quarta-feira, janeiro 01, 2025

#TOLERÂNCIA 3 - TOLERAR É ACEITAR DESISTIR DE QUALQUER COISA BOA

 #TOLERÂNCIA 3 - TOLERAR É ACEITAR DESISTIR DE QUALQUER COISA BOA

Desistir duma vantagem. Por exemplo, desistir de querer ser, numa competição, e aceitar que o Outro é tão bom, ou merecedor quanto nós.
O mundo do Xadrez trouxe-nos, mesmo a acabar o ano de 2024, um caso ilustrativo:

Magnus Carlsen (norueguês) e Ian Nepomniachtchi foram os finalistas do "2024 FIDE World Blitz Championship". Carlsen ganhou as duas primeiras partidas, Nepomniachtchi ganhou as duas seguintes; empataram as 3 seguintes.
Desde 2012, em 11 edições, Magnus Carlsen ganhou 6. Vontade não lhe faltaria para ganhar a sétima, ainda por cima, depois do incidente desagradável que o afastou do Campeonato Mundial de Partidas Rápidas poucos dias antes.
Acontece que Carlsen , ao fim das 7 partidas jogadas, propôs ao seu oponente partilharem o primeiro lugar. Nepomniachtchi aceitou, e a FIDE também aceitou.
Estava dinheiro em jogo; prestígio e glória pessoal. Ambos aceitaram desistir de qualquer coisa que lhes fosse favorável. Já tinham mostrado que conseguiam vencer o adversário; já tinham mostrado, nos empates, que conseguiam não ser derrotados pelo adversário.
Um deles foi capaz de ter a iniciativa de partilhar, em vez de vencer; o outro foi capaz de aceitar não vencer, de não chegar, pela primeira vez, ao sabor da glória só para si.
Se, como dizia João dos Santos, educar é oferecer-se como modelo, os dois jogadores de xadrez deram a todo o mundo, precisamente no momento em que toda a gente é desafiada a desejar coisas melhores para o ano seguinte, um muito interessante exemplo de desportivismo, tolerância e partilha.

terça-feira, dezembro 31, 2024

#TOLERÂNCIA 2 - O DESAFIO DE KARL POPPER — MAIS ACTUAL QUE NUNCA?

 #TOLERÂNCIA 2 - O DESAFIO DE KARL POPPER — MAIS ACTUAL QUE NUNCA?



«Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: a tolerância ilimitada conduz necessariamente ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância com eles.»(1) (2)

Do lado da perspectiva que me interessa especialmente: como pode a Pedagogia ajudar a encontrar os limites da tolerância?
A resposta, as respostas, irei dedicar-me a elas ao longo de 2025. O que vou aqui escrever daqui de hoje a um ano?
(1) Less well known is the paradox of tolerance : Unlimited tolerance must lead to the disappearance of tolerance. If we extend unlimited tolerance even to those who are intolerant, if we are not prepared to defend a tolerant society against the onslaught of the intolerant, then the tolerant will be destroyed, and tolerance with them.
(2) Thw Open Society and Its Enemies, by K. R. POPPER, Volume I
Thw Spell of Plato, London, G. Routledge Sons, Ltd., reprinted 1947.

segunda-feira, dezembro 30, 2024

 #TOLERÂNCIA 1 - O DESAFIO DA TOLERÂNCIA PARA AS RELIGIÕES

Acerca deste assunto, tenho um pensamento muito parecido ao de Fernando Pessoa, que escreveu



assim:
«A tolerância é impossível ao crente verdadeiro de qualquer fé, sobretudo se ela excede os limites estreitos do feiticismo e da simples superstição, sem que atinja ainda o sincretismo dos pagãos e dos ocultistas.»(1)
Não tenho qualquer dúvida a este respeito nas religiões monoteístas. Quanto às politeístas, tenho de as conhecer melhor — mesmo que, para já, tenha uma opinião bem mais favorável dos budismos, dos deuses gregos e dos deuses romanos.
Aqui e ali, tem-se tentado ter sucesso com o chamado espírito ecuménico. Sim, esse é um caminho, e outros? E qual deve ser a pedagogia do espírito ecuménico?
Como já tenho idade suficiente para ver como as coisas se podem transformar da infância para a adultícia, não se iludam os pais, os educadores, os líderes sociais e os governantes políticos com as boas iniciativas nas escolas, desde tenra idade.
A capacidade da máquina de "adestramento", "domesticação" e "normalização" das crianças e dos jovens é tremenda, e lá se vão os resultados da "Educação para a Tolerância" que tanto sucesso tem nas imagens das televisões e nas fotografias dos jornais.
Na fotografia, Fernando Pessoa, em 1894, com 6

quinta-feira, agosto 10, 2023

sábado, março 25, 2023

Educação - Frases Inspiradoras: Deus e os Homens

 «Não é importante se as pessoas acreditam ou não em Deus; o que conta é como tratam os outros homens.», era o que Hans Rosling ouvia, em criança, aos seus pais. Quase seguramente, na década de 50 do séc. XX, na Suécia.

(Hans Rosling, "Como Aprendi a Compreender o Mundo", p. 21. Temas e Debates, Lisboa, 2021)

Aprender o valor do trabalho, a justiça e a equidade ao colo do pai

Hans Rosling tornou-se conhecido pelo livro que teve de concluir à pressa. A sentença dum cancro do pâncreas não lhe deixava alternativa. O livro apareceu em 2018, tendo o autor morrido em 2017. O livro foi escrito em colaboração cm o filho e a nora. É o Factfulness [Factualidade, ou Os Factos].

Diz o autor na Introdução ao outro livro escrito na mesma altura que «Depressa percebi que havia material suficiente para dois livros», o Factfulness e outro que «é sobre mim e sobre como cheguei a esse conhecimento», isto é o conhecimento que apresentou no Factfulness.

O segundo livro tem como título, em português, "Como Aprendi a Compreender o Mundo", tradução que segue à risca o título em inglês. Logo no princípio do primeiro capítulo, "Da Iliteracia à Excelência Académica", o autor e cientista sueco diz-nos assim:

© Shutterstock
Quando o meu pai voltava para casa do trabalho, à noite, cheirava sempre a café. Trabalhava na torrefação Lindvalls Kaffe em Uppsala. Foi assim que aprendi a gostar do cheiro do café muito antes de começar a bebê-lo. Muitas vezes ficava na rua à espera que ele chegasse do trabalho, a vê-lo aproximar-se de bicicleta pela rua fora. Ele saltava da bicicleta, vinha abraçar-me e eu fazia-lhe sempre a mesma pergunta:
«Encontraste alguma coisa hoje?»

Quando os sacos de grãos verdes de café chegavam para a torrefação, eram despejados para um tapete rolante e, em primeiro lugar, havia a triagem por um potente íman. O objectivo era remover quaisquer objectos metálicos que pudessem ter ido parar ao saco durante o processo de secagem e embalamento. O meu pai trazia-os para casa, dávamos e contava-me uma história sobre cada um deles. As histórias eram emocionantes.

Às vezes trazia uma moeda. «Olha, esta é do Brasil», dizia ele. «O Brasil produz mais café do que qualquer outro país.»

O meu pai deixava-me sentar no colo dele, abria o atlas do mundo à nossa frente e começava a contar a história: «É um país grande e muito quente. Esta moeda apareceu dentro de um saco que veio de Santos», explicava ele, apontando para a cidade portuária brasileira.

E descrevia os homens e mulheres trabalhadoras, elos na cadeia que terminava com pessoas na Suécia a bebericar o seu café. Cedo percebi que quem apanhava o café era quem ganhava menos.

terça-feira, setembro 14, 2021

REGRESSAR À ESCOLA E FAZER A VIAGEM DO ALFABETO - 1/7

 REGRESSAR À ESCOLA E FAZER A VIAGEM DO ALFABETO - 1/7

Antes da invenção da escrita e do alfabeto (o alfabeto inventou-se depois da escrita), o segredo era ouvir...

Um dia alguém inventou o alfabeto, popularizando a escrita, que deixou de ser um privilégio dos poderosos.

ESCREVER A SENSUALIDADE E A ETERNIDADE INDIVIDUAL


"Os primeiros vestígios alfabéticos que conhecemos apareceram em vasos de cerâmica ou na pedra. As palavras que os oleiros e os canteiros gravaram já não falam de vendas e de posses - escravos, bronze, armas, cavalos, azeite ou gado. Eternizam instantes especiais das vidas de pessoas comuns que participam em banquetes, que dançam, bebem e celebram os seus prazeres.

Sobreviveram cerca de vinte inscrições datadas entre o ano 750 e 650 a. C. A mais antiga é a inscrição de Dipylon, encontrada num antigo cemitério de Atenas.

O exemplo mais remoto de escrita alfabética, embora incompleto, é um verso sensual e evocador:

«O bailarino que dance com maior destreza...»

Essas simples palavras transferem-nos para um simpósio realizado numa residência grega com risos, jogos, vinho e um concurso de dança para os convidados cujo prémio era o próprio vaso. Homero descreveu na Odisseia este tipo de competições festivas, que eram frequentes nos banquetes e para os gregos faziam parte do seu conceito de boa vida.

A julgar pelos termos da inscrição, o tipo de dança seria acrobática, enérgica, carregada de erotismo. Por isso imaginamos que o vencedor do concurso devia ser muito jovem, capaz de fazer um grande esforço físico, as piruetas e os saltos que a dança exigia.

Sentiu-se tão orgulhoso que conservou sempre a recordação daquele dia feliz e, muitos anos depois, pediu que o enterrassem com o troféu da sua vitória. No seu túmulo, após vinte e sete séculos de silêncio, encontrámos o vaso e, gravado nele, esse verso que conserva ecos de música e marcas de uns belos passos de dança."

(Irene Vallejo, "O Infinito num Junco", Bertrand Editora, p. 119, 2020)

Fotografia: By Durutomo - Durutomo, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9798748