sexta-feira, dezembro 05, 2008

É a consciência do professor que o faz saber, não é a burocracia

O Professor Raúl Iturra não pára de de me prodigalizar provas de consideração e amizade (que dificilmente consigo agradecer-lhe como justo seria). E nessas provas ele renovadamente se mostra cidadão atento, activo e empenhado no país em que, por opção pessoal, tomou a sua mais recente nacionalidade.
Ele não podia deixar de olhar o que se passa no sistema educativo português, no que ao ensino secundário muito prementemente, nos dias de hoje, diz respeito.
É com a sua autorização que agora publico neste blogue um texto que escreveu muito recentemente. É um texto muito sério, que merece todo o nosso cuidado na leitura. É um texto em que o Professor Raúl Iturra procura levar-nos a tomarmos consciência do que é que está - ou do que é que faz - o âmago, a essência da educação, do acto educativo: está dentro da pessoa do professor.
As teias, as tramas das relações sócio-económicas, das tensões e dos conflitos entre os diferentes níveis da hierarquia social; e as lutas políticas e partidárias pelo controlo do poder legislativo e executivo - tudo isto constantemente exerce forte pressão sobre o sistema educativo, determinando os comportamentos dos pais, as decisões dos governantes... quais mares que, quando batem nas rochas, lixam o mexilhão. Os mexilhões - está-se já a ver - são os professors e os alunos.
Muitas das vozes que hoje se cruzam em brados estão, ou não estão (mas suspeita-se que estão), ao serviço de algum interesse ou conveniência menor, o que dificulta que se leia ou ouça, sem desconfiança, ideias, argumentos e propostas que consigam resolver os actuais - e graves - problemas do ensino secundário em Portugal.
Repito, o Professor Iturra esforça-se sinceramente por nos chamar a atenção para a necessidade de (quem realmente quiser ocupar-se com e resolver os problemas do ensino secundário, promovendo as condições indispensáveis para que os professores possam desempenhar satisfatoriamente a sua função social) não deixarmos de manter o debate, a discussão, a dialéctica e o conflito no âmago (ao mesmo tempo humano, social e político) do acto educativo.
Obrigado, Professor, por (mais) esta sua valiosíssima lição!

O QUE É EDUCAÇÃO [?]

Para Daniel Índias Fernandes, filho de Graça e Rui, no dia do seu aniversário

A questão parece simples. Ou, melhor, a pergunta. No entanto, ela sempre foi complexa e heterogénea. Há vários tipos definições de educação. A mais simples é dizer que educação vem do latim[1] e significa o que está na nota de rodapé de esta página. No entanto, tem significado para discutir, como esse o de domesticar. Não tenho esquecidas três definições fornecidas por mím, em vários textos meus.

Um desses textos, é um livro meu que cito no pé de página[2], livro no qual, após ter analisado com uma larga equipa mais de 40 crianças da aldeia de Vila Ruiva em Portugal, Concelho de Nelas, concluí que educar era formar cidadãos para os subordinar às formas e costumes de ser do nosso país. Aliás, para fazer de eles pessoas impingidas de saber social. Nunca esqueço esses anos de 1988-1989, dias em que imensas crianças nos acordavam às seis da manhã para começar os nossos trabalhos entre as 9 e as 12 horas da manhã dos verões escaldantes do lugar. Eram crianças entre os cinco e dez anos, hoje em dia todos profissionais de alguma parte do saber cívico ou com profissões que eu denomino doutorais. Doutorais, por haver dois tipos de saberes, o da mente cultural, definida no texto citado, conceito sobre o qual tenho um direito de autor oferecido a mim pela Sociedade Portuguesa de Autores (ou SPA), conceito deduzido da minha observação de ver como os pais ensinavam as suas crianças: “pega no livro, vai ao quarto e lê, caraças”. Os pais mais nada podiam dizer, eles próprios nunca tinham ido à escola, ou se nela tivessem estado, era para se distrair a pensar no que mais amavam, semear batatas. O convite ao estudo não era por isso amável, era a ambição de progenitores de quererem ver os seus descendentes angariar a vida, impingindo o seu saber na interacção social. Objectivo bom, mas mal entendido, para que os pudesse orientar dentro das avenidas do saber doutoral, esse saber pretenso de ser conhecido por poucos mas solicitado a todos. Especialmente hoje em dia, ao ser mandado aos docentes de qualquer grau de ensino, avaliar a sua actividade, um dia após outro. Esta avaliação que acaba por esmorecer a actividade dos docentes: preparar aulas, estudar para saber o quê dizer, escrever ideias novas de academia, explicar cada palavra da sua aula e, no fim de um dia bem ganho com a canseira de falar o dia todo no intuito de fazer dos mais novos cidadãos sábios, ou pelo menos submetidos ao braço da lei, reunir todos eles para, como hoje está mandado, avaliar o desempenho do dia. Dia que começam às 8 da manhã e acabam tarde, quase noite, pelas 20 horas. É este modelo que tenho auscultado ao analisar crianças Picunche, no Concelho de Pencahue, Província de Talca, no Chile do falecido ditador. E é este mesmo modelo que manda aos municípios, homens de política, orientar as escolas primárias e secundarias de sua jurisdição, o que em Portugal, seria uma Freguesia. Parece-me que o conceito freguês é adequado: obediência, disciplina, ver, ouvir e calar. Formas ditatoriais de definir a transferência de saberes de uma geração a outra, sem um carinho que arrebite o cansaço dos mais novos ou premeie com mais um dúzia de tostões, o deboche imerecido da exaustão desse desmerecido fim de dia. Especialmente entre os docentes de ensino especial, que reúnem sempre, dia após dia, para comparar a metodologia de João de Deus, trazida para nós por essa grande minha amiga, antiga subsecretária da educação, Ana Maria Toscano de Bénard da Costa[3], que nem por isso tem sido ouvida. Ou a opinião dos que trabalham com os que sofrem do espectro de autismo, imensos em Portugal, o meu antigo orientado de doutoramento, José Manuel Pombeiro Cravo Filipe[4], educador especial.

Uma segunda ideia que aparece no meu pensar, é que educar é a ternura de transferir saber dos adultos aos mais novos. Um saber que não está em livro nenhum, que reside na mente do educador e que, por acaso, se pode encontrar na vida social e natural. Os textos estudados por mim para entender o processo de ensino-aprendizagem, têm-me ensinado esta ideia. Essa grande dúvida de todo o educador, que entende que ao ensinar, aprende com as perguntas colocadas pelos mais novos, questões com emotividade, racionalidade e erudição retirada da vida social e do saber histórico pragmático do sítio onde os mais novos moram. Todo o bairro, vila ou aldeia nos países do mundo, têm dois mapas: o que está no saber dos estudantes que andam pelo seu desenho de corta mato, desconhecido pelos docentes que têm a delicadeza de andar pelos passeios, pelas ruas e as cruzar por passadeiras. Passadeiras que muitos de nós nem respeitamos na infantilidade que fica sempre dentro de nós ao desafiar, de forma parva, os carros que vêm de longe, a alta velocidade, mais outro adulto infantil que faz das ruas, estradas... Não é por acaso que, ainda sem carros mecânicos, os sábios gregos definiam educação como processo que leva à democracia[5].

Estas são ideias que usamos com Paulo Freire, asilado no Chile ao ser perseguido pelo Ministério da Educação. A sua pedagogia é simples e a aprendi com ele na acção: todo o mundo sabe; é preciso retirar esse conhecimento e fazer razoar a mente que pensa. As escolas apenas precisam levar aos estudantes aos sítios materiais dos quais o saber é retirado, sem o indivíduo saber que sabe. Na segurança lógica do conhecimento, esta é a educação. É por isso que a denomino processo de ensino-aprendizagem. A cultura doutoral não é superior à prática pragmática de saber entender a vida natural. Aliás, digo eu, a cultura doutoral perverte os professores e as suas autoridades, que mandam avaliar o que se faz cada dia. Os mais novos precisam de adultos que os amem e, descansados, poderem raciocinar e, assim, ensinar. Toda outra actividade não é apenas ilegal, bem como anti-pedagógica. É a consciência do professor que o faz saber o que, como e quando dizer, e não a burocracia. Essa [orientação] ministerial mata o necessário amor ao ensino, pois quem nunca ensinou, nem faz ideia do que é o processo de ensino-aprendizagem. Esse processo é vivido, não decretado. Os decretos são os assassínios do saber, especialmente ao serem ditados pela afamada Sociologia Industrial, que, por vezes, nas suas práticas, dão cabo do saber das crianças, os proletários do saber, com a burguesia a possuir os meios de produção pedagógico nas suas mãos inexperientes.

Educar é saber com amor, sem perseguições, e controlos quotidianos que matam a quem sabe.

Raúl Iturra, português.

 Parede, 28 de Novembro de 2008.

Catedrático de Etnopsicologia do ISCTE, Lisboa, Senador da Universidade de Cambridge, Membro de Honra do CNRS, Paris, Investigador do CEAS/CRIA/ISCTE, escritor e membro activo na primeira linha de Amnistia Internacional e dos Direitos Humanos.

lautaro@netcabo.pt


[1] Do lat educare v.educarev. Tr., desenvolver as faculdades físicas, intelectuais e morais a; instruir; doutrinar; domesticar; em: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx 

[2] A construção social insucesso escolar. Memória e aprendizagem em Vila Ruiva, 111 páginas, especialmente página do livro em formato de papel: p.87, Capítulo 8: “A sabedoria das crianças”, Escher (antes) Fim de Século hoje, 1990 a, em várias entradas Internet de: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&sa=X&oi=spell&resnum=0&ct=result&cd=1&q=Ra%C3%BAl+Iturra+A+constru%C3%A7%C3%A3o+social+do+insucesso+escolar&spell=1

[3] A sua biografia e opinião sobre o que eu denomino processo educativo, pode ser lido em: http://sinistraministra.blogspot.com/2008/03/entrevista-ana-maria-bnard-da-costa.html

[5] Aristóteles, 330 antes da nossa era, no seu texto: Ética a Nicómaco, diz, em síntese:A educação deveria inculcar o amor às leis – elaboradas com a participação dos cidadãos –, mas a lei perderia sua função pedagógica se não se enraizasse na virtude e nos costumes: "a lei torna-se simples convenção, uma espécie de fiança, que garante as relações convencionais de justiça entre os homens, mas é impotente para tornar os cidadãos justos e bons". Livro escrito para o seu filho Nicómaco, especialmente Livro I, capítulo X, em: http://www.analitica.com/bitblioteca/Aristoteles/nicomaco01.asp#l1c2, sítio para ler o texto inteiro. É assim que o livro e também denominado “...o da Educação”. Ideias usadas por Émile Durkheim para os seus textos de pedagogia. 

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