domingo, janeiro 04, 2026

A PERDA DO MAIS PROFUNDO GANHO CIVILIZACIONAL

 A PERDA DO MAIS PROFUNDO GANHO CIVILIZACIONAL

Foi com Konrad Lorenz, o chamado pai da Etologia, que aprendi, e depois aprofundei, que aquele que é o mais notável ganho civilizacional, aquele que da Lei da Morte nos foi libertando, como um dia cantou Luís de Camões; e que elevou o Homem da Animalidade para a Humanidade, foi sendo consubstanciado nos rituais que inibem a agressividade e a violência, dão primazia ao diálogo e à negociação, e afirmam o 'Homo politicus', que será o conceito da ciência política que descreve o ser humano como fundamentalmente político, interessado no bem comum e na justiça da comunidade. Aristóteles já falava do Homem como "animal político", não era?

Se os rituais de que falo foram conseguindo conter e manter a agressividade e a violência disruptiva e aniquiladora, humanamente desregrada, dentro da Caixa, a tal que se diz que era de Pandora (mesmo que com destapes ou fugas intermitentes aqui e ali), a Civilização criou nos tempos mais recentes, primeiro uma Sociedade das Nações, depois uma Organização das Nações Unidas; consensualizou uma regulação jurídica da ordem mundial chamada Direito Internacional; e, finalmente, com a terrível experiência humana e civilizacional que foi a 2.ª Grande Guerra, instituiu, também consensualmente entre os Povos, as formas jurídicas de Genocídio e Crime contra a Humanidade,

se tais rituais foram sendo capazes, repito, de ir aplacando a Lei do Mais Forte sobre o Mais Fraco — porque as filosofias e as ideologias, em geral, foram capazes de reconhecer que somos todos diferentes e, ao mesmo tempo, iguais, em direitos e deveres —, o que Donald Trump acaba de fazer na Venezuela vem absolutamente ao arrepio das convenções milenarmente ganhas e conquistadas pelas sociedades humanas.

Infelizmente, não foi um caso isolado, inesperado, ao arrepio duma dinâmica política e cultural que tem caminhado noutro sentido. Não, o que Donald Trump fez é apenas o culminar de fumarolas, tremores e pequenas emissões que anunciavam a iminência da grande explosão do vulcão. E agora?

Agora vamos ver o que milhares de anos de consolidação de rituais civilizacionais, de alguns anos de Direito Internacional, vão ser capazes de fazer. Que líderes políticos governam o mundo? Precisamos de 2 ou 3 especialmente notáveis.

Depois da crise climática, depois da depredação insaciável dos recursos naturais, depois do aquecimento global — tudo desafios que salta à vista de toda a gente que as sociedades humanas não estão a ser capazes de resolver — só nos faltava mais esta crise, a crise da parte mais nobre do animal humano: a que enfrenta e vai vencendo o desafio do relacionamento dos grupos humanos entre si.

Que os deuses e os astros ajudem; e que a milenar sabedoria humana tenha ainda uma palavra moderadora e apaziguadora que seja ouvida pelos poderosos da Política, do Dinheiro e das Armas.

sábado, janeiro 03, 2026

LA VOIE DU JEUNE SAMOURAÏ (O CAMINHO DO JOVEM SAMURAI)

 LA VOIE DU JEUNE SAMOURAÏ (O CAMINHO DO JOVEM SAMURAI)

Este é o meu novo projecto: como Miyamoto Musashi vai observando e, sempre que pode, participando, no desenvolvimento do seu neto Ren (練), um jovem adolescente imbuído dos mais profundos e valorosos ideais samurais.

Ao contrário da viagem pela geografia da Tolerância, este projecto não terá uma apresentação pública diária, mas dele darei notícias de tempos a tempos.

Uma primeira esquematização do projecto:

O CENÁRIO: o campo de batalha mudou. Já não há lama, nem sangue na relva, nem o cheiro a pólvora. Hoje, a guerra é silenciosa. O inimigo não grita, ou melhor, os inimigos não gritam: eles sussurram. Chamam-se conforto. Chamam-se distracção. Chamam-se medo.

A SAGA: esta não é uma história sobre aprender a matar. É uma história sobre aprender a viver. O jovem samurai de hoje não veste armadura de lacado. Veste a sua própria vontade. Ele não procura um Lorde para servir. Ele procura o mestre dentro de si mesmo. A saga é a travessia do vale das sombras — a dúvida, a preguiça, o vício, a solidão no meio da multidão — para alcançar o pico da montanha: o Autodomínio.

O DESAFIO MODERNO: antigamente, o desafio era sobreviver à espada do outro. Hoje, o desafio é sobreviveres a ti mesmo.

A ESPADA: já não é só de aço. É também de Atenção, é de Foco. Conseguirás mantê-lo afiado num mundo que tenta cegar-te com ruído constante?

O INIMIGO: não está do outro lado do campo. Está no espelho. É a voz que diz "Deixa, faz amanhã", "Desiste", "É difícil".

A MORTE: não é o fim da vida. É a morte do "eu" fraco, do "eu" criança, para que o "eu" forte, amadurecido, cada vez mais sábio, possa nascer.

O CAMINHO: muitos caminham pela estrada larga da facilidade. "La Voie du Jeune Samouraï" é o trilho íngreme por entre as pedras. Dói subir. O ar é rarefeito. Mas só lá de cima se vê a verdade.

A PERGUNTA: O portão está aberto. O caminho estende-se. Tens de merecer a espada que queres trazer à cintura. Precisas de coragem no peito. Darás o primeiro passo? Darás os outros depois?

Todas as achegas, sugestões, conselhos, dicas, referências documentais; e perguntas, são bem-vindos!