terça-feira, fevereiro 10, 2026

DEMASIADA ESCOLARIZAÇÃO, INSUFICIENTE EDUCAÇÃO, 001

 DEMASIADA ESCOLARIZAÇÃO, INSUFICIENTE EDUCAÇÃO, 001

(apontamento, talvez um dia se torne um texto)

ABAIXO O CAPITAL HUMANO!

Comecei a minha vida de agente formal da Educação com Pestalozzi, Montessori, Freinet, Décroly; Sérgio Niza e, mais que todos, Pedro Onofre.


Mais que nunca, melhor que todos, o meu neto está a mostrar-me quanto a agrilhoante escolarização cerceia e empobrece a alegria de aprender, abafa o tremendo potencial de desenvolvimento das capacidades humanas — esse bem fascinantemente poderoso que devia estar na primeira linha dos líderes dos governos dos países de todo o mundo –—, e apaga a centelha que, renovadamente, em todos nós, quando a idade da juventude nos preenche intensamente o corpo e a mente e faz-nos desejar aprender, aprender, aprender; conhecer, conhecer, conhecer.

Tive a sorte, enquanto professor, de poder reduzir a escolarização e acrescentar educação. Ao longo dos anos, deixei de estar preso à obrigação de preparar os alunos para os exames nacionais; depois, para os exames de ingresso nos cursos de Psicologia das faculdades; finalmente, fiquei livre das amarras dos obcecados programas curriculares oficiais!... Livre!, finalmente livre! Preso apenas aos calendários, aos horários e às tradicionais avaliações trimestrais (algumas poucas vezes, semestrais).

Aulas alegres, dinâmicas. O manual adoptado na escola, que os alunos cuidadosamente punham em cima da mesa nas primeiras aulas, deixava de nela ocupar espaço, só se falava dele excepcionalmente para assinalar um ou outro erro que contivesse. Nas reuniões intercalares, por vezes, estranhezas e protestos mansos (curiosos, espantados, carinhosos) dos encarregados de educação: «Não sei o que se passa, mas o meu/minha filho/filha não faz outra coisa senão estudar Psicologia, diz que tem muito que estudar…»

É também precisamente nesta altura que começo a receber ecos de antigos alunos, por eles mesmos ou pelos seus pais (alguns deles, curiosamente, meus antigos alunos) o eco que me deixava contente, contente, contente, cada vez que o ouvia: «O professor Fernando Pinto é o único que nos prepara para o que nós depois encontramos na faculdade.» E não necessariamente nas faculdades de Psicologia. São ecos de exigência de empenho no trabalho escolar auto-induzidos.

Concordo com Guy Standing, no livro “Human Capital, the tragedy of the Education Commons” (Janeiro de 2026), em que faz uma crítica profunda ao actual sistema educativo dominado pela lógica do Capital Humano — isto é, focado apenas em resultados económicos e utilidade no mercado de trabalho, em vez de formar mentes críticas e cidadãos activos. Acrescento de minha lavra: que aprendam com prazer, com grande entrega pessoal, amando o Conhecimento e seguros das capacidades de aprendizagem pessoais de cérebros profundamente ricos da capacidade de descobrir, criar e realizar.

Desejo que cada vez mais colegas, mais professores como eu fui, possam acrescentar Educação e reduzir Escolarização às suas funções profissionais. A evolução das vicissitudes da disciplina de Psicologia no ensino secundário ao longo do meu percurso de professor são uma pista, são uma hipótese de transformação não necessariamente revolucionária — e é disso que os governantes têm medo: das revoluções nos sistemas e esquemas instalados.

Já agora, que se acabe de vez, na nossa terra, com a aberrante condição de atribuir a leccionação da disciplina de Psicologia apenas residualmente a licenciados e mestrados em Psicologia. Tem mais de 50 anos a aberração de continuar a dar prioridade à leccionação da disciplina de Psicologia a licenciados em Filosofia! E Portugal forma psicólogos nas universidades públicas desde 1980! No ISPA, um instituto privado de nível académico superior, há mais anos ainda.

O meu neto, que estuda na Suíça, tem uma curiosidade especial pelas matérias da Psicologia. Lá também a Psicologia está amarrada à Filosofia. O mal não é só em Portugal. Se ao menos a ideia de Filosofia fosse a que fez nascer tantas universidades e escolas de saber há muitas centenas de anos…

domingo, janeiro 04, 2026

A PERDA DO MAIS PROFUNDO GANHO CIVILIZACIONAL

 A PERDA DO MAIS PROFUNDO GANHO CIVILIZACIONAL

Foi com Konrad Lorenz, o chamado pai da Etologia, que aprendi, e depois aprofundei, que aquele que é o mais notável ganho civilizacional, aquele que da Lei da Morte nos foi libertando, como um dia cantou Luís de Camões; e que elevou o Homem da Animalidade para a Humanidade, foi sendo consubstanciado nos rituais que inibem a agressividade e a violência, dão primazia ao diálogo e à negociação, e afirmam o 'Homo politicus', que será o conceito da ciência política que descreve o ser humano como fundamentalmente político, interessado no bem comum e na justiça da comunidade. Aristóteles já falava do Homem como "animal político", não era?

Se os rituais de que falo foram conseguindo conter e manter a agressividade e a violência disruptiva e aniquiladora, humanamente desregrada, dentro da Caixa, a tal que se diz que era de Pandora (mesmo que com destapes ou fugas intermitentes aqui e ali), a Civilização criou nos tempos mais recentes, primeiro uma Sociedade das Nações, depois uma Organização das Nações Unidas; consensualizou uma regulação jurídica da ordem mundial chamada Direito Internacional; e, finalmente, com a terrível experiência humana e civilizacional que foi a 2.ª Grande Guerra, instituiu, também consensualmente entre os Povos, as formas jurídicas de Genocídio e Crime contra a Humanidade,

se tais rituais foram sendo capazes, repito, de ir aplacando a Lei do Mais Forte sobre o Mais Fraco — porque as filosofias e as ideologias, em geral, foram capazes de reconhecer que somos todos diferentes e, ao mesmo tempo, iguais, em direitos e deveres —, o que Donald Trump acaba de fazer na Venezuela vem absolutamente ao arrepio das convenções milenarmente ganhas e conquistadas pelas sociedades humanas.

Infelizmente, não foi um caso isolado, inesperado, ao arrepio duma dinâmica política e cultural que tem caminhado noutro sentido. Não, o que Donald Trump fez é apenas o culminar de fumarolas, tremores e pequenas emissões que anunciavam a iminência da grande explosão do vulcão. E agora?

Agora vamos ver o que milhares de anos de consolidação de rituais civilizacionais, de alguns anos de Direito Internacional, vão ser capazes de fazer. Que líderes políticos governam o mundo? Precisamos de 2 ou 3 especialmente notáveis.

Depois da crise climática, depois da depredação insaciável dos recursos naturais, depois do aquecimento global — tudo desafios que salta à vista de toda a gente que as sociedades humanas não estão a ser capazes de resolver — só nos faltava mais esta crise, a crise da parte mais nobre do animal humano: a que enfrenta e vai vencendo o desafio do relacionamento dos grupos humanos entre si.

Que os deuses e os astros ajudem; e que a milenar sabedoria humana tenha ainda uma palavra moderadora e apaziguadora que seja ouvida pelos poderosos da Política, do Dinheiro e das Armas.

sábado, janeiro 03, 2026

LA VOIE DU JEUNE SAMOURAÏ (O CAMINHO DO JOVEM SAMURAI)

 LA VOIE DU JEUNE SAMOURAÏ (O CAMINHO DO JOVEM SAMURAI)

Este é o meu novo projecto: como Miyamoto Musashi vai observando e, sempre que pode, participando, no desenvolvimento do seu neto Ren (練), um jovem adolescente imbuído dos mais profundos e valorosos ideais samurais.

Ao contrário da viagem pela geografia da Tolerância, este projecto não terá uma apresentação pública diária, mas dele darei notícias de tempos a tempos.

Uma primeira esquematização do projecto:

O CENÁRIO: o campo de batalha mudou. Já não há lama, nem sangue na relva, nem o cheiro a pólvora. Hoje, a guerra é silenciosa. O inimigo não grita, ou melhor, os inimigos não gritam: eles sussurram. Chamam-se conforto. Chamam-se distracção. Chamam-se medo.

A SAGA: esta não é uma história sobre aprender a matar. É uma história sobre aprender a viver. O jovem samurai de hoje não veste armadura de lacado. Veste a sua própria vontade. Ele não procura um Lorde para servir. Ele procura o mestre dentro de si mesmo. A saga é a travessia do vale das sombras — a dúvida, a preguiça, o vício, a solidão no meio da multidão — para alcançar o pico da montanha: o Autodomínio.

O DESAFIO MODERNO: antigamente, o desafio era sobreviver à espada do outro. Hoje, o desafio é sobreviveres a ti mesmo.

A ESPADA: já não é só de aço. É também de Atenção, é de Foco. Conseguirás mantê-lo afiado num mundo que tenta cegar-te com ruído constante?

O INIMIGO: não está do outro lado do campo. Está no espelho. É a voz que diz "Deixa, faz amanhã", "Desiste", "É difícil".

A MORTE: não é o fim da vida. É a morte do "eu" fraco, do "eu" criança, para que o "eu" forte, amadurecido, cada vez mais sábio, possa nascer.

O CAMINHO: muitos caminham pela estrada larga da facilidade. "La Voie du Jeune Samouraï" é o trilho íngreme por entre as pedras. Dói subir. O ar é rarefeito. Mas só lá de cima se vê a verdade.

A PERGUNTA: O portão está aberto. O caminho estende-se. Tens de merecer a espada que queres trazer à cintura. Precisas de coragem no peito. Darás o primeiro passo? Darás os outros depois?

Todas as achegas, sugestões, conselhos, dicas, referências documentais; e perguntas, são bem-vindos!