DEMASIADA ESCOLARIZAÇÃO, INSUFICIENTE EDUCAÇÃO, 001
(apontamento, talvez um dia se torne um texto)
ABAIXO O CAPITAL HUMANO!
Comecei a minha vida de agente formal da Educação com Pestalozzi, Montessori, Freinet, Décroly; Sérgio Niza e, mais que todos, Pedro Onofre.
Mais que nunca, melhor que todos, o meu neto está a mostrar-me quanto a agrilhoante escolarização cerceia e empobrece a alegria de aprender, abafa o tremendo potencial de desenvolvimento das capacidades humanas — esse bem fascinantemente poderoso que devia estar na primeira linha dos líderes dos governos dos países de todo o mundo –—, e apaga a centelha que, renovadamente, em todos nós, quando a idade da juventude nos preenche intensamente o corpo e a mente e faz-nos desejar aprender, aprender, aprender; conhecer, conhecer, conhecer.
Tive a sorte, enquanto professor, de poder reduzir a escolarização e acrescentar educação. Ao longo dos anos, deixei de estar preso à obrigação de preparar os alunos para os exames nacionais; depois, para os exames de ingresso nos cursos de Psicologia das faculdades; finalmente, fiquei livre das amarras dos obcecados programas curriculares oficiais!... Livre!, finalmente livre! Preso apenas aos calendários, aos horários e às tradicionais avaliações trimestrais (algumas poucas vezes, semestrais).
Aulas alegres, dinâmicas. O manual adoptado na escola, que os alunos cuidadosamente punham em cima da mesa nas primeiras aulas, deixava de nela ocupar espaço, só se falava dele excepcionalmente para assinalar um ou outro erro que contivesse. Nas reuniões intercalares, por vezes, estranhezas e protestos mansos (curiosos, espantados, carinhosos) dos encarregados de educação: «Não sei o que se passa, mas o meu/minha filho/filha não faz outra coisa senão estudar Psicologia, diz que tem muito que estudar…»
É também precisamente nesta altura que começo a receber ecos de antigos alunos, por eles mesmos ou pelos seus pais (alguns deles, curiosamente, meus antigos alunos) o eco que me deixava contente, contente, contente, cada vez que o ouvia: «O professor Fernando Pinto é o único que nos prepara para o que nós depois encontramos na faculdade.» E não necessariamente nas faculdades de Psicologia. São ecos de exigência de empenho no trabalho escolar auto-induzidos.
Concordo com Guy Standing, no livro “Human Capital, the tragedy of the Education Commons” (Janeiro de 2026), em que faz uma crítica profunda ao actual sistema educativo dominado pela lógica do Capital Humano — isto é, focado apenas em resultados económicos e utilidade no mercado de trabalho, em vez de formar mentes críticas e cidadãos activos. Acrescento de minha lavra: que aprendam com prazer, com grande entrega pessoal, amando o Conhecimento e seguros das capacidades de aprendizagem pessoais de cérebros profundamente ricos da capacidade de descobrir, criar e realizar.
Desejo que cada vez mais colegas, mais professores como eu fui, possam acrescentar Educação e reduzir Escolarização às suas funções profissionais. A evolução das vicissitudes da disciplina de Psicologia no ensino secundário ao longo do meu percurso de professor são uma pista, são uma hipótese de transformação não necessariamente revolucionária — e é disso que os governantes têm medo: das revoluções nos sistemas e esquemas instalados.
Já agora, que se acabe de vez, na nossa terra, com a aberrante condição de atribuir a leccionação da disciplina de Psicologia apenas residualmente a licenciados e mestrados em Psicologia. Tem mais de 50 anos a aberração de continuar a dar prioridade à leccionação da disciplina de Psicologia a licenciados em Filosofia! E Portugal forma psicólogos nas universidades públicas desde 1980! No ISPA, um instituto privado de nível académico superior, há mais anos ainda.
O meu neto, que estuda na Suíça, tem uma curiosidade especial pelas matérias da Psicologia. Lá também a Psicologia está amarrada à Filosofia. O mal não é só em Portugal. Se ao menos a ideia de Filosofia fosse a que fez nascer tantas universidades e escolas de saber há muitas centenas de anos…
