sábado, fevereiro 12, 2011

Gonçalo João Lemos

Deixei no Facebook do Gonçalo uma mensagem do tipo daquelas em que a gente tenta dar a volta por cima relativamente a um acontecimento trágico, terrível, brutal, que, de repente, nos choca profundamente: a morte inesperada, fora do seu tempo, de um jovem; a morte de um amigo, a morte de um aluno a quem nos ligam laços de intenso carinho.
O Gonçalo João não era um aluno brilhante, mas era brilhante, radiosa, a maneira como à sua volta, em resultado da sua boa disposição, do seu gosto em viver e do seu prazer em conviver, se espalhava uma ambiência de alegria e bem-estar que a todos fazia bem. Dava gosto tê-lo na aula, com prazer provocávamos o seu sorriso contagiante; e não era preciso praticamente nenhum esforço para consegui-lo. Uma vez, ao cair do dia, na Ria Formosa, numa atividade escolar, foi mordido por um bicharoco de tal forma que se pôs seriamente a possibilidade de o levarmos ao hospital. Tentou esconder a situação para não nos incomodar. Nunca mais nos esquecemos da maneira tranquila, simpática e alegre como encarou a situação, parecia que estávamos nós mais feridos do que ele. E lá animou ele a noite outra vez... assim que voltámos com ele do hospital.
Depois de ter deixado a escola, a nossa amizade não fraquejou; poucos vezes nos reencontrámos, mas tínhamos a sensação de que estávamos sempre juntos. Não havia experiência de saudade, nem de ausência, entre nós.
Como ouvi dizer um dia num programa de candidatos a estrelas da televisão britânica, há pessoas que parece que aparecem do nada, ali à nossa frente se mostram e, sem que qualquer esforço façam para isso, têm um impacto muito grande sobre nós e quem mais está à volta. O Gonçalo João foi para mim uma dessas pessoas. Foi daquelas pessoas que me ajudou a apurar o gosto de viver, a fazer o balanceamento dos valores da vida e a apreciar tranquilamente a urgência das obrigações.
A morte brutal deste meu querido aluno reacendeu em mim o pânico visceral que tenho às motas. Ironicamente, tenho amigos motards tremendos!... Apetece-me esconder-lhes as motas, torná-las inoperacionais.
Infelizmente, já passaram para o outro lado da vida, antes de mim, mais alunos do que deveria ser, e que eu gostaria que acontecesse.
Querido Gonçalo, ontem e anteontem, quando dei as minhas aulas, eu estava profundamente ferido. Lembrei-me do teu exemplo na Ria Formosa e tentei segui-lo. Achas que consegui?
Abraço-te com o tal abraço, o maior que alguma vez te dei.

1 comentário:

Flávio Miguel Mota Pereira disse...

tu, amigo fernando, consegues tudo por tudo.
A coisa boa da morte é que a quem mereçer as almas não largam até ao fim.

Só o teu coração saberá o que conseguiste ou não fazer, ele levar-te-á ao choro se sim e ao arrependimento, se não.

"os corpos da vida são as almas do passado apenas acordadas para que as conheçamos melhor"

Flávio P