sábado, abril 22, 2006

Os "velhos" professores e as novas tecnologias

Ontem participei na sessão inaugural de uma oficina de formação de professores, destinada a preparar gente que seja capaz de liderar nas suas escolas projectos de utilização das novas tecnologias da informação e da comunicação. Alguém pôs claramente o dedo na ferida quando disse que, na verdade, ainda não sabia "como é que se passa estas novidades e recursos todos para a sala de aula".
Na véspera eu tinha estado noutra sessão inaugural de outra acção de formação, precisamente destinada a professores que terão a seu cargo a tarefa de fazer a tal passagem, a tal transposição. A maior parte destes professores confessou a sua incipiência e o seu receio, tantas vezes manifestados noutras ocasiões já por tantos outros professores!

Ora, o que foi, então, o que eu pensei, depois de ouvir, mais uma vez, dúvidas, incertezas, inseguranças recorrentes, uma e outra vez?
Qual é a perspectiva que proponho?
É assim: do ponto de vista da informação, o ensino tradicional tem duas fontes de informação - o manual... e o professor.
Atenção! Estou a dizer fonte de informação, não estou a dizer fonte de conhecimento, isso é outra história.
No meu entender, o que pode ser de uma grande ajuda para os professores que agora se empenham neste tipo de acções de formação é tomarem a perspectiva de que o computador, a informática, a internet é a terceira fonte de informação presente na sala de aula. Entretanto, do ponto de vista do aluno, são todas fontes de informação, logo à partida, sem qualquer dúvida ou hesitação. Para os alunos, isto é simplesmente... óbvio!

A diferença entre as três fontes de informação é a seguinte, ou melhor, são as seguintes:
01- O professor tem o domínio das duas primeiras fontes de informação: o seu próprio saber e o manual;
02- O professor não tem o domínio da terceira fonte de informação:
03- O aluno, hoje em dia, está mais à-vontade com a terceira fonte de informação (os computadores) do que com a primeira e a segunda;
04- O professor tem a ideia de que os alunos dominam ou, pelo menos, conhecem muito melhor do que ele, a terceira fonte de informação;
05- Pelo que foi dito no ponto anterior, quase que podemos dizer que o professor está para o aluno assim como o computador está para o professor, isto é, o aluno não controla a fonte de informação "professor" (e o manual, também) e o professor não controla a fonte de informação "computador".

06- Um dos grandes mal-entendidos em que o pensamento e as representações mentais dos professores laboram tem a ver com a crença de que os alunos dominam a fonte de informação "computador". Nada de mais errado! Ninguém, absolutamente ninguém, domina ou controla a fonte de informação "computador"!
07- Tal como o desconhecimento do funcionamento da fonte de informação "professor" coloca muitos problemas de manejo ao aluno, assim também o desconhecimento da fonte de informação "computador" põe muitos problemas no seu manejo ao professor.

08- Mas... então os professores não sabem servir-se da fonte de informação "manual"? É evidente que sabem!... Porque não encarar o computador, a internet, como outro manual?
09- O que é que os professores fazem quando pegam num manual novo?... Folheam, percorrem o índice, lêem uma coisa aqui e acolá, apreciam a sequência dos capítulos, apreciam a qualidade das imagens. Avaliam o interesse e a pertinência dos conteúdos do manual; e a exposição satisfatória e eficaz de cada um dos conteúdos. Avaliam ainda o próprio manual na sua totalidade e imaginam o que poderão fazer os alunos com aquele manual nas mãos;
10- Ora bem, porque não encarar o computador e a internet como um livro, um manual?... [Ainda não é altura de falar em hipertexto, pois não, Professor Fernando Costa?] Esta sugestão é o coração deste conjunto de reflexões. Alguém disse já que um professor deverá ser como um livro aberto. Ora a Internet não é nada mais do que um livro aberto, escancarado, mesmo!
11- O professor pode não se dar bem com livros escancarados, de mais a mais porque livros assim parece que têm vida própria, para além da vontade e da capacidade de controlo do professor. Assim como muitos alunos não se darão também bem com o professor enquanto livro aberto (Isto é quase um aparte...), só que o professor tem mesmo vida e iniciativa própria, independente da vontade do aluno. O que é, na verdade, espantoso é que, enquanto a representação que os professores têm dos computadores é falsa, a representação dos alunos está correcta! Na relação com o aluno, os professores têm a faca e o queijo na mão. Na relação com o computador também pode ser assim. Só que, neste caso, só os alunos é que percebem que a faca e o queijo está do lado do utilizador (seja professor, seja aluno). Os professores, a maioria dos professores não percebe isso!...

12- Senhores professores, a Internet, tal como os livros tem um índice, tem capítulos, tem imagens, tem textos...
13- O que é que os professores fazem com os manuais: primeiro, decidem que conteúdos vão explorar com os alunos e depois vão ao manual escolhem as páginas, extraem textos, recortam imagens e preparam a apresentação aos alunos, levando-os ou não a usarem os seus próprios manuais;
14- Com a terceira fonte de informação que, à partida, os alunos "folheiam" melhor [Mas não dominam!], o professor pode ou pedir aos alunos que o ajudem a folhear o "livro-computador" para encontrar o que ele, professor, quer encontrar; ou então pode levar os alunos a desenvolverem as suas competências de auto-regulação da aprendizagem (quer dizer, desenvolverem a sua capacidade de iniciativa) pondo-a em sintonia com o professor e as suas obrigações escolares de alunos, através desta nova ferramenta pedagógica, esta nova fonte de informação que é o computador.

15- Senhores professores, caros colegas: Ninguém domina os computadores e a Internet, nem o mais pintado dos especialistas. E, podem crer, há muitos alunos que têm receios com o computador e com a Internet da mesma maneira que os seus professores;
16- Os casos de jovens seduzidas, violadas ou violentadas, em que o isco foi a Internet, mostra que há uma função analítica, crítica, de filtragem de que os alunos têm necessidade e que está nas mãos dos adultos educadores e cuidadores realizar.
Que vos parece esta escrita na água?
Quem concorda comigo?
Faz algum sentido o que disse?

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