABALHOS MONOGRÁFICOS, EDIÇÃO 2013/14

Iniciámos ontem a apresentação dos trabalhos monográficos dos estudantes de Psicologia lá da escola.
São, em geral, tesouros cheios de muita humanidade, de muita dedicação e enriquecimento pessoal. Partilhados com muito entusiasmo, carinho, companheirismo e solidariedade.
O primeiro registo:
O sujeito do trabalho: Tom Daley
O autor: André Pires
P.S. - A data da fotografia está errada, não é 15, é 16 de maio de 2014.

domingo, maio 11, 2014

Saving the Children HD - Nicholas Winton

Se 15 dias de férias - solitariamente, com risco de vida -, podem garantir a vida a 669 crianças, multiplicando as possibilidades de vida a mais de 15 mil nas gerações seguintes, o que não conseguiremos alcançar solidariamente, com muitos mais dias do ano?
Ah! Os "extraordinários" governantes americanos - os sempre presunçosos defensores da Liberdade - recusaram-se a receber as crianças! "The  United States Government is unable..." Afirma Sir Nicholas Winton que se os EUA tivessem aceitado as crianças, muitas mais crianças teriam sido salvas.

terça-feira, abril 15, 2014

A ansiedade do tempo: Há quanto tempo o homem ocidental se afasta da contemplação?

Há quanto tempo o homem ocidental se afasta da contemplação?
Há quanto tempo o germe da compulsão a estar a fazer qualquer coisa domina as vontades?
Quem sabe, este modo de estar no mundo associado ao valor da apropriação material trouxeram-nos a este estado de capitalismo frenético, individualista, egoísta e depredador.
"É mister limitar a correria sem rumo praticada pela maior parte dos homens, zunindo em direção às casas, teatros e mercados. Metem-se nos negócios alheios e aparentam sempre estarem ocupados. [...] Movem-se desnecessariamente e sem plano algum, como formigas trepando arbustos, indo até ao topo e de volta ao chão, sem nada alcançar. Muitos homens despendem a vida precisamente assim, naquilo que se poderia chamar de frenética indolência. Sentiria pena de alguns deles se os visse correndo apressados, como se as suas casas estivessem a arder." Séneca (século I)

domingo, março 30, 2014

A educação sexual não deve ser ativa

"A educação sexual não deve ser activa. Deve o adulto explicar à criança aquilo que ela quer saber e isso dizia-o Claparède e deve falar-se sempre seriamente nos assuntos. O adulto pode brincar com a criança, brincar com as palavras, fazer trocadilhos e toda a espécie de jogos verbais que entender. Mas quando trata de assuntos sérios deve-os tratar seriamente. Se o adulto for capaz de falar seriamente dos problemas sexuais e dos problemas que se deparam à criança, então, realmente ele está em condições de fazer a educação sexual. A educação sexual não é educação para ser feita a crianças, mas para ser feita a adultos, os pais é que devem ser educados sob o ponto de vista sexual para terem um comportamento capaz de inspirar uma atitude normal na criança." (João dos Santos, texto recolhido da gravação de uma conferência proferida no Porto, na Ordem dos Médicos, em 14 de março de 1957; texto não revisto pelo autor)
Não é por acaso que trago para aqui este pensamento do dr. João dos Santos no mesmo dia em que levei para o blogue "Mais Pessoa Pouco a Pouco" um pequeno apontamento sobre os três princípios da Educação tradicional romana, segundo Cícero -  http://maispessoapoucoapouco.blogspot.pt/2014/03/os-tres-imortais-principios-da-educacao.html

domingo, março 23, 2014

"Controlamos ou somos controlados pelo Facebook?"

O Facebook e o Twitter beneficiam ou prejudicam a nossa felicidade?
http://stewards.snre.umich.edu/sites/alumni.snre.umich.edu/
files/styles/large/public/articles/lama-spring08.jpg?itok=iiTSYrhQ
Dalai Lama: - "Depende do modo como os usamos. Se a pessoa tem uma certa força interior, uma certa confiança, não há problema. Mas se a mente de uma pessoa é fraca, então existe mais confusão. A culpa não é da tecnologia. Depende do utilizador da tecnologia."
(Em Portugal, ver revista Visão, n.º 1098, 20 a 26 de março de 2014, p. 106)


O Dalai Lama tem sido um muito ativo animador de encontros entre gentes de todo o mundo, de muitas especialidades científicas, para reflexão sobre o cérebro, a força das emoções e o poder da inteligência e a mente; na senda da promoção do bem-estar. Tem sido mesmo um esforço notável, por exemplo, no âmbito do Mind  Life Institute.


Do Facebook and Twitter help or hurt our happiness?
It depends on how you use them. If the person, himself or herself, has a certain inner strength, a certain confidence, then it is no problem. But if an individual’s mind is weak, then there is more confusion. You can’t blame technology. It depends on the user of the technology.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Mudar o Mundo - será que está mesmo ao nosso alcance?

Ou é da minha vista, ou não há, hoje em dia, nonagenário, ou mesmo octogenário, de consensual respeitabilidade pública e reconhecida sabedoria humana, que escape à pergunta a que sujeitaram também Noam Chomsky. A pergunta aparece no livro que a Bertrand pôs hoje à venda:
- Tem netos. Que tipo de mundo prevê que herdem?
Parece-me que a resposta de Chomsky não traz o apaziguamento à angústia acerca do futuro que o jornalista e, por via dele, os leitores gostariam de receber:
- Uma projeção realista não seria muito atrativa. Mas muito depende da vontade humana, como sempre.
(A realistic projection would not be very attractive. But a lot depends on human will, as always. You cannot predict the course of social movements, of the efforts to change things. We can never do that.)
E pronto! Azar outra vez!... A sabedoria, a lucidez e os longos anos de vida deste homem muito especial não traz o tão desejado apaziguamento.
Antes, David Barsamian tinha questionado o tão politicamente incómodo cientista americano sobre que ação humana faz sentido nos tempos que correm:
- Marx disse que a tarefa não é compreender o mundo mas mudá-lo. O professor devotou grande parte da sua vida a isso.
Outra vez a prudência (e a dúvida?) aconselhou a resposta de Chomsky:
- Valha isso o que valer - caberá a outros decidi-lo. Mas, claro, julgo que é isso que todos deveríamos tentar fazer: mudar o mundo a curto prazo, superar problemas imediatos - alguns deles letais, como desastres ambientais e a guerra nuclear. Por isso, a curto prazo, pode-se trabalhar para isso a que se chama reformas. Outros tentam chegar ao cerne das formas de autoridade ilegítima, desmantelá-las e avançar em direção a uma maior liberdade e independência.
(For whatever it’s worth—that’s for others to decide. But sure, I think that’s what we should all be trying to do: change the world in the short term, overcoming immediate problems—some of them, like environmental disaster and nuclear war, lethal problems. Not small problems. The fate of the species depends on them. So, in the short term, you can work for what are called reforms. Others try to get at the heart of the forms of illegitimate authority, dismantle them, and move toward greater freedom and independence.)
(Noam Chomsky, "Mudar o Mundo", 2014. Bertrand Editora, p. 176)
Empenho pessoal, cidadania ativa, reunião de esforços - o conjunto dos grandes meios e estratégias para o grande remédio do (mau) estado do Mundo. Os governantes, os poderosos, os grandes decisores nunca deverão ter neles depositada a nossa confiança absoluta e boa fé. Dúvida metódica, vigilância constante, controlo efetivo. Estas terão de de ser sempre componentes da nossa "vontade humana".