quarta-feira, agosto 03, 2011

O ponto zero do urbanismo dos Olivais e de Chelas

A apresentação da lógica de desenho e construção dos bairros dos Olivais Norte, Olivais Sul e Chelas. É esta lógica que faz aparecer a Escola Secundária Eça de Queirós. A voz e as palavras são de dois dos principais arquitetos autores.
A ciência arquitetónica parece muita e de boa fé; a preocupação com as condições de vida das pessoas e a criação de espaços que possam juntá-las e protegê-las do tráfego automóvel também são evidentes.
Contudo, não há, em todo o vídeo, uma palavra sobre o espaço tal como ele era antes, as pessoas que ali habitavam, as formas culturais que caraterizavam aquelas zonas. Penso que, a quem vive agora nos Olivais, e que queira saber a história do chão que pisa, faz falta saber o que encontraram aqui quem tanto transformou o espaço dos Olivais e lhe deu as caraterísticas urbanísticas e arquitetónicas que agora tem.
No meu entender, assim sem mais, fica-se à mercê da acusação de puro imperialismo de gente autodeclarada como sábia e competente.
Onde estão as preocupações de conservar as marcas culturais dos locais, por mais pobres que sejam? Certamente existiram! Quais foram?... Como foram equacionadas? Como influenciaram no desenho do futuro bairro a construir? Fica-se à mercê de se pensar que se tratou de qualquer coisa deste género: "aqui não há ninguém... aqui não há nada... vamos fazer bairros dignos para pessoas que não estão cá e vamos trazer para cá". Como se houvesse a intenção de criar o ponto zero do urbanismo, quiçá mesmo da geografia dos Olivais.
Os Olivais, enquanto novo bairro, foram seguramente um desafio entusiasmante para quem desenhou as ruas, os passeios, as casas e os outros espaços de vida das gentes que moravam e moram nos Olivais.
Veja-se o que hoje existe de iniciativas, até de gente muito nova, para conservar - precisamente nos Olivais e em Chelas! - as marcas das suas identidades culturais locais. Devem-nos fazer - a todos - pensar no que se mexe e revolve com o enraizamento e o desenraizamento das pessoas. E a construção destes bairros - como tantas outras - terá feito isso: empurrou gente daqui para fora a trouxe gente de fora cá para dentro. Significativamente, muitos dos que já nasceram ou cresceram nos novos bairros de Chelas e Olivais também já temem que lhes aconteça o mesmo. Porque será?... Porque será que é tanta a preocupação e o esforço de conservar as construções da Praça da Viscondessa (que costumamos chamar Olivais Velhos)?
Curiosamente, as cidades modernas procuram recuperar, já não são sequer os "espaços verdes", é, isso sim, os espaços de terrenos, de espaços, individuais ou comunitários, precisamente no meio das cidades, para as pessoas cultivarem a terra e dela recolherem os produtos que ela dá para a alimentação do dia a dia. Tantas quintas que nos Olivais e em Chelas se deitaram abaixo!... Seriam quintas que valiam a pena?... Que histórias seriam as suas?...
Mais do que bota-abaixo, as impressões que acabo de escrever pretendem (e essa será a minha utopia) congregar os esforços de todos - começa a ser urgente fazê-lo - para juntar memórias e pensar o futuro. As fotografias do Arquivo Fotográfico de Lisboa que copiei para o meu Facebook mostram que há pessoas da fase anterior ao "ponto zero" que certamente ainda estão vivas. Que é feito dessas pessoas?... Que memórias têm dos Olivais e de Chelas?... O que lhes aconteceu depois do "ponto zero"?
Sinceramente, gosto do vídeo dos senhores arquitetos e já os ouvi pessoalmente falarem sobre os bairros dos Olivais e de Chelas. Por isso recomendo a todos que o vejam. Mas depois vamos fazer mais qualquer coisa! Que acham?
"A criação do Gabinete Técnico de Habitação (GTH) da Câmara Municipal de Lisboa ocorreu 
em 1959,  estando na origem da urbanização dos bairros sociais de Olivais Norte, Olivais Sul e Chelas. O GTH constituiu-se como um verdadeiro laboratório reformista, tanto nas opções de política urbana, como na visão técnica dos seus autores, através de operações de grande escala, inovadoras no quadro do urbanismo nacional. A intervenção maciça de arquitectos e outros técnicos no maior conjunto de habitação social até então planeado, abrangendo mais de 700 hectares e projectando albergar perto de 120 mil pessoas, constituiria uma escola de projecto doméstico colectivo e de integração de diferentes especialidades."

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