quarta-feira, dezembro 31, 2025

#TOLERÂNCIA367 - ACABOU O DIÁRIO DA TOLERÂNCIA. E AGORA?

 #TOLERÂNCIA367 - ACABOU O DIÁRIO DA TOLERÂNCIA. E AGORA?

Agora é aquela parte de passar da palavra, pensada e escrita, à acção.

Para já, sinto com uma clarividência que muito me agrada que algumas das minhas predisposições comportamentais, da minhas atitudes, se questionaram e se reajustaram em resultado do que fui descobrindo, do que fui conhecendo, do que fui modificando, do que se tornaram novas ou revistas opiniões e opções pessoais.

Mesmo que se tenha tornado banal dizer-se que procuramos o que queremos encontrar, o que nos dá razão, penso que consegui ser suficientemente honesto comigo mesmo para aceitar pôr-me à prova, pôr em questão os meus pontos de vista, as minhas perspectivas. Enquanto psicólogo, sei do que que que a casa gasta, tenho bem consciência do que digo às pessoas que procuram a nossa competência profissional, a nossa 'expertise'.

Tenho clara consciência de que foram essencialmente os meus amigos franceses, o Jean-Pierre Démange à cabeça, que me desafiaram para mostrar que a Tolerância vale a pena, seja enquanto valor,

seja enquanto atitude ou disposição pré-comportamental capaz de aproximar as pessoas e os grupos do diálogo, da negociação, da cedência e do entendimento, resistindo à impulsividade do confronto e do conflito agressivo, confronto e conflito que são, em última instância, nas actuais circunstâncias da vida dos grupos (dentro dos grupos e entre os grupos), sempre favoráveis a quem tem o poder do dinheiro, o poder das armas e o controlo da Comunicação Social e das Redes Sociais. A desconfiança visceral, ou melhor, a rejeição radical que o Jean-Pierre e os outros logo mostraram em relação à Tolerância por a considerarem um comportamento farisaico de quem tem o poder político e económico, por quem está na mó de cima e não quer abrir mão dos seus privilégios, foram, repito, desafio para eu escavar mais fundo, ir ao âmago, ao tutano do que alimenta a Tolerância (que nem sempre é boa, às vezes é má) e a Intolerância (que nem sempre é má, às vezes é boa).

Também devo um agradecimento especial à Zorka Domić, pelas achegas e pelo alento que sempre procurou dar ao que fui escrevendo e fazendo.

São 367 entradas (365 mais 2), 365 registos escritos de caminhadas diárias. Passadas a papel, cada uma ocupa, no mínimo, uma página; muitas delas, 2 ou 3 páginas. Juntando, em anexo, os 'rationales' das actividades, dos jogos e de alguns desenvolvimentos e esclarecimentos, a que tamanho impresso isto chegará o relato da viagem pela Tolerância...

Sei que muitos aperfeiçoamentos e revisões vou ainda produzir. E desejo muito ter críticas, correcções sugestões, achegas; e pedidos. Com todos eles eu ganharei, com todos eles a Educação e a Pedagogia da Tolerância ganharão. Para já, estou muito, mas mesmo muito contente com o que fiz, não fazia ideia que chegasse onde cheguei. Acho que o segredo foi não ter expectativas demasiadamente ambiciosas, ter sido humilde e não ter querido provar nada que antecipadamente escondesse como fito último — esta atitude de base permitiu-me manter a mente aberta, disponível e, pois claro, tolerante.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

terça-feira, dezembro 30, 2025

#TOLERÂNCIA366 - PORQUÊ ESCREVER SOBRE A TOLERÂNCIA?

 #TOLERÂNCIA366 - PORQUÊ ESCREVER SOBRE A TOLERÂNCIA?

A razão desta viagem, que se transformou num impulso para escrever, mantém-se tão clara agora quanto quando surgiu há exactamente 1 ano: ver por todo o lado, à minha volta, crescer a expressão das atitudes e dos comportamentos impulsivos, intolerantes, insultuosos, conflituosos.

Precisamos todos, em geral, de ser mais tolerantes. Precisamos de reduzir as reacções impulsivas aos estímulos que nos chegam, que são ou parecem dirigidos a nós, mesmo quando não temos dúvidas nenhumas de que a razão está do nosso lado. A razão e a justiça.

Quem tem nas mãos os cordelinhos que fazem de de todos nós marionetas têm clara consciência de que a reacção impulsiva, carregada de razão e justiça, dos cidadãos serve os seus interesses, os interesses dos donos disto tudo. A bem da razão e da justiça, precisamos todos de saber reagir adequadamente, o

mais sabiamente possível, aos estímulos-provocações que os poderosos do mundo sabem muito sofisticadamente lançar sobre os cidadãos para os manter em permanente estado de tensão psicológica, tomados por sentimentos de injustiça e por vontades de protestar, contestar e opor-se ao que sentem assim: injusto, ilegítimo, indigno, lesivo.

Percebemos, mais claramente que nunca, que os poderosos do Mundo sabem como manietar as redes sociais — que é onde cada vez mais cidadãos do mundo se encontram — e pôr todos a discutirem com todos. E se todos ralham e ninguém tem razão, cada um, na verdade, pensa que a tem.

Aprender a tolerar o estímulo invasivo-agressivo. Realço: aprender. Todos podem os aprender, é imperioso que todos aprendamos.

Tornou-se banal dizer que há muito ruído no mundo. É preciso reduzir o volume dos ruídos e é preciso reduzir o número de ruídos. É preciso aprender a ficar calado, a não responder imediatamente, impulsivamente. Entre a emoção que faz disparar a tentação da reacção impulsiva e essa mesma reacção impulsiva há que aprender a dar tempo e espaço mental para um pensamento, um pensamento que dê mais força à razão e à justiça; e à pessoa do interlocutor, às suas razões, às suas necessidades, às suas motivações, às suas forças e fraquezas, às suas idiossincrasias.

Para que assim se consiga ser há que ser tolerante; e há que ser intolerante.

O objectivo da viagem que decidi fazer durante 365 dias são uma peregrinação, mas uma peregrinação especial: não vou, nunca quis ir em busca do recolhimento pessoal interior, quis sempre, muito conscientemente, ir ao encontro da tolerância e da intolerância tal qual elas surgem no dia-a-dia da vida das pessoas e dos grupos humanos.

E desde a primeira hora eu quis outra coisa: produzir materiais pedagógicos que fossem de uso fácil por muita gente, em muitas escolas e grupos de jovens, de professores, de atletas, de profissionais de todo o tipo, de políticos.

Este grande texto não é tese, não é um ensaio, não é uma monografia, não é uma investigação, não é um manifesto, não é um tratado, não é um conjunto de meditações e confissões. Não resulta dum plano pré-estabelecido com marcação clara do princípio, do meio e do fim. A única determinação que me orientou foi observar e tomar contacto com a realidade de cada dia, de todos os dias, de espírito aberto, o mais consciente possível de que não escapo a estereótipos e preconceitos, quando muito posso controlá-los e impedir que eles distorçam ou criem demasiados vieses no que quero observar, comentar, reflectir e criar.

Quando um dia estes escritos tomarem a forma dum livro, este texto será seguramente uma espécie de prefácio.

Gostei muito, mas mesmo muito, de fazer esta viagem! O 3.º Encontro Internacional Solidariedade Intergeracional, que se realizou na Amora em 10 e 11 de Julho e em Mação nos dias 11 e 12 foi o ponto alto da partilha da minha experiência de viagem pelo mundo da Tolerância. Por isso agradeço especialmente ao dr. João Batalheiro (médico de família) e ao dr. Luís Patrício (médico psiquiatra) a oportunidade que num e no outro lugar me deram para envolver colegas (de várias partes do mundo!) e públicos participantes nos caminhos fascinantes e desafiadores da viagem.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

segunda-feira, dezembro 29, 2025

#TOLERÂNCIA365 - TOLERAR O ISOLAMENTO PESSOAL

 #TOLERÂNCIA365 - TOLERAR O ISOLAMENTO PESSOAL

Em rigor, o ano da minha viagem pela geografia da Tolerância acaba hoje, os 365 dias dum ano normal têm todos um tempo de atenção dedicado à Tolerância. Os dias 30 e 31 de Dezembro terão ainda a mesma atenção, e deles falarei, naturalmente, amanhã e depois de amanhã.

O tema de hoje tem a ver com o isolamento e a solidão, mas não foi em isolamento ou solidão que fui escrevendo o que aqui guardei. Não, a MINHA tolerância, a tolerância que fazia sentido nesta viagem era a do encontro com os outros, era sempre no meio dos outros, tinha que ter a ver sempre com os outros. Penso que amanhã e depois vou voltar aqui. Sim, os dois textos que faltam, ao contrário da regra essencial que me impus nestes 365 dias, não se referirão a uma coisa do dia, mas serão uma espécie de prefácio e de posfácio, como se de um livro se tratasse — e quanto ao livro, a ele chegarei se a tanto me ajudar o engenho e a arte.

Em razão daquelas deambulações em que a internet é pródiga, fixei a atenção no livro "À beira-mar" (By the sea) de Abdulrazak Gurnah, escritor tanzaniano que ganhou o Prémio Nobel de Literatura em 2021. Na ficção encontrei uma fala que contém um pedacinho que tomo como desafiador para todos nós: «Talvez você tenha perdido a tolerância para com esse desejo de isolamento que a fé na ambição de um espírito tornou heróico.» Tolerar o isolamento... Associo logo solidão e silêncio ao isolamento...

Penso que, em geral, associamos a tolerância à aceitação de opiniões, pessoas, estilos de vida ou culturas diferentes, mas, na verdade, a tolerância é igualmente posta à prova perante o silêncio. Quando alguém manifesta um profundo desejo de isolamento, a nossa reação instintiva é frequentemente a de tentar "consertar" a pessoa, trazê-la para junto de nós ou trazer-lhe companhia, assumindo que estar só é algo negativo.

É fácil aceitar que, aqui ou ali, alguém queira estar sozinho, em silêncio, quantas vezes dizemos «Vá, deixa-o estar, ele quer estar agora ali sozinho, deixem-no...» Difícil é aceitar que alguém queira estar geralmente sozinho.

Nesta segunda situação, a verdadeira tolerância está na capacidade de, por muito empáticas, carinhosas e louváveis que sejam as nossas intenções, não invadir esse espaço de isolamento e silêncio, não sendo necessariamente de solidão. A verdadeira tolerância está na capacidade de aceitar que o recolhimento do outro não é uma afronta pessoal nem um defeito, mas sim uma necessidade legítima. Tolerar o

isolamento alheio é compreender que, por vezes, a forma mais elevada de respeito é simplesmente deixar o outro em paz, sem julgamentos e sem a exigência de que ele participe no ruído do mundo.

Nas sociedades e nos sistemas educativos — pensando bem, qual não é assim? — que premeiam a extroversão, a participação ruidosa e o trabalho de grupo constante, o desejo de isolamento é frequentemente diagnosticado como um problema a corrigir. Olhamos para a criança ou para o adulto que se retira como alguém a quem "falta algo" — faltam competências sociais, falta alegria, falta integração.

A Educação e as escolas, em particular, pedem uma pedagogia própria para o aluno que se isola, que, quem sabe, apenas deseja ser deixado em paz. Ao permitirmos que alguém «Ele só quer que o deixem em paz», sem o julgarmos, estamos a validar a sua vida interior certamente viva e intensa. Estamos a ensinar que não é preciso estar constantemente em palco para se ter valor. O segredo da sábia e prudente pedagogia será a de não é "mudar" a pessoa, mas sim adaptar o ambiente (na sala de aula, nas relações professor-alunos) para que ela possa contribuir com o seu melhor, sem se sentir obrigada, violentada.

Respeitar a idiossincrasia do Outro, tolerar e aceitar o seu desejo de isolamento é um desafio para as estratégias pedagógicas do trabalho de grupo e do trabalho individual. Vamos pensar nalgumas possíveis estratégias? Eu vou, e delas depois aqui darei conta.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

domingo, dezembro 28, 2025

#TOLERÂNCIA364 - "ET PUR SI INTOLERANTIA MALA CRESCIT."

 #TOLERÂNCIA364 - "ET PUR SI INTOLERANTIA MALA CRESCIT."

Bem espero que a minha fonte na Internet saiba mais latim do que eu. Pedi-lhe para escrever, inspirando-me na clássica afirmação que é atribuída a Galileu Galilei, "E no entanto a tolerância negativa cresce."

Lembrei-me da afirmação de Galileu Galilei a propósito da notícia da edição de hoje do Jornal de Angola, que tem por título "Obra do árbitro internacional, "Livro promove debate sobre valores sociais", sendo autor o jornalista Armindo Pereira (na página 29).

«O árbitro internacional angolano de basquetebol António Samuel pretende acrescentar valor ao debate em torno da ética desportiva com a obra intitulada "Entre Linhas e Regras" lançada oficialmente, ontem, num acto realizado no anfiteatro da Federação Angolana de Basquetebol (FAB),

em Luanda.

»Marcado por reflexões profundas sobre ética, autoridade e convivência no desporto e na sociedade, falando durante a cerimónia, António Samuel explicou que o livro, sendo dirigido ao público em geral, com especial enfoque em jogadores e treinadores de basquetebol, a obra nasce da sua inquietação
face à crescente normalização da intolerância no meio desportivo e à dificuldade em aceitar o erro.

»Na obra retratada em 99 páginas, o árbitro questiona a urgência em julgar sem compreender, vencer sem respeitar e responsabilizar sempre terceiros, atitudes que, no seu entender, fragilizam não apenas o desporto, mas também a vida em comunidade.»

"Normalização da intolerância [negativa]", não, não pode haver tolerância para tal. "dificuldade em aceitar o erro", pois, é preciso educar a aceitar o erro.»

Fica-me a apetecer ligar esta publicação angolana à publicação da portuguesa "Move-te por Valores", e à exposição "Move-te por Valores!". Sim, vou tentar fazer essa ligação, há muito que sabemos que juntos somos mais fortes. Depois virei aqui dar notícias do meu esforço.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

sábado, dezembro 27, 2025

#TOLERÂNCIA363 - TOLERÂNCIA E 'STRESS'

 #TOLERÂNCIA363 - TOLERÂNCIA E 'STRESS'

O pensamento é simples: se nos sentirmos bem no nosso corpo, a nossa mente também se sentirá bem; se mentalmente nos sentirmos bem, seremos certamente mais tolerantes.

A ideia de ligar o estado dos intestinos ao estado da mente não é nova, mas há épocas em que coisas velhas se vestem de roupas novas e tornam-se mais visíveis e atractivas para gentes também novas.

A conclusão na geografia desta viagem é simples: a educação da tolerância passa também pela educação do corpo, da saúde do corpo.

O texto que reproduzo encontrei-o na edição de hoje do Diário de Coimbra e foi escrito por Maria José Temido, gastroenterologista no Hospital CUF Coimbra e no Hospital CUF Viseu. Tem como título "Ansiedade e Intestino: uma ligação que não podemos ignorar".

«Quase todos conhecemos a sensação: um momento de 'stress' e, de repente, o intestino reage. Mas o que acontece quando estes sintomas deixam de ser pontuais e começam a interferir com a rotina? Quando nada do que tomamos melhora o desconforto? Ou quando nos apercebemos de que a

ansiedade piora os sintomas intestinais? Será que o nosso intestino alimenta a ansiedade?

»A ciência responde cada vez com mais clareza: o intestino e o cérebro comunicam intensamente entre si e alterações num influenciam o outro. Não somos um conjunto de órgãos independentes, mas um sistema integrado onde tudo está ligado.

»O tracto gastrointestinal e o cérebro formam aquilo a que chamamos eixo intestino-cérebro — uma rede de comunicação que utiliza nervos, hormonas, substâncias químicas e até as bactérias que vivem no intestino. Esta ligação explica porque sintomas emocionais podem ter reflexo directo no aparelho digestivo. Os estudos mostram que esta relação é muito comum. Cerca de 30 a 40% das pessoas com queixas digestivas, como dor abdominal, distensão, diarreia ou obstipação, têm também ansiedade significativa, e cerca de 25% apresentam sintomas depressivos. E a relação é bidireccional: a ansiedade aumenta o desconforto intestinal e os sintomas digestivos persistentes aumentam a ansiedade. Cria-se um ciclo que pode comprometer o bem-estar e a vida social.

»O 'stress' também desempenha um papel central. Quando estamos sob pressão, o organismo liberta hormonas como o cortisol e a adrenalina, que podem acelerar ou abrandar o trânsito intestinal, aumentar a sensibilidade à dor e tornar o intestino mais reactivo. Pelo contrário, alterações no intestino — como inflamação leve ou desequilíbrio da microbiota — podem influenciar o humor, reduzir a tolerância ao 'stress' e intensificar a percepção de dor.

»Por isso, tratar apenas o órgão que dói, muitas vezes, não basta. Num problema que resulta da interacção entre vários sistemas, a abordagem tem de ser global. Isso inclui avaliar hábitos de vida, sono, alimentação, níveis de 'stress', saúde mental e actividade física. Intervir nestas áreas pode aliviar os sintomas digestivos e, ao mesmo tempo, melhorar a saúde emocional.

»Compreender esta ligação não é apenas uma curiosidade científica. É um passo fundamental para uma medicina mais humana e mais eficaz — e para devolver às pessoas aquilo que procuram acima de tudo: uma vida melhor.»

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

#TOLERÂNCIA362 - DEMOCRACIA E TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA362 - DEMOCRACIA E TOLERÂNCIA

A edição de hoje do Expresso traz um artigo de opinião que merece discussão atenta. Atenta e tolerante. A autora é a jurista constitucionalista Teresa Violante. O título do artigo é "A democracia que se defende".

«O Tribunal Cível de Lisboa ordenou a André Ventura a remoção de cartazes que atacam a comunidade cigana. O candidato presidencial já classificou a decisão como um ataque à liberdade de expressão. Terá razão? A resposta curta é: não. A jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos é clara. Em ‘Féret c. Bélgica’ (2009), o TEDH considerou legítima a condenação criminal de um político por panfletos eleitorais que estigmatizavam imigrantes, sublinhando que os políticos têm um dever acrescido de evitar discursos que fomentem a intolerância. A jurisprudência é particularmente relevante quando se trata da comunidade cigana. Em ‘Boudinova e Chaprazov c. Bulgária’ (2021), o Tribunal condenou a Bulgária por falhar na protecção de cidadãos roma contra declarações públicas de um político de extrema-direita.

»A liberdade de expressão política, embora ampla, não protege generalizações discriminatórias dirigidas a grupos étnicos. Mais: o artigo 17.º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos exclui da protecção discursos manifestamente contrários aos seus valores — a chamada cláusula de abuso do

direito.

»A decisão da juíza Ana Barão inscreve-se nesta lógica: cartazes que “agravam o estigma e o preconceito” contra uma minoria étnica, fomentando “intolerância, segregação, discriminação e, em última análise, ódio”, situam-se fora do âmbito protegido da liberdade de expressão. Não se trata de censurar críticas políticas ou opiniões incómodas. Trata-se de reconhecer que a democracia pode — e deve — defender-se de quem instrumentaliza as suas liberdades para minar a igual dignidade de todos.

»Karl Loewenstein cunhou o conceito de “democracia militante” nos anos 30, ao observar como a democracia de Weimar sucumbiu por se recusar a combater movimentos que usavam instrumentos
democráticos para destruí-la. A lição histórica é clara: a tolerância ilimitada do intolerante conduz à destruição da tolerância.

»Mas a democracia militante comporta riscos. O primeiro é a vitimização: Ventura explorará esta decisão como prova de que o “sistema” o persegue, reforçando a narrativa ‘anti-establishment’ que alimenta o seu eleitorado. O segundo é a tentação de reduzir a defesa democrática a proibições judiciais, esquecendo que os tribunais tratam sintomas, não causas.

»O Chega não surgiu no vazio. Surgiu num país onde o fosso entre Portugal urbano e interior se alarga, onde a classe média se sente pressionada, onde muitos encaram, com apreensão, mudanças que não compreendem. A democracia não se defende apenas nos tribunais. Defende-se com políticas que respondam às necessidades reais que os populistas exploram — habitação, saúde, segurança e integração.

»A democracia que se defende nos tribunais pode ganhar batalhas. Mas só a política conseguirá ganhar esta guerra.»

#tolerância, #tolerance, #Tolerancia, #tolérance, #tolleranza, #toleranz, #tolerantie, #宽容, #寛容, #관용, #सहिष्णुता , #סובלנות, #हष्णत, #Ανοχή, #Hoşgörü, #tolerans, #toleranță, #толерантность, #التس

sexta-feira, dezembro 26, 2025

#TOLERÂNCIA361 - PRESIDENTE APELA A MAIOR TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA361 - PRESIDENTE APELA A MAIOR TOLERÂNCIA

Assim que li o título e o subtítulo da capa do Jornal de Notícias, ri-me a perguntar-me a mim mesmo se o senhor Presidente Marcelo Rebelo de Sousa anda a ler os apontamentos desta minha viagem, que, é verdade, está quase a chegar ao fim.

"Marcelo quer fim de «novos muros» e lamenta «pobreza com envelhecimento imparável». Na habitual mensagem de Natal para o JN, o presidente da República evoca Jorge Sampaio e apela a maior tolerância." O senhor Presidente da República, digo-o com o mesmo espírito de abertura e tolerância

que tive há poucos dias com socialista Alexandra Leitão, merece que eu guarde nesta viagem a sua mensagem de Natal, que é, afinal, também uma mensagem de despedida, tal como era a de Alexandra Leitão.

Título: "Os nossos muros ou a lembrança de Jorge Sampaio"

«Todos os Natais, os cristãos acreditam mais na sua fé e todos, cristãos, outros crentes e não crentes, vivem a família, o encontro, o reencontro, a partilha possível para cada uma e cada um. Diferentes. Que não há duas pessoas iguais. E muitos de nós recordam — na sua solidão ou no meio dos abraços e beijos de Natal — aquelas e aqueles que não têm Natal, nunca tiveram e nunca terão. Porque a miséria, a guerra, a morte, a doença ou a distância dos seus entes queridos toldam de uma tristeza, saudade, melancolia, dor, a alegria, mesmo se só possível, de um tempo de esperança.

»As televisões recordam os que sofrem na Ucrânia, no Médio Oriente, no Sudão. Mais raramente, os que nasceram, vivem e morrem sem nunca ninguém saber que existem e quem são. Ainda assim, no Natal há quem pare um minuto para não se esquecer desses milhares de milhões sem Natal, ou milhões para quem o Natal em guerra passou a ser um modo de viver o Natal. Este ano, não sei porquê, lembrei-me de Jorge Sampaio. Estávamos em 1989. E concorríamos os amigos já antigos, filhos de pais amigos já antigos, à Câmara de Lisboa. Caiu o muro de Berlim. E eu sublinhei esse momento decisivo na História contemporânea e que viria a substituir as duas superpotências de décadas pelas duas superpotências de hoje, com a que deixou de o ser a nunca desistir do sonho do que fora. E converti o momento, em sinal para o futuro, também de Portugal.

»Aí, Jorge Sampaio respondeu a essa minha chamada de atenção diria de razão na mudança no Mundo, mas, igualmente, conveniente como arma eleitoral com um comentário muito simples e muito poderoso — "mais importantes do que o muro de Berlim são os muros que existem na nossa terra". Não garanto o rigor dos termos, mas ideia era essa. E, este ano, este Natal, lembrei-me de Jorge Sampaio e da sua frase, obviamente eleitoral, mas, essencialmente, justa e certeira. Quase quarenta anos depois, Natal que ignore os muros de Berlim de hoje, os de lá de fora, os das guerras, ódios, disputas, pobrezas do Mundo, não é Natal, nem é nada. Porque, mais do que nunca, somos um só planeta, um só Mundo, uma só Humanidade.

»Os muros dos outros são os nossos muros. As fronteiras, as opressões, os sofrimentos dos outros, são as nossas fronteiras, opressões, sofrimentos. E as suas esperanças, ainda que muito vagas, muito ténues, muito precárias, são s nossas esperanças. Para já o cessar-fogo no Médio Oriente, na Palestina, em Gaza. Ainda não na tão mais próxima Ucrânia.

»Eu tinha razão ao falar no muro de Berlim. Nos muros lá de fora, que são cá de dentro. Inevitavelmente. Só que Jorge Sampaio tinha razão ao evocar os muros nascidos e agravados cá dentro. E que, alguns deles, não pararam de se agravar.

A pobreza já foi mais grave e já foi menos grave. Mas nunca deixou ser grave demais para o todo nacional que somos. Antigos muros caíram. Novos muros se ergueram. Pobreza com envelhecimento colectivo imparável. Menos jovens a ficarem e mais gerações antigas a entrarem em becos sem saída. Mais leis a prometerem melhor futuro com mais abertura, tolerância, paz, segurança e, ao mesmo tempo, mais medos, reais ou imaginários, mas todos vividos como reais, a convidarem a mais muros, muros mais altos, tão altos que não se veja nada senão muros. Foi assim, veio-me à memória a frase de Jorge Sampaio, este ano, este Natal. Quer isto dizer que deixemos de estar atentos aos muros lá de fora? Claro que não. Eles são ou serão, mais dia menos dia, nossos. Quer isto dizer que desanimemos, desistamos da esperança, sempre, e, em especial, no Natal? Claro que não. Há muros que podem ser difíceis de demolir. Porém, não são impossíveis. Quer isto dizer que percamos a esperança neste Natal, e fora dele e sempre? Claro que não. Umas vezes, ajudamos a derrubar muros. Outras, fracassamos. E o mais avisado talvez seja, neste Natal, revermos o rol dos muros mais urgentes de superar. Sem respondermos a um muro com outro muro. Que os muros tendem a alimentar-se de outros muros. E isso não cria esperança, alimenta condomínios fechados de egoísmos em que só alguns têm direito ao Natal.»

O Jornal de Notícias, na página a seguir diz que o senhor Presidente Marcelo já tinha falado na Tolerência no discurso de Natal de 2024 e cita-o assim; «A liberdade determinando diversidade de ideias, pluralismo de modos de pensar e agir, tolerância, aceitação da diferençа, recusa do monopólio da verdade. A igualdade exigindo a superação das discriminações injustas, os guetos, as exclusões, a perpetuação da pobreza de geração para geração».

Tive uma ideia! Vou fazer um jogo de dinâmica de grupo em que cada participante tem um muro à sua frente. O objectivo será o de que os jogadores sejam capazes de derrubar o maior número possível de muros. Depois partilho o jogo aqui.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

quarta-feira, dezembro 24, 2025

#TOLERÂNCIA360 - A TOLERÂNCIA E OS LÍDERES POLÍTICOS E RELIGIOSOS

 #TOLERÂNCIA360 - A TOLERÂNCIA E OS LÍDERES POLÍTICOS E RELIGIOSOS

A véspera de Natal está cheia de mensagens de Paz, Amor e Fraternidade. Fiz umas buscas na Net e confirmei o que apontei na estação de ontem: Tolerância é praticamente só a de ponto. E esta já é muito boa! É que as pessoas andam a trabalhar demais, há muito que em intensidades que não são amigas da saúde mental, do bem-estar pessoal e do salutar convívio das pessoas umas com as outras e com as coisas das culturas humanas.

Os 'chatbots' desenrascaram-se com o pedido que fiz a vários deles e disseram-me (sim, vários) que não tinham praticamente nada, mas que os tais discursos dos líderes políticos e religiosos que eu queria falavam dos "pilares da tolerância".

Para já, em jeito de parêntesis, posso dizer que 2 dos 'chatbots' "corrigiram-me" e disseram-me que não existe nenhum papa Leão XIV, o último Leão foi XIII e o actual papa se chama Francisco, eh, eh, eh...

Voltando aos pilares, mais uma vez o Gemini (que foi um dos que me disse que o actual Papa se chama Francisco, mas eu, tolerantemente, corrigi-o) foi o que me deu a resposta que mais me agradou. Vou resumi-la, para o escrito não ficar muito grande.

Curiosamente, os autores mais destacados pelo Gemini (e por outros 'chatbots') foram o Papa Leão XiV (já disse, com as minhas correcções!) e... pois é, o Jorge Pinto, candidato presidencial pelo Livre.

Quanto aos pilares, o Gemini resumiu-os falando em "diversidade" e "alteridade"; "Portugal da diversidade e da pluralidade", "todas as cores", "fazer as pazes"; "alteridade" E O Gemini remata que «Estes pilares sugerem que a tolerância, no contexto actual, deixou de ser apenas "suportar o outro" para se tornar uma acção ativa de construção social», que tem 4 pilares: o Pilar da Alteridade (Reconhecimento da Dignidade), o Pilar do Pluralismo e da Inclusão (Diversidade como Activo), o Pilar da Coexistência Democrática (A "Paz no Dia Seguinte") e o Pilar do Acolhimento (Combate à Indiferença).

São estimulantes estas coisas dos 'chatbots', estimulantes porque nos ajudam a pensar, é claro, temos de ser sábios a usá-los. De resto, mais uma vez consegui coleccionar material para uma boa sessão de trabalho de grupo sobre a Tolerância. Valeu a pena a busca na Net; e, como disse, deu também para voltar a lembrar o cuidado que temos de ter com as "certezas" e as "verdades" da Inteligência Artificial. Ainda virá o dia em que a IA se justificará, tentando dar mostras de humor (para já, não tem nenhum, o humor é demasiado humano), dizendo-me que «Errar é humano», eh, eh, eh.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

terça-feira, dezembro 23, 2025

#TOLERÂNCIA359 - A TOLERÂNCIA NUM DIA ESPECIALMENTE EXIGENTE

 #TOLERÂNCIA359 - A TOLERÂNCIA NUM DIA ESPECIALMENTE EXIGENTE

Que dia o de hoje!... "Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita" é um ensinamento bíblico de Jesus (Mateus 6:3-4). Como tantas vezes tenho dito, não sou crente em Deus, mas a influência da educação, directa e indirecta que recebi, está cá. Bronfenbrenner falaria em microssistema, mesossistema e macrossistema.

Estou carregadíssimo, hoje, de razões para dizer bem de mim e da min ha relação com o Mundo. Não é fácil, por exemplo, pôr em palavras os sentimentos que se cruzam dentro de nós quando tomamosconsciência de que, embora a grande distância, durante horas e horas se foi capaz de gerir a tensão, a espada por cima da cabeça de alguém, e tudo acabar em paz: conseguimos que uma vida voluntariamente determinada a terminar fora de tempo não o fizesse. E esta tensão difícil misturada com mais uma mão cheia de outras. Há dias assim.

Fico com a curiosidade de ler este escrito daqui a um ano: é que penso que, se não fosse a aprendizagem da tolerância a que a mim próprio me dediquei ao longo deste ano, muito dificilmente suportaria com o sereno estado de espírito quer sempre encontrei em mim as coisas que fiz hoje — com familiares, com amigos, com pacientes.

É verdade, estou absolutamente convicto de que vale a pena a aprendizagem da tolerância. Para que tal aconteça, temos mesmo que nos dedicar a ela, dia-a-dia. Hoje sei que vale a pena; e que se consegue.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 


segunda-feira, dezembro 22, 2025

#TOLERÂNCIA358 - TOLERÂNCIA E NATAL

 #TOLERÂNCIA358 - TOLERÂNCIA E NATAL

Hoje aproveitei — inesperadamente, tive uma folga de tempo — para, digamos, brincar um pouco: cheguei-me aos 'chatbots' e perguntei-lhes o que encontravam eles por aí que relacionasse Tolerância com Natal.

Perguntei ao Gemini, ao AskGPT, ao ChatGPT, ao Perplexity.AI e ao DeepSeek. Por esta ordem. Os que, aparentemente, menos se esforçaram foram o AskGPT e o ChatGPT, pelo menos tendo em conta o tamanho do texto e também, é verdade, o conteúdo. O DeepSeek foi o que mais escreveu, a seguir foi o Perplexity.Ai. A melhor resposta, a que mais me agradou, a que mais nos faz pensar, foi a do Gemini. Vou escrevê-la a seguir, integralmente. O pedido era este: "Quero saber se agora na época de Natal, no mundo inteiro, há mais notícias a falarem da tolerância do que no resto do ano. Responde em português de Portugal."

«A resposta curta é: provavelmente não. Na verdade, se analisarmos as notícias em Portugal, a palavra "tolerância" aparece muito mais nesta época, mas não com o sentido moral que estás à espera.

»Aqui está o que realmente acontece nas notícias durante o Natal, distinguindo a realidade dos factos da nossa percepção emocional:

  1. O "Falso Positivo" Português: "Tolerância de Ponto"
    Em Portugal, há um pico enorme de notícias com a palavra "tolerância" em Dezembro, mas refere-se quase exclusivamente à "tolerância de ponto" (a dispensa de trabalho para a função pública).

»Se pesquisares agora por "tolerância" nos jornais portugueses, a vasta maioria dos resultados será sobre os despachos do Governo para os dias 24, 26 ou 31 de dezembro, e não sobre aceitação ou respeito pelo próximo.

  1. A Palavra Real [no sentido de acção concreta], do Natal é "Solidariedade" (não Tolerância)
    Os 'media' e os discursos oficiais (do Papa, do Presidente da República, etc.) mudam de facto o tom, mas a palavra-chave não costuma ser "tolerância". As palavras que estatisticamente
    dominam a época são:

»Solidariedade: Campanhas de recolha de alimentos, apoio aos sem-abrigo e donativos.
Paz/Reconciliação: Especialmente em mensagens religiosas (como a 'Urbi et Orbi' do Papa) ou sobre conflitos internacionais (Gaza, Ucrânia).
Consumo/Preços: Este ano, em particular, muitas notícias focam-se na inflação, no preço do bacalhau e nas compras.

  1. Quando é que se fala mais de Tolerância?
    Curiosamente, é provável que haja mais notícias sobre "tolerância" (no sentido moral) em novembro do que no Natal.

»Isto acontece porque o Dia Internacional da Tolerância celebra-se a 16 de Novembro. Nessa data, há uma concentração real de artigos, 'workshops' e discursos focados especificamente nesse tema, algo que no Natal se dilui em mensagens mais genéricas de "amor ao próximo".

»Resumo da Análise
Embora tenhamos a sensação de que o mundo fica mais "tolerante" no Natal, as notícias não reflectem necessariamente isso. O jornalismo tende a focar-se no caos das viagens, no consumo e, no caso português, na burocracia das folgas. A "tolerância" é um tema de fundo, mas raramente é a manchete principal.»

Gostei do que li. Alarga-nos o pensamento sobre as coisas, não é?

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس